O que ainda importa no show de Trump

Cláudia Trevisan

23 Janeiro 2018 | 02h04

 

Dez meses antes de sua eleição, Donald Trump disse em um discurso que poderia atirar em alguém na 5ª Avenida em Nova York e não perder nenhum voto. Desde que chegou à Casa Branca, há um ano, o presidente não disparou contra ninguém, mas cruzou inúmeras fronteiras do que era tradicionalmente considerado aceitável do líder da maior potência mundial. Ainda assim, manteve o apoio de sua base.

O mais recente escândalo foi a revelação, pelo Wall Street Journal, de que o advogado de Trump pagou US$ 130 mil a uma atriz de filmes pornô 30 dias antes da eleição para comprar seu silêncio em relação ao caso extramatrimonial que ela disse ter tido com o presidente em 2006. Na época, Trump já era casado com Melania e seu filho Barron havia acabado de nascer.

O Wall Street Journal é o mais conservador dos grandes jornais americanos e seu dono é Rupert Murdoch, o bilionário cujo império de mídia inclui a Fox News, a emissora com a cobertura mais favorável à presidência de Trump. A revelação seria uma bomba no colo de outros ocupantes da Casa Branca, mas acabou relegada às páginas internas da maioria dos jornais e foi mencionada com discrição pelas redes de TV.

O Saturday Night Live, um dos mais célebres programas humorísticos dos EUA, trouxe um quadro em sua última edição no qual participantes de um programa de autoritório fictício tinham que dizer se determinadas ações ou declarações de Trump ainda importavam.

“O presidente se refere a países africanos como buracos de cocô e diz que todos os haitianos têm Aids. Isso ainda importa?”, pergunta a apresentadora, interpretada por Jessica Chastain, que atuou em A Grande Jogada, Armas na Mesa e Interestelar, entre outros filmes.

A buzina de reprovação soa quando um dos participantes responde “isso é realmente ruim, isso tem que importar”. Ao que a apresentadora responde: “Humm, na verdade não importa. Teve consequência zero e todo mundo seguiu adiante”.

Próxima pergunta: “O presidente tem um caso extramatrimonial com uma atriz pornô logo depois de sua mulher dar à luz a seu filho e paga a atriz pornô para ela calar a boca. Isso importa para sua base evangélica?” Depois de outro participante dizer que sim, porque o comportamento contraria tudo o que os evangélicos defendem, Chastain o corrige: “Você acredita, mas não. Eles dizem que ele se arrependeu e o perdoam”.

A Casa Branca e o advogado de Trump, Michael Cohen, negam que o caso e o pagamento tenham ocorrido. Segundo o Wall Street Journal, Cohen usou outro nome e uma empresa para mascarar a transação. O advogado também divulgou uma declaração da atriz, conhecida como Stormy Daniels, no qual ela afirma que o relacionamento não existiu.

Mas na sexta-feira, a revista de celebridades In Touch publicou a transcrição de uma entrevista realizada com Daniels em 2011, na qual ela relatava em detalhes o seus encontros com Trump, o primeiro deles em um clube de golfe no Estado de Nevada. Segundo a publicação, Daniels passou por um detector de mentiras e sua narrativa foi corroborada por pessoas próximas a ela.

Depois de ambos supostamente fazerem sexo, Daniels disse que Trump pediu seu autógrafo em um de seus DVDs pornográficos, chamado 3 Desejos. A atriz considerou a possibilidade de se candidatar ao Senado em 2009 e incluiu Trump na lista dos possíveis doadores que apresentou a seus assessores, de acordo com reportagem veiculada pela revista Mother Jones na quinta-feira.

Em e-mail obtido pela publicação e enviado naquela época, uma das assistentes da possível campanha pergunta se Daniels realmente conhecia o bilionário de Nova York. “Sim”, foi a resposta. “Ela diz que uma vez ele a fez sentar com ele por três horas para assistir “Shark Week”. Outra vez, ele fez com que ela batesse nele com uma revista Forbes.”

Em reportagem publicada na sexta-feira, o Washington Post disse que as declarações de Daniels de 2011 eram semelhantes às que ela deu em várias entrevistas à revista Slate antes da eleição de 2016. Nelas, a atriz afirmou que estava negociando o pagamento de Trump para comprar seu silêncio e temia que ele não cumprisse a promessa. Uma semana antes da eleição, Daniels deixou de falar com a revista. O fato e a dificuldade em comprovar a transação levaram os editores a optarem por não publicarem as declarações.