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Os ecos dos anos 60 em Ferguson, Missouri

claudiatrevisan

20 agosto 2014 | 13:45

As ruas de Ferguson carregam um eco dos anos 60. Não da rebeldia branca de drogas e rock and roll, mas do ativismo negro em defesa de direitos civis e contra a segregação que imperava no país. Esse muro foi derrubado há quase 50 anos, mas a morte de um jovem negro desarmado por um policial branco catalisou a percepção de que a raça ainda define o destino de muitos americanos.

“As coisas não mudaram tanto. Nós continuamos a sentir a dor da discriminação”, disse a reverenda Claudine Murphy, que dirige uma congregação em Saint Louis, capital do Missouri, fazendo um paralelo com os anos 60. Ontem ela estava no local onde Michael Brown morreu depois de receber seis tiros disparados pelo policial Darren Wilson –quatro atingiram seu braço direito e dois, a cabeça.

O reflexo dos anos 60 se revela também na imagem de policiais brancos com rifles, capacete e escudos diante de manifestantes negros, e na tensão entre forças de segurança estaduais e federais. Como ocorreu em vários Estados americanos há cinco décadas, agentes do FBI estão em Ferguson para investigar se os direitos civis de Brown foram violados. Hoje, o secretário de Justiça, Eric Holder, estará na cidade para monitorar a situação.

Apesar de ver semelhanças entre os protestos de Ferguson e as manifestações dos anos 60, Hershel Myers Jr. apontou uma diferença crucial: a ausência de lideranças fortes. Agora não há ninguém com a estatura de Martin Luther King.
Também não há uma reivindicação tão cristalina como o fim da segregação racial, que separava negros de brancos em escolas, ônibus, cinemas, banheiros públicos e restaurantes. O que existe é a percepção generalizada e difusa de que negros não têm as mesmas oportunidades que brancos e enfrentam probabilidade maior de ficarem presos em um círculo vicioso de pobreza, discriminação e violência.

Os negros integram 63% da população de Ferguson. Mas segundo dados compilados pelo New York Times, eles representam 86% das pessoas paradas pela polícia e 92% das que terminam presas. Dos 53 policiais que atuam na cidade, apenas três são negros. A maioria não vive na cidade, mas em outros subúrbios majoritariamente brancos da região.

“Como alguém pode policiar um lugar que não conhece?”, perguntou Yamiel Bell, 37, que participou de manifestação contra a morte de Brown na noite de segunda-feira. Bell disse ter sido parado várias vezes pela polícia e atribuiu isso à cor de sua pele.

A pobreza e falta de oportunidades econômicas também afetam os negros de maneira desproporcional nos EUA. O desemprego entre afro-americanos é de 11,4%, mais que o dobro dos 5,3% registrado entre brancos. O percentual dos que estão na pobreza também é duas vezes maior que o dos brancos e a proporção de negros na população que está dentro das prisões é maior que na existente fora delas.

A ausência de liderança nas manifestações era evidente na segunda-feira na avenida West Florissant, que desde a morte de Brown se transformou no endereço dos protestos pelo fim da violência policial e a punição de Darren Wilson, o oficial que disparou contra o jovem.

Alguns manifestantes acompanhavam marcha organizada por pastores evangélicos da região. Outros caminhavam atrás do rapper negro Nelly, que é de Saint Louis, que fica a poucos quilômetros de Ferguson. Uma terceira formação gritava slogans no ritmo dado por um tambor. Em comum, uma frase ouvida pela reportagem do Estado da maioria das pessoas entrevistadas no local: “Nós estamos cansados”.