O playboy e o crooner Parte 1: a amizade

O playboy e o crooner Parte 1: a amizade

Cristiano Dias

05 Dezembro 2015 | 16h00

Sinatra e Kennedy em Las Vegas: duas estrelas gravitando na mesma direção (AFP)

Sinatra e JFK em Las Vegas: estrelas gravitando na mesma direção

Seu avô foi prefeito de Boston. Seu pai, embaixador em Londres. Ele estudou em Harvard. Jogava futebol americano e foi campeão de vela. Chegou a ser tenente da Marinha. Como correspondente internacional, cobriu a Conferência de Potsdam. Casou-se com Jacqueline Bouvier, a socialite mais estonteante do país. Ganhou um Pulitzer. Foi deputado e senador. Rico e bonitão, John Fitzgerald Kennedy era o playboy supremo da América.

Entre quatro paredes, com um copinho de uísque na mão, os amigos o chamavam de “Jack”. Em 1960, aos 43 anos, ele se preparava para se tornar o mais jovem presidente eleito dos EUA. A primeira encrenca eram as primárias democratas. Confiante, o experiente senador Lyndon Johnson, do Texas, ignorou as prévias e preferiu brigar pela vaga na convenção do partido. Para ter alguma chance, Kennedy tinha de superar um problema: sua religião. Nunca um católico havia ocupado a Casa Branca. Para provar que Deus sorria para todos, era preciso vencer a votação em Virgínia Ocidental, Estado protestante, ultraconservador e dominado pelo sindicato dos mineradores.

Quem descascou esse abacaxi foi seu pai, Joseph P. Kennedy, chefe do clã e da campanha, um dos dez homens mais ricos dos EUA, segundo a revista Forbes. Sujeito cheio de segredos, Joe fez fortuna em Wall Street. Antes de ser nomeado embaixador americano em Londres, dirigiu um estaleiro, estúdios de cinema e investiu no mercado imobiliário. Para ter o apoio dos sindicalistas, ele teve a ideia de recorrer a um amigo da família: Frank Sinatra. A conversa foi descontraída. Do outro lado da linha, a voz mais popular da América ouviu um pedido: que seus amigos mafiosos convencessem o sindicato a apoiar “Jack” nas primárias de Virgínia Ocidental. Sinatra aceitou a missão e ligou para Sam Giancana, sucessor de Al Capone e chefão do Outfit, a máfia do sul de Chicago.


Nascido em New Jersey, terra da malandragem americana, Sinatra nunca escondeu suas origens. Dizia que se não fosse a música teria feito carreira no crime. Em 1946, ele aterrissou em Cuba com os irmãos Charlie, Rocco e Joe Fischetti, primos de Al Capone, para participar de um convescote de gangsteres americanos. Na ilha de Fulgêncio Batista, a máfia controlava os cassinos. Hospedado no Hotel Nacional de Havana, Sinatra desceu para o bar e deu de cara com mais de 60 elementos da pior categoria. A panelinha estava completa. “Muito prazer, Lucky Luciano”, disse o mais perigoso de todos, condenado a 50 anos de cadeia por comandar uma rede de 5 mil prostitutas nos EUA. Ao seu lado estava Don Vito Genovese. Do outro, Frank Costello. Mais atrás, o pistoleiro Bugsy Siegel.

Os jornais ficaram sabendo do rendez-vous e espinafraram Sinatra. O FBI não curtiu e manteve os seus olhos azuis sob estrita vigilância por mais de 50 anos. Mas o elo do astro com o crime era ainda mais antigo. Sua primeira mulher, Nancy Barbato, era prima de um sócio do mafioso Willie Moretti, que acertava shows para o crooner em início de carreira. Quando Tommy Dorsey vetou a saída de Sinatra de sua big band, nos anos 40, Morretti interferiu. Ele teria enfiado um revólver na boca de Dorsey e ameaçado matá-lo se não liberasse seu apadrinhado. Pouco depois, Sinatra pagou 1 dólar pela rescisão contratual.

Dizem que Sinatra conheceu JFK em um comício do Partido Democrata, em 1955. Outros afirmam que os dois foram apresentados pelo ator Peter Lawford, membro do Rat Pack, o clubinho dos canalhas montado por Sinatra. Lawford era casado com Patricia Kennedy, irmã de John. Seja como for, o playboy e o crooner formavam uma dupla perfeita: bons vivants, mulherengos, amantes da roleta e do uísque. Era apenas uma questão de tempo até que os dois gravitassem na direção um do outro.

O fascínio era mútuo. Sinatra admirava o estilo e a rápida ascensão de “Jack”, que adorava o glamour, as festas e as mulheres que Frank lhe apresentava. Uma delas, a morena Judy Campbell, logo virou amante de JFK. Eles se relacionaram por dois anos – documentados em ligações telefônicas e registros de entrada e saída da Casa Branca. O que Kennedy não sabia é que ela também dividia os lençóis com o infame Sammy Giancana. Em entrevista à revista People, em 1988, a senhorita Campbell disse que acertou vários encontros e trocas de envelopes misteriosos entre seus dois amantes. 

A máfia e a família Kennedy também tinham um caso antigo. Joe nunca foi santo. Larry Sabato, professor da Universidade de Virgínia, e o historiador Seymour Hersh dizem que Sammy costumava quebrar o galho de Joe desde os tempos da Lei Seca, quando o patriarca engordava sua fortuna contrabandeando uísque. Dimitri Logothetis, autor de um documentário sobre Giancana, conta que em seus tempos de muambeiro, Joe Kennedy pisou no calo da Purple Gang, a máfia de Detroit, e estava marcado para morrer. Quem livrou sua cara foi Sammy.

Sinatra sempre negou envolvimento direto com a máfia. No entanto, suas duas filhas, Nancy e Tina, contam outra história. Segundo elas, o pai nem precisou gastar seu charme para convencer Giancana a ajudar JFK: “É questão de um telefonema”, teria garantido o mafioso. Hersh diz que Sammy não apenas recrutou os sindicalistas de Virgínia Ocidental, como despejou um caminhão de dinheiro na campanha – na época, os partidos não eram obrigados a divulgar seus doadores. De acordo com Sabato, em troca, Joe ofereceu “os ouvidos” do filho e futuro presidente – o que satisfez o gângster, interessado em tirar o FBI do seu pé.

A vitória em Virgínia Ocidente mostrou que a candidatura de “Jack” à Casa Branca era viável. Com Sinatra ao seu lado, ele ganhava não só o apoio da máfia, mas acesso às festinhas no antológico casino The Sands, em Las Vegas, onde volta e meia JFK aparecia sem a mulher para “arrecadar fundos para a campanha”. 

A candidatura foi selada na Convenção Democrata de 1960, que Sinatra transformou em um grande tapete vermelho: Shirley MacLaine, Tony Curtis, Lee Marvin, Nat King Cole, Sammy Davis Junior, Vincent Price e Lloyd Bridges, todos com Kennedy. Lyndon Johnson foi nocauteado e teve de se conformar com um convite para ser vice. A ideia era que ele ajudasse o partido a vencer no Texas e em Estados do Sul. Agora, apenas um homem separava “Jack” do Salão Oval: Richard Nixon, que seria um osso duro de roer. 

Sinatra em 1955: “Just one of those things”