O mercador da morte

O mercador da morte

Cristiano Dias

09 Outubro 2015 | 19h49

Nobel

Nada mais clichê do que um intelectual sueco, milionário e amante da paz. O cidadão perfeito que estimula o progresso da humanidade engordando a conta corrente de grandes cientistas e pacifistas ao redor do mundo. Mas de fato quanta generosidade havia por trás das barbas e da gravatinha borboleta de Alfred Nobel?

Era uma época estranha, o fim do século 19. Uma crise generalizada de valores e uma sensação de decadência, um vazio existencial deixado pelo esgotamento do racionalismo. A velocidade da evolução tecnológica havia mudado nossa relação com o tempo. Esse mal du siècle produziu uma literatura romântica, melancólica e abarrotada de anti-heróis. Como Nobel.

Ainda jovem, ele se tornou um químico brilhante que carregava o talento da família para faturar com a produção de armas. Seu pai, Immanuel, era um exímio projetista de minas submarinas, sucesso absoluto na Guerra da Crimeia (1853-1856). Quando estudava em Paris, Nobel trabalhou com o italiano Ascanio Sobrero, que acabara de descobrir um explosivo líquido: a nitroglicerina. Após mil anos de hegemonia da pólvora, o mundo estava pronto para uma revolução.


O problema é que Sobrero não tinha a menor ideia do que fazer com sua invenção. A nitroglicerina era instável, impossível de controlar, segundo ele. No processo, vitimava ajudantes e destruía laboratórios. “Tenho quase vergonha de tê-la inventado”, resmungava o italiano, que logo desistiu da tarefa. Obcecado, Nobel demorou, mas conseguiu domesticar o explosivo e patenteou um novo produto, batizado de dinamite, em 1867.

Com a expansão mundial do sistema ferroviário e do comércio marítimo, a novidade foi a chave que faltava para abrir túneis como o de São Gotardo, na Suíça (1881), e canais gigantescos como o de Corinto, na Grécia (1893), e o do Panamá (1913). O avanço economizou tempo e dinheiro. O mundo ficou mais global e as distâncias diminuíram.

Mas o químico sueco não parava. Além de produzir dinamite em escala industrial, inventou outros explosivos, como a balistite, fundamental para a fabricação da metralhadora, e aperfeiçoou a pólvora sem fumaça, depois usada como propelente para foguetes. Nobel não parecia se importar muito com o uso militar de suas criações e mantinha vários governos em sua carteira de clientes.

Ao todo, foram 355 patentes e mais de 80 fábricas produzindo em 20 países. Aos 55 anos, nosso endinheirado anti-herói vivia em Paris quando sua vida deu uma última pirueta. No dia 13 de outubro de 1888, Nobel teve um faniquito ao ler seu próprio obituário no jornal Idéotie Quotidienne: “Alfred Nobel, o mercador da morte, está morto”.

O morto em questão era seu irmão, Ludvig, mas o erro do jornal criou um mal-estar em nosso solerte magnata. Nobel não gostou de ser retratado como alguém que “enriqueceu inventando meios para matar mais pessoas o mais rápido possível”. Buscou refúgio no pacifismo e mudou seu testamento, deixando parte de sua fortuna para um fundo, cujos juros seriam concedidos àqueles que dessem contribuições à humanidade em cinco áreas: física, química, medicina, literatura e paz — embora ele nunca tenha dito porque os quatro primeiros deveriam ser escolhidos na Suécia e o último, na Noruega.

A vida de Nobel, porém, ainda lhe reservava uma ironia. Meses antes de ser fulminado por um derrame, em 1896, seus médicos lhe prescreveram nitroglicerina para o coração — que ele prontamente recusou. “Veja a ironia do destino”, escreveu para um amigo. “Eles me receitaram nitroglicerina para ser usada internamente! Eles chamam de trinitrina, para não assustar as pessoas.” Brilhante e solitário. Pessimista, mas idealista. Nobel criou um dos personagens mais ricos e paradoxais do século 19: o mercador da morte que reescreveu o próprio obituário. Se houvesse um Prêmio Nobel de marketing, seria o case perfeito.

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