Hillary Clinton venceu o 1º debate democrata

Cláudia Trevisan

14 Outubro 2015 | 01h17

Hillary Clinton foi a vencedora do primeiro debate entre os democratas que aspiram ser os candidatos do partido à sucessão de Barack Obama. Depois de meses de desgaste em razão do uso de um servidor privado de internet durante sua gestão como secretária de Estado, a ex-primeira-dama se mostrou confiante, articulada e, acima de tudo, autêntica. Criticada muitas vezes por um estilo excessivamente calculado e ensaiado, Hillary estava convincente no centro do palco que dividiu com quatro homens.

Além disso, a pré-candidata teve ajuda de seu principal adversário, o senador Bernie Sanders, para descartar perguntas sobre a polêmica em torno do servidor de internet. Segundo ele, os americanos estão “cheios” da discussão sobre os e-mails de Hillary e querem debater os problemas reais que afetam a economia e o futuro da classe média do país.

Depois de evitar a ênfase na identidade de gênero na disputa que teve com Barack Obama, em 2008, a candidata colocou a questão feminina no centro de seu discurso. Disse que o fato de ser mulher seria a mudança mais “óbvia” em relação ao atual presidente e fez uma defesa apaixonada da concessão de licença maternidade remunerada –um direito inexistente nos EUA em âmbito federal.

Ao defender o benefício, ela também atacou o que chamou de “inconsistência” dos republicanos, que criticam a licença maternidade sob o argumento de que o Estado não deve se intrometer na vida pessoal de seus cidadãos, mas tentam impedir o funcionamento da principal instituição provedora de serviços de aborto e planejamento familiar.

Social-democrata em um país que venera o capitalismo, Sanders subiu nas pesquisas com um discurso crítico à Wall Street, às grandes corporações e ao financiamento de campanha por bilionários, que forçaram Hillary a se mover para a esquerda em suas propostas. Quando o moderador Anderson Cooper perguntou aos candidatos quem eles gostariam de ter como seus inimigos reconhecidos, a ex-secretária mencionou a indústria farmacêutica, os fabricantes de armas, Irã e os republicanos.

Com as propostas mais à esquerda de todos os participantes do debate, Sanders teve uma performance vacilante em relação ao controle de armas, menos de duas semanas depois de mais um tiroteio em massa que deixou 10 mortos no Oregon. Senador por Vermont, o candidato disse que há uma diferença em relação à questão entre Estados rurais e urbanos, no que foi criticado pela maioria dos demais participantes do debate promovido pela CNN.

“É o momento de o país se levantar contra a NRA”, declarou Hillary, em relação à Associação Nacional do Rifle, principal lobby da indústria de armamentos americana. A ex-secretária de Estado lembrou que Sanders votou em cinco ocasiões contra projetos que tentavam impor regras mais estritas para o setor.

Hillary se definiu como uma “progressista” pragmática, que tenta fazer com que mudanças sejam implementadas, enquanto Sanders se apresentou como o único que pode se levantar contra o poder dos bilionários de Wall Street e do “1%”.

As principais críticas dirigidas a Hillary tiveram por alvo sua atuação na política externa: seu apoio à guerra do Iraque em 2003, a atuação dos EUA na crise da Líbia em 2011, quando ela era secretária de Estado, e sua recente defesa de uma zona de exclusão aérea na Síria. Apesar da boa performance de ontem, a pré-candidata continuará a enfrentar a investigação sobre seus e-mails e os questionamentos sobre sua passagem pelo governo Obama.

De uma maneira geral o debate revelou muito mais coincidências entre os democratas do que o dois eventos que reuniram republicanos, marcados por ataques pessoas e insultos de Donald Trump a mulheres, imigrantes e seus companheiros de partido.

A coincidência entre os candidatos foi ressaltada pela maioria dos que participaram do debate, mas foi enfatizada de maneira especial pelo ex-governador de Maryland, Martin O’Malley. “Nesse palco, não ouvimos ninguém denegrir as mulheres, não ouvimos ninguém fazer comentários racistas sobre novos imigrantes americanos, não ouvimos ninguém falar mal de americanos por causa de suas crenças religiosas.”