Eu preciso do feminismo. E estou brava

Cláudia Trevisan

11 Março 2015 | 00h28

Muita coisa me choca no Brasil, mas ver uma mulher dizer que não precisa do feminismo provoca algo próximo da ira. Os homens ganham 30% a mais que as mulheres. Mães que pegam no batente todos os dias nem sempre têm creches onde deixar seus filhos. Das cerca de 5.600 mulheres assassinadas no país a cada ano, 40% são mortas dentro de suas casas, vítimas da violência doméstica. E todos os anos, pelo menos 850 mil mulheres  realizam abortos clandestinos, em condições que colocam suas vidas em risco.

Feminismo é exigir salários iguais para as mesmas funções, demandar que a sociedade assuma responsabilidades pelo cuidado de suas crianças e combater a situação degradante imposta a muitas mulheres que enfrentam uma gravidez indesejada. Estudos acadêmicos estimam que 20% das brasileiras em idade reprodutiva realizam abortos ilegais, em procedimentos inseguros que podem provocar sua morte ou complicações sérias. Isso significa que há uma grande probabilidade de que alguém de sua família ou grupo de amigos realizou ou realizará um aborto.

Não sei você, mas eu preciso de feminismo. E dizer o contrário presta um desserviço às mulheres que estão na linha de frente defendendo políticas que nos beneficiarão a todas. Também é negar a árdua batalha das que vieram antes, quando uma mulher não podia deixar um casamento infeliz, o trabalho doméstico era a opção natural e as que se aventuravam fora das paredes de suas casas só podiam desempenhar funções “femininas”, como professora ou secretária. A sexualidade era um tabu e o prazer frequentava o domínio dos homens.

O Brasil ainda é profundamente machista e isso se revela nas pesquisas que mostram uma alarmante tolerância à violência contra a mulher. Em levantamento realizado pelo Ipea no ano passado, 58% dos entrevistados concordaram total ou parcialmente com a afirmação “se as mulheres soubessem se comportar haveria menos estupros”, o que responsabiliza a vítima pelas ações de seu agressor. Para 63%, “casos de violência dentro de casa devem ser discutidos somente entre os membros da família”, o que deixa a polícia e o Judiciário fora dos casos de agressão.


O feminismo de hoje é seguramente diferente do feminismo de 50 anos atrás. Mas sua tarefa está longe de estar concluída. As (e os) que negam sua relevância deveriam assistir ao espetacular documentário She is Beautiful when she is Angry (Ela é bonita quando está brava), que mostra as principais batalhas travadas pelas feministas americanas desde os anos 60 até os dias de hoje. É atual, é relevante, é necessário.

Algumas das discussões mostradas no filme ainda não chegaram nem a ser travadas na sociedade brasileira. A principal delas é a criminalização do aborto, que submete centenas de milhares de mulheres a um tratamento indigno. Além de colocar suas vidas em risco, a proibição da prática ineficaz. O número de abortos no Brasil é maior que o dos Estados Unidos, onde o procedimento é legal. O que reduz a incidência de abortos não é sua criminalização, mas sim a redução de gravidezes indesejadas, o que exige informação e amplo acesso a métodos anticoncepcionais. Mas os mesmos setores que se opõem à descriminalização do aborto também resistem à contracepção, o que dificulta a implementação de qualquer política pública coerente.

O Brasil merece uma discussão sobre o aborto que não seja pautada pelo obscurantismo das propostas desengavetadas pelo presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, que pretende ampliar as restrições da já extremamente restrita legislação brasileira sobre o assunto. Aborto não é uma questão criminal. É uma questão de saúde pública.

Acho que está na hora de ficarmos bravas.