Trump abandona promessas de campanha e abraça militarismo

Cláudia Trevisan

13 Abril 2017 | 16h18

Em um espaço de uma semana, Donald Trump reverteu sua posição em algumas dos principais temas que marcaram sua campanha eleitoral: China, Rússia, OTAN e o papel dos Estados Unidos do mundo.

O candidato que criticou intervenções militares americanas no Oriente Médio e repetiu que os EUA deveriam deixar de ser a “polícia do mundo” abraçou uma política cada vez mais beligerante na Casa Branca. Forças americanas acabam de jogar no Afeganistão a mais poderosa bomba não nuclear do arsenal do Pentágono, com um poder equivalente a 1.000 toneladas de dinamite.

Na semana passada, Trump ordenou o bombardeio de uma base aérea síria, em retaliação a um ataque com armas químicas cuja responsabilidade atribuiu a Bashar Assad –e disse que está pronto para mais. O presidente também elevou o tom com a Coreia do Norte e despachou para a vizinhança do país um grupo de ataque da Marinha, que abrange porta-aviões e navios usados para o lançamento de mísseis.

A ameaça de punir a China pela suposta manipulação de sua taxa de câmbio foi abandonada e substituída por elogios a Xi Jinping. O desejo de aproximação com a Rússia derreteu depois do ataque à Síria, que marcou o início das sucessivas guinadas de Trump.


O americano ainda não mudou a ponto de atacar Vladimir Putin, alvo de sucessivos elogios na campanha, mas o entusiasmo arrefeceu. “Eu acho que alinhar-se com Assad é um grande erro, porque ele é um açougueiro e eu penso que isso é muito ruim para a Rússia”, disse o presidente à Fox News na quarta-feira, fazendo referência a Putin. Para ele, a relação entre os dois países “talvez” esteja no mais baixo patamar de todos os tempos.

Alérgico ao multilateralismo, o candidato Trump também usou munição contra a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), a aliança que une os EUA e o Canadá à Europa. Na campanha, ele questionou a utilidade do acordo, exigiu que outros países contribuíssem mais para a entidade e colocou em dúvida o compromisso dos EUA de defender aliados europeus diante de um eventual ataque russo.

Tudo mudou ontem, quando Trump reiterou o compromisso dos EUA com a organização e seus aliados e declarou sua nova posição: “Eu disse que era obsoleta”, disse em entrevista ao lado do secretário-geral da entidade, Jens Stoltenberg. “Não é mais obsoleta.”

Trump amenizou de maneira surpreendente o tom usado com a China, que durante a campanha acusou de “estuprar” os Estados Unidos e roubar empregos e fábricas do país. Agora, o presidente diz que poderá fechar acordos comericais mais favoráveis a Pequim se tiver ajuda de Xi Jinping para convencer a Coreia do Norte a abandonar seu programa nuclear.