Único efeito de sanções dos EUA é dar fôlego a Maduro na Venezuela

Cláudia Trevisan

23 Março 2015 | 16h54

Dirigidas a sete obscuras autoridades de Caracas, as sanções impostas pelo presidente Barack Obama contra venezuelanos acusados de violação de direitos humanos e corrupção não têm o objetivo de provocar nem um arranhão na economia do país latino-americano ou na capacidade de seu governo de continuar a se relacionar com o mundo. Mas sua linguagem desastrada deu a Nicolás Maduro uma golfada de oxigênio justamente no momento em que o Brasil começava a abandonar o mutismo em relação à crise do país e esboçava críticas à crescente deterioração das garantias democráticas.

No decreto que impôs as sanções, Obama classificou a Venezuela como uma “ameaça à segurança nacional” e à política externa dos Estados Unidos, declarações que foram ridicularizadas por muitos e usadas por Maduro para alimentar a narrativa de que o Império do Norte conspira contra seu governo supostamente popular. O governo americano sustenta que a linguagem atende a uma exigência burocrática da legislação americana, segundo a qual esse tipo de declaração deve preceder a imposição de sanções.

O histórico de intervenções americanas na América Latina não ajuda o trabalho dos assessores de Obama de tentar convencer a opinião pública na região de que as sanções não são contra a Venezuela, mas sim contra sete indivíduos que estariam envolvidos em corrupção e na repressão aos protestos que ocorreram no ano passado, durante os quais 43 pessoas morreram.

Depois das manifestações, os responsáveis pela política externa de Obama resistiram a pressões do Congresso para impor sanções contra o governo Maduro, com o argumento de que as medidas dariam munição ao presidente venezuelano e permitiriam que ele tentasse responsabilizar os EUA pelo descalabro econômico em que o país está mergulhado.

Mas em dezembro os parlamentares aprovaram o “Ato em Defesa dos Direitos Humanos e da Sociedade Civil Venezuelana”, segundo o qual o presidente deve impor sanções que impeçam a entrada nos EUA e congele ativos no país de pessoas que tenham determinado prisões arbitrárias ou ordenado o uso de violência excessiva contra participantes dos protestos que ocorreram a partir de 4 de fevereiro de 2014.

Obama demorou três meses para cumprir a determinação, em um decreto que atinge apenas sete indivíduos, mas usa expressões que fortalecem a narrativa de Maduro de que os EUA promovem uma agressão contra toda a Venezuela.

A lei aprovada em dezembro proíbe expressamente a suspensão de importações do país, formadas principalmente por petróleo. Os Estados Unidos lembram que continuam a ser o principal parceiro comercial da Venezuela e afirmam que não têm intenção de impor sanções econômicas ao país.

Maduro ignorou a substância e se agarrou à linguagem do decreto. Na quinta-feira, o presidente lançou uma campanha para colher 10 milhões de assinaturas em um documento que pede a revogação da medida de Obama e o fim da “agressão dos EUA” contra a Venezuela. Durante a semana passada, Maduro obteve apoio dos países bolivarianos e levou o tema à Organização dos Estados Americanos (OEA). Em uma sessão na quinta-feira, quase todos os 34 integrantes da entidade criticaram as sanções unilaterais dos EUA e manifestaram preocupação com o crescente enfrentamento entre os dois países.

O representante americano foi ao extremo de declarar formalmente na OEA que seu governo não planeja uma invasão militar da Venezuela nem está envolvido em ações que buscam desestabilizar o país ou derrubar Maduro. A ministra das Relações Exteriores da Venezuela, Darcy Rodríguez, pediu que as afirmações fossem registradas em ata.

Antes das sanções de Obama, o herdeiro de Hugo Chávez estava em seu pior momento político desde sua eleição, em abril de 2013. Pesquisas indicavam que sua popularidade rondava os 20%, em meio a uma crise econômica que deve se agravar ainda mais com a queda no preço do petróleo –principal fonte de divisas e de crescimento do país. Há escassez generalizadas de produtos e a inflação de quase 70% é uma das maiores do mundo. Mas a semântica do decreto de Obama dá a Maduro a possibilidade de iniciar uma guerra midiática contra o “império” e desviar a atenção dos venezuelanos das mazelas domésticas –ao menos temporariamente.