O crime perfeito

O crime perfeito

Cristiano Dias

18 Julho 2016 | 09h00

DB Cooper

Como sequestrar um avião e escapar com o dinheiro do resgate sem deixar pistas? O Caso Norjak é um dos maiores mistérios dos Estados Unidos. O único sequestro aéreo até hoje não solucionado no país. O crime perfeito, que desnorteou os agentes do FBI por 45 anos, agora deve ser encerrado — e sem solução.

Em 24 de novembro de 1971, um homem de aproximadamente 45 anos, 1,80 metro, se debruçou sobre o balcão da Northwest Airlines no aeroporto de Portland e comprou uma passagem só de ida para Seattle. Na época, viajar de avião era mais simples que andar de ônibus. Não era preciso nenhum documento, apenas o seu nome rabiscado na passagem. No guichê, o farsante se apresentou como Dan Cooper.

Pouco depois do meio-dia, ele embarcou no Boeing 727 para uma viagem de 30 minutos. Impecável em um terno preto com um prendedor de gravata de madrepérola, sentou-se na traseira do avião, na poltrona 18-C, pediu um uísque com soda e acendeu um cigarro – o que era permitido pelas leis da aviação.


Imediatamente após a decolagem, Cooper passou um bilhete para uma das aeromoças, a bonitona Florence Schaffner, de 23 anos, que enfiou o pedaço de papel na bolsa achando que era uma cantada. Calmamente, ele foi até a moça e lhe falou ao pé do ouvido. “Senhorita, é bom você ler o bilhete. Eu tenho uma bomba. Quero que você se sente ao meu lado.”

Assustada, ela se sentou e Cooper abriu a maleta. Dentro, Florence viu um emaranhado de fios, uma bateria e seis bastões vermelhos. “Quero US$ 200 mil em notas de 20 até as 17 horas”, disse Cooper. “Também quero quatro paraquedas e um caminhão-tanque para reabastecer o avião.” A aeromoça se levantou e foi dar o recado ao comandante, William Scott.

O avião começou a circular em torno de Seattle. A tripulação conta que Cooper era calmo e gentil, diferente do estereótipo de terroristas e dissidentes políticos, que costumavam se lançar neste tipo de loucura. O vigarista pediu mais um uísque, antes de ser informado que suas exigências haviam sido cumpridas — à esta altura, os executivos da Northwest estavam apavorados com o sequestro.

Debaixo de chuva, às 17h39, o Boeing pousou em Seattle. Al Lee, diretor de operações da companhia, levou os pára-quedas e a mochila com 11 quilos de dinheiro para Tina Mucklow, outra aeromoça, que pegou a carga na escadinha da cauda do avião. Enquanto isso, na cabine, Cooper mandou cortar as luzes para impedir a ação dos franco-atiradores e libertou passageiros e tripulação. Com ele, ficaram apenas o comandante Scott, Tina, o copiloto William Rataczak e o engenheiro de voo Harold Anderson. “Para onde vamos?”, perguntou o piloto. “México”, respondeu Cooper.

Havia apenas um problema. Segundo o copiloto, a autonomia do 727 exigiria uma escala para reabastecimento. Para Cooper, pouco importava o destino. Ele já tinha um plano. Mesmo assim, concordou em descer em Reno, no Estado de Nevada. Às 19h40, o avião decolou de Seattle com instruções precisas: um voo baixo, a 3 mil metros de altitude, velocidade de 190 km/h. Logo após a partida, o trambiqueiro pediu que Tina fosse para a cabine e fechasse a porta. Enquanto caminhava, ela o viu pela última vez, ajeitando a roupa.

Duas horas depois, o avião pousou em Reno. Agentes do FBI e da polícia estadual revistaram o avião. Não havia ninguém. Na aeronave, encontraram 66 impressões digitais, a gravata e o prendedor de madrepérola. Com base em depoimentos, concluíram que o malandro escapou logo no início do voo, saltando sobre uma densa floresta de pinheiros, há uma temperatura glacial, no mais completo breu.

Durante semanas, o FBI esquadrinhou a floresta, lagos, montanhas, mas não encontrou restos de paraquedas, notas de US$ 20 e nenhum cadáver. Mais de 800 suspeitos foram investigados. A teoria mais lógica era que se tratava de alguém com treinamento militar, um paraquedista, talvez funcionário da Northwest. A investigação tornou-se um beco sem saída. Um repórter, com base em uma fonte policial, confundiu o nome do fujão, se referindo a ele como “D. B. Cooper”, e assim ele entrou no imaginário americano.

Em 1980, um garoto de 8 anos, Brian Ingram, encontrou à beira do Rio Columbia, no Estado de Washington, três maços de notas de US$ 20 completamente deterioradas — dois com 100 notas e um terceiro com apenas 90. Elas batiam com os números de série microfilmados pelo FBI. Os agentes até se animaram, mas nunca conseguiram explicar como três maços se separaram do restante da bolada e, pior ainda, porque um deles tinha dez notas a menos.

Em 2001, quando a tecnologia tornou-se disponível, uma mostra parcial de DNA foi obtida do prendedor de gravatas. Foi um novo sopro de esperança. A novidade, contudo, serviu mais para eliminar suspeitos antigos do que descobrir a identidade do Houdini paraquedista.

Cooper inspirou poemas, músicas, livros, documentários e novas regras para a aviação civil. Aborrecimento com o raio-X ou bagagens revistadas? A culpa é dele. Em 1972, autoridades americanas registraram 15 tentativas de imitar D. B. Cooper. Todos terminaram atrás das grades.

Na semana passada, o FBI anunciou que deve finalmente arquivar o Caso Norjak, código pelo qual D. B. Cooper era conhecido nos corredores da sede do Bureau, em Washington. “Toda vez que recebemos uma nova pista, importantes recursos são desviados de programas mais importantes”, dizia o comunicado dos federais.

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