O playboy e o crooner Parte 2: o poder

O playboy e o crooner Parte 2: o poder

Cristiano Dias

05 Dezembro 2015 | 16h00

Sinatra e JFK em 1961, na festa mais badalada da história de Washington

Sinatra e JFK, em 1961, na festa mais badalada da história de Washington

O último contratempo no caminho de John F. Kennedy à Casa Branca era seu adversário republicano, o senador californiano Richard Nixon, vice-presidente dos EUA. Para muitos, foi primeira eleição moderna do país. Alasca e Havaí se tornaram Estados em 1959 e debutavam na corrida presidencial. Também pela primeira vez, os americanos tinham dois candidatos jovens e nascidos no século 20.

Na noite da apuração, Chet Huntley, âncora da NBC, anunciava com satisfação a maior novidade da emissora: “Nosso computador RCA 501 processará os números mais rápido do que nós”.

— Para explicar melhor o que o 501 está fazendo, vamos falar com Richard Harkness, chamou o âncora.


— Chet, estou aqui ao lado do computador RCA 501, respondeu o repórter. Assim que os primeiros votos forem apurados, teremos o que a gente chama de “projeção”, que é uma estimativa de qual será o resultado final. É o casamento perfeito entre política e informática, capaz de computar 100 mil equações no piscar de um olho eletrônico.

Outra novidade da campanha foram os debates na TV. Embora ninguém dominasse o novo meio, que se popularizou nos anos 50, Kennedy parecia mais à vontade. No primeiro dos quatro encontros, Nixon não sabia onde botar as mãos. No último, optou por fazer campanha até o fim e chegou exausto diante das câmeras. Rejeitou a maquiagem, vestiu um terno cinza e desapareceu naquele mundo preto e branco. “Jack” era o oposto. Surgiu impávido e elegante em um terno escuro, com as pernas cruzadas tal qual um monarca americano.

O maior trunfo de Kennedy, no entanto, ainda era Sinatra. Ele emprestou sua voz para a canção High Hopes, de Jimmy van Heusen e Sammy Cahn. A letra foi adaptada para dar um ar simpático e glamoroso ao jingle da candidatura do parceiro.

A eleição foi uma das mais disputadas da história americana. A apuração foi frenética. De cara, Kennedy abriu larga vantagem com os resultados da Costa Leste, principalmente em grandes cidades como Boston, Nova York e Filadélfia. Nixon, porém, tirava a diferença à medida que a apuração avançava para o oeste dos EUA.

Às 21 horas (horário da Costa Leste), com apenas 8% dos votos apurados e sessões de votação ainda abertas do outro lado do país, a CBS antecipou a vitória de Kennedy. Logo depois foi a vez da NBC. À meia-noite, o jornal New York Times decretou: “Kennedy eleito presidente”. Mas o RCA 501 e as novas máquinas de computar estavam errados. A diferença entre os dois diminuía. Estados que antes eram dados para um candidato, passaram para outro. Ohio era de John, terminou com Nixon. A Califórnia também.

Às 3 horas da madrugada, a diferença no total de votos continuava a cair. Era de 1 milhão, passou para 500 mil, 300 mil, 200 mil. No Colégio Eleitoral — que de fato decide a eleição, segundo o peso de cada Estado –, Kennedy tinha 265 votos dos 269 que precisava. Faltava Illinois. Mas alguma coisa estava esquisita no Estado de Sammy Giancana. Nixon venceu em 92 dos 101 condados e liderava a apuração no Estado, mas os votos de Chicago não apareciam.

O prefeito da cidade, o democrata Richard J. Daley, que comandava com mão de ferro a máquina eleitoral local, foi acusado de segurar o quanto pôde os boletins de votação. Quando apareceram os resultados, nas primeiras horas da manhã, Kennedy havia vencido com mais de 450 mil votos de vantagem em Chicago — cerca de 10% dos eleitores de todo o Estado. No apagar das luzes, JFK levou Illinois por 8 mil votos, 0,17% de diferença. Chicago, a trincheira da máfia, havia decidido o jogo.

A coisa cheirava a gatunagem. Em telefonema para Nixon, o presidente Dwight Eisenhower contou que havia indícios de maracutaia não só em Illinois, mas também no Texas de Lyndon Johnson. Os caciques do Partido Republicano estavam enfurecidos e despacharam equipes para investigar as falcatruas nos quatro cantos do país. Voltaram com evidências de fraude em oito Estados. Os casos mais graves? Texas e Illinois.

No Texas, onde Kennedy venceu por apenas 46 mil votos, os republicanos descobriram condados com mais votos do que gente. Em Fannin County, havia 4.985 eleitores e foram depositados 6.138 votos — 75% deles para Kennedy. Em Angelia County, 86 pessoas votaram e o resultado final foi 147 para Kennedy e 24 para Nixon. Os pedidos de recontagem morreram todos na Comissão Eleitoral do Texas, composta por democratas. Earl Mazo, jornalista do New York Herald Tribune, investigou as fraudes em Illinois. De posse da lista de votação e das seções eleitorais de Chicago, ele tentou descobrir os endereços dos eleitores. “Havia um cemitério em que todos os nomes escritos nas lápides votaram”, disse.

O senador republicano Everett Dirksen telefonou para o então vice-diretor do FBI, Cartha DeLoach, para exigir uma investigação das mutretas em Chicago.

— O caso já está como o Departamento de Justiça, garantiu DeLoach.

— E quem é o novo secretário de Justiça, perguntou o senador.

— Bobby Kennedy, respondeu DeLoach.

Irritado, Dirksen desligou o telefone.

High Hopes: Everyone is voting for Jack / Cause he’s got what all the rest lack / Everyone wants to back — Jack, Jack is on the right track.