A banana do polonês

A banana do polonês

Cristiano Dias

16 Agosto 2016 | 23h08

Wladyslaw Kozakiewicz 3

Wladyslaw Kozakiewicz após vitória em Moscou

Já era madrugada no Rio quando o francês Renaud Lavillenie ouviu as primeiras vaias da arquibancada. Trinta segundos depois, ele deu com a canela no sarrafo e transformou o Brasil no país do salto com vara, o esporte que mais produz trocadilhos na língua portuguesa. O protagonista da noite foi o brasileiro Thiago Braz, novo herói nacional e recordista olímpico. Mas Lavillenie, um sujeito pedante que estudou na escolinha do professor Alain Prost, fez de tudo para roubar o show.

Ele caiu atirando. Disse que a torcida brasileira era de “futebol” e não tinha fair play. “Uma vergonha para o Rio”, resmungou. No auge da afetação, Lavillenie se comparou a Jesse Owens, negro americano que venceu quatro provas no caldeirão do Estádio Olímpico de Berlim. “Em 1936, a multidão estava contra Jesse Owens. Não vimos isso desde então.” De uma tacada só, o francês resmungão colocou no mesmo balaio brasileiros e nazistas. Na sua tacanhice, o papel de Adolf Hitler talvez coubesse a Michel Temer. Mas tudo bem, apesar do Putsch da Cervejaria, ele não chegou a tanto. Depois, até se desculpou.

Rapidamente, é preciso que alguém diga a Lavillenie que Owens foi ovacionado pelos alemães e reverenciado pelo seu rival, Luz Long. Mas a grande lição que fica de sua desastrosa passagem de pelo Rio não está nos Jogos de Berlim, mas na Olimpíada de Moscou. No dia 30 de julho de 1980, na final do salto com vara, o polonês Wladyslaw Kozakiewicz se preparava para sua última tentativa de superar os 5,78 metros quando começou a ouvir o zunzunzum das tribunas. A vaia foi crescendo, afetando seus nervos. Os soviéticos não eram propriamente uma “torcida de futebol”. Estavam mais habituados a concertos filarmônicos no Teatro Bolshoi. Mesmo assim, não economizaram garganta e empurravam o jovem Konstantin Volkov, dono da casa.


Em segundos, Kozakiewicz fez o impossível. Debaixo de um barulho ensurdecedor, superou o sarrafo e aterrissou vitorioso no colchão. Quando se levantou, com um sorriso de satisfação, mandou uma banana para a torcida. Fez história. Na Polônia, o aceno singelo foi batizado de “Gesto Kozakiewicz”. Terminada a Olimpíada, o embaixador soviético em Varsóvia exigiu que ele perdesse a medalha. O governo polonês respondeu que o movimento inusitado havia sido apenas resultado de um “espasmo muscular”. Lavillenie é um campeão, mas nunca será Kozakiewicz.

 

 

 

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