Trump mantém ataque a imigrantes, apesar de oferecer cidadania a “dreamers”

Cláudia Trevisan

31 Janeiro 2018 | 03h17

Donald Trump prometeu na terça-feira um caminho para cidadania aos jovens levados aos EUA quando criança, mas manteve a mesma associação de imigrantes à violência, ao terrorismo, às drogas e à criminalidade que o acompanha desde o lançamento de sua candidatura, quando se referiu a mexicanos como estupradores e traficantes.

As declarações que permearam seu discurso sobre o Estado da União indicaram que sua visão sofre a reforma do sistema de imigração do país não será facilmente conciliada com a da oposição democrata, o que pode inviabilizar sua aprovação. A mudança enfrenta resistência de setores do Partido Republicano na Câmara dos Deputados e só passará com votos da oposição.

Fiel ao tema de sua campanha, Trump apresentou um cenário de conflito entre interesses dos cidadãos do país e de imigrantes ilegais. “Os americanos também são dreamers”, declarou, usando a palavra em inglês que significa “sonhadores” e que também é usada para definir o grupo de jovens que cruzaram a fronteira com seus pais de maneira clandestina durante a infância. “Nunca houve um melhor momento para começar a viver o sonho americano”, disse Trump em seu discurso, o mesmo em que deixou claro que acredita que esse sonho é para poucos fora das fronteiras do país. “Como presidente dos Estados Unidos, minha maior lealdade, minha maior compaixão e minha constante preocupação é com as crianças americanas, com os trabalhadores americanos em dificuldade e com as comunidades esquecidas da América”, ressaltou.

“Durante décadas, fronteiras abertas permitiram que drogas e gangues inundassem nossas comunidades mais vulneráveis. Elas permitiram que milhões de trabalhadores mal pagos competissem por trabalho e salários com os americanos mais pobres. Mais tragicamente, elas causaram a perda de muitas vidas inocentes”, disse Trump.

Entre seus convidados para o discurso estavam os pais de duas adolescentes mortas por integrantes da gangue latina M-13 em New Jersey.

Na sua lista de exigências, Trump deixou claro que cobrará um preço alto pela oferta de conceder cidadania ao 1,8 milhão de “dreamers” –o benefício seria concedido ao fim de 12 anos aos que cumprirem requisitos de educação e trabalho e apresentarem “bom caráter moral”.

O presidente condicionou a concessão ao financiamento do muro entre os EUA e o México, ao aumento de recursos para a segurança na fronteira e ao fim do programa de loteria que dá 50 mil vistos de residência ao ano para nacionalidades pouco representadas na população do país. Também exigiu restrições ao que ele chama de ‘migração em cadeia’, que é a possibilidade de imigrantes patrocinarem a entrada de parentes nos EUA. O presidente quer limitar os potenciais beneficiários a cônjuges e filhos menores.

“Sob o atual sistema quebrado, um único imigrante pode trazer virtualmente um número ilimitado de parentes distantes”, afirmou o presidente, tendo como resposta a única vaia da noite, vinda da bancada democrata. Nas galerias da Câmara dos Deputados havia “dreamers” convidados por parlamentares de oposição. Estudo acadêmico publicado em 2013 estimou que cada novo imigrante patrocinava em média 3,45 familiares.

Com base em estatísticas do atual ano fiscal, o conservador Instituto Cato estimou que a proposta de Trump evitaria a entrada no país em um período de doze meses de 174 mil pais de imigrantes, 67 mil irmãos e 76 mil filhos adultos –um total de 317 mil pessoas. De acordo com entidade, familiares de imigrantes que já estão nos EUA tendem a ter nível educacional superior ao imigrante médio.

Se implementado, o plano de Trump reduzirá em 44% o número de estrangeiros que entram legalmente para residir no país, afirmou o estudo, o que representaria 22 milhões de pessoas nas próximas cinco décadas.

Os democratas se opõem a reduções na imigração legal para os EUA e muitos republicanos defenderam que o presidente abandone essa demanda e foque nos “dreamers” e na segurança na fronteira, o que incluiria a construção do muro que foi a marca registrada de sua campanha.

“Restringir a immigração ilegal negaria oportunidades de maneira desnecessária a muitas pessoas e teria consequências de longo prazo para o crescimento econômico dos Estados Unidos”, sustentou o estudo do Cato.