Os EUA de Donald Trump veem a América Latina com lentes do passado

Cláudia Trevisan

07 Fevereiro 2018 | 00h03

Antes de iniciar seu primeiro tour latino-americano, o secretário de Estado dos EUA, Rex Tillerson, descreveu a relação entre seu país e a região com lentes de um passado que há muito deixou de existir. Além de levantar a hipótese de um golpe militar para resolver a crise na Venezuela, o chefe da diplomacia americana defendeu a atualidade da Doutrina Monroe, idealizada há quase 200 anos para manter poderes coloniais europeus fora da região.

Tillerson não tinha em mente os impérios do século 18, mas um novo ator, que classificou como “predatório”: a China. A ideia de que os EUA poderiam ditar com quem os países latino-americanos se relacionam havia sido repudiada pelo antecessor de Tillerson no cargo, John Kerry, que em 2013 declarou o fim da Doutrina Monroe e do período de interferência unilateral de Washington na região.

O atual chefe do Departamento de Estado deixou clara sua discordância com Kerry. “Às vezes eu acho que nós esquecemos a importância da Doutrina Monroe e o que ela significou para este hemisfério e para a manutenção daqueles valores compartilhados”, declarou no dia 1º de fevereiro, fazendo referência a princípios democráticos. “Eu acredito que ela é tão relevante hoje como era no dia em que foi escrita.”

Com seus ataques às instituições americanas e à imprensa livre, sua aberta simpatia a líderes autoritários e declarações favoráveis a violações de direitos humanos, o presidente Donald Trump –para quem Tillerson trabalha- tem pouca credibilidade para representar esses valores.


O secretário de Estado que defendeu que a América Latina opte pelos EUA em detrimento da China representa um governo que retrata a região como fonte de violência, tráfico de drogas e imigrantes que Trump equipara a criminosos –ainda que a esmagadora maioria dos 11 milhões que vivem de maneira irregular nos EUA seja formada por trabalhadores que limpam as casas de americanos, cuidam de seus filhos, se queimam nas cozinhas de restaurantes e carregam nas costas cestos de maçãs colhidas nas fazendas do país.

A descrição de Tillerson da presença da China na região também é defasada. A ideia de um país predatório que só se preocupa com a extração de recursos naturais não é mais verdadeira no Brasil, onde a China aumentou seus investimentos e sua presença em diversos setores, entre os quais a produção e distribuição de energia elétrica.

Não há dúvida de que há riscos no fato de que quase todos os investimentos e empréstimos de Pequim têm origem estatal e podem estar ligados a interesses não apenas econômicos, mas também geopolíticos. Tillerson mencionou a China sete vezes no discurso em que apresentou sua estratégia para a América Latina. “A oferta da China sempre vem com um preço –normalmente na forma de investimentos estatais, realizados com a importação de trabalhadores chineses, empréstimos onerosos e débito insustentável. O modelo da China extrai recursos preciosos para alimentar sua própria economia, frequentemente com desrespeito às leis dos países e aos direitos humanos”, afirmou.

Quem se lembra da crise da dívida dos anos 80 e do apoio dos EUA a regimes militares nos anos 60 e 70 não deve ver elementos mais graves no “modelo” americano do passado.

Tillerson também ignorou as quase quatro décadas de experiência democrática na região, em que os país tentaram se distanciar de sua experiência autoritária. Referindo-se à turbulência na Venezuela, o secretário de Estado disse que “na história” do país e da região “frequentemente são os militares que resolvem isso”.

A descrição pode ter sido verdadeira em um período que poucos querem reprisar, mas está longe da realidade atual da América Latina. “Quando as coisas estão tão ruins que a liderança militar percebe que não pode mais servir os cidadãos, eles conduzem uma transição pacífica”, declarou, apresentando uma versão rósea da saída marcial para crises políticas.

A história mostra que intervenções do tipo não costumam ser pacíficas nem transitórias. No Brasil, a mais recente experiência durou duas décadas.