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Mães negras de Ferguson temem violência policial contra seus filhos

claudiatrevisan

21 agosto 2014 | 12:16

Como muitas das mulheres que marcham nas ruas de Ferguson para protestar contra a morte de Michael Brown, Debbie Winslow teme que seu filho seja vítima da brutalidade policial. “Meu filho é bom garoto, mas ele é alto, bonito e negro”, disse ela, que é aeromoça da Delta Airlines e duas vezes por mês faz a rota para São Paulo.

Seu filho tem 26 anos e trabalha como operador de guindastes. Winslow também tem uma filha de 23 anos, que é representante de vendas. “Nós temos que acabar com as mortes de nossos garotos. Não podemos ter outros Michael Browns”, afirmou Winslow.

Tiffiany Hamilton é mãe de um adolescente de 16 anos. Segundo ela, o filho é um dos melhores alunos de sua classe, mas isso pode não ser suficiente para evitar que ele seja alvo da polícia. Hamilton conhecia Brown e vive a poucas quadras do local onde ele foi morto.

Mãe solteira de uma garota de 13 anos e um menino de 6, Lakresha Morre disse ter dificuldade para explicar ao filho mais novo o que aconteceu em Ferguson e a razão pela qual o início de suas aulas foi adiado. “Quando eu contei a história de Michael Brown, meu filho me disse que não queria levar um tiro”, lembrou Morre, com lágrimas nos olhos. “Tudo isso deixa as crianças aterrorizadas. Se tiverem problema no futuro, eles não vão confiar na polícia”, afirmou.

Lakeisha Ellis disse que participa dos protestos em Ferguson há 11 dias por não querer que seu filho de 12 anos seja vítima da violência policial. Desde que desde que tirou sua carteira de motorista, há mais de 20 anos, ela foi parada inúmeras vezes pela polícia, sem razão aparente. “É o crime de ser negro e dirigir”, ironizou.

Uma das poucas pessoas brancas a participar das manifestações de Ferguson, Kelsey Power afirmou que também foi objeto do “perfil racial” da polícia. Casada com um negro, Darryl Charleston, e mãe de um menino de 3 anos, ela disse ter sido abordada em sua própria casa por estar em um bairro de maioria negra. “A presunção é que um branco em um bairro negro só pode ser consumidor de drogas.”

O casal e filho moram em Saint Louis, cidade do Missouri localizada a poucos quilômetros de Ferguson. “Nós decidimos participar dos protestos para pressionar pela solução do caso e a realização de um julgamento imparcial”, disse Power.
Na terça-feira, um negro de 23 anos foi morto por policiais de Saint Louis quando carregava uma faca, se comportava de maneira errática e ignorava ordens de se render. “O rapaz estava claramente perturbado e não acredito que a polícia não tivesse outros recursos para imobilizá-lo além dos tiros”, afirmou Hamilton. “Por que não usaram spray de pimenta?”, perguntou.