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O playboy e o crooner Parte 3: a separação
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Cristiano Dias

05 Dezembro 2015 | 16h02

Sinatra: problemas com a máfia e afastamento de JFK

Sinatra nos anos 60: virada no jogo

No início, John F. Kennedy viveu uma breve lua de mel com os parceiros que o ajudaram na vitória. A campanha havia sido mais do que dura. Tinha sido cara. Para vencer, o playboy gastou mais do que tinha e contraiu uma dívida de US$ 4 milhões. Em socorro do amigo, Frank Sinatra organizou a festa mais badalada da história de Washington. Com ingressos a US$ 100, o mais barato, e camarotes de US$ 10 mil, ele lotou o salão da National Guard Armory, na capital americana. Ella Fitzgerald, Gene Kelly, Bette Davis, Laurence Olivier, Leonard Bernstein, Sidney Poitier, Anthony Quinn, muitos só compareceram porque Sinatra convenceu os produtores da Broadway a suspender os espetáculos naquela noite fria de 19 de janeiro de 1961, às vésperas da posse do presidente. “Sei que temos todos uma dívida com o grande amigo Frank Sinatra”, disse Kennedy em um breve discurso. “Agradeço-lhe em nome de todos os que estão aqui. Vocês não têm ideia do trabalho que ele teve para fazer desta noite um sucesso.”

Dívida paga, a amizade entre o playboy e o crooner parecia indestrutível, até que a coisa degringolou no paraíso da bandalheira. Fidel Castro tomou Cuba de assalto, fechou os cassinos e expulsou os mafiosos. Sammy Giancana perdeu milhões de dólares e comprou uma briga feia com o revolucionário barbudo. A efervescência política colocou de novo o gângster de Chicago e o governo americano do mesmo lado do balcão. CIA e máfia, unidas em nome do ódio ao Belzebu comunista, bolaram um plano para matá-lo.

O acordo era simples. A cabeça de Castro em troca dos cassinos. Se alguma coisa desse errado, como sempre, o governo não tinha nada com isso. O pacto foi proposto por Robert Maheu, agente da CIA, durante um tête-a-tête com o mafioso no Hotel Fontainebleau, em Miami Beach. “No início, Giancana achou que eu estava brincando”, contou Maheu. “Mas, depois de alguns drinques, viu que era sério.”

Para a missão de eliminar o Sete-Peles de Havana, Sammy convocou um elemento cujo nome parece pegadinha de programa de TV: Santo Trafficante, prócer da máfia da Flórida. O esquema mirabolante foi revelado por Maheu em depoimento no Senado americano, em 1975, e corroborado por documentos da CIA, liberados em 2007. Na época, a agência mantinha uma divisão com o sugestivo nome de “Comitê de Alteração da Saúde”, que matava ao estilo James Bond: veneno na escova de dentes, bactéria letal no lenço e charuto-bomba.

Tudo foi bem até a Operação Mangusto. Em abril de 1961, um grupo paramilitar de exilados cubanos, treinados pelos EUA, desembarcou em Cuba para acabar com a raça do comunismo, mas terminou fulminado na Baía dos Porcos. JFK havia prometido apoio aéreo. Não deu. Traição, concluíram os mafiosos. O presidente condenou a CIA pelo fracasso da invasão. No entanto, para a CIA e para a máfia, havia um único culpado: John Kennedy.

No fim, nada é tão ruim que não possa piorar. Giancana estava convencido de que havia colocado um almofadinha traidor na Casa Branca e John complicou mais a situação quando nomeou seu irmão secretário de Justiça. Robert Kennedy quis ser o algoz do crime organizado. Com ele, o número de mafiosos condenados pulou de 35, em 1960, para 288, em 1963. A máfia estava sitiada. Giancana, revoltado. Ele achava que tinha no bolso a família Kennedy. Em vez disso, fugia da polícia como um rato. Sobrou para Sinatra, o intermediário, de mãos atadas diante da sanha de Bobby. Em conversas grampeadas pelo FBI, os mafiosos falavam em passar fogo em todos do Rat Pack.

No comando do aparato de segurança e da arapongagem americana, não demorou muito para Bobby descobrir que o irmão tinha um caso com Judy Campbell, a amante de Giancana e amiga Sinatra. Diante dos relatórios enviados por J. Edgar Hoover, chefão do FBI, o secretário de Justiça colocou JFK contra a parede e exigiu que ele se afastasse do velho amigo crooner.

Em março de 1962, Sinatra entendeu o recado. Ele havia acabado de construir um puxadinho em sua mansão em Palm Springs para receber o presidente durante suas escapadelas até a Califórnia. Ele chamava o lugar de Pequena Casa Branca. John adorava o lugar, as festas, as mulheres de biquíni e os baseadinhos à beira da piscina. Desta vez, porém, o presidente se hospedou na casa do cantor Bing Crosby, um conhecido conservador republicano. Para Sinatra, foi o fim.

Decepcionado, ele sentia na traição o dedo de Bobby Kennedy, segundo as más línguas, um sujeito capaz de sorrir enquanto enfiava uma faca nas suas costas. Mas, a esta altura do campeonato, Sinatra tinha um problema muito mais grave. Como salvar sua pele e acertar contas com a máfia? Fácil. Em novembro de 1962, ele, Dean Martin, Sammy Davis Jr. e Eddie Fisher anunciaram sete apresentações no Villa Venice, uma espelunca em Whelling, subúrbio de Chicago. O dono da pocilga: Sammy Giancana.

A canja no Villa Venice limpou a barra de Sinatra, mas o filme dos irmãos Kennedy continuou queimado. A vida do playboy acabou em Dallas, na Elm Street, com um tiro certeiro de Lee Harvey Oswald disparado do sexto andar de um depósito de livros, no ano seguinte. Oswald era sobrinho de Charles “Dutz” Murret, que trabalhava para o mafioso Carlos Marcello, chefão do crime em New Orleans e sócio de Giancana. Jack Ruby, que executou Oswald diante das câmeras de TV, estava envolvido até o pescoço com a máfia de Chicago.

Segundo familiares, Sinatra nunca se recuperou da separação. Muitos acreditam que ele virou a casaca por despeito. Apoiou os republicanos Richard Nixon, na campanha presidencial de 1972, Ronald Reagan, nas eleições de 1980, e cantou para George Bush pai, em 1988. A mágoa de Sinatra mostra que o playboy não seduziu apenas mocinhas e madames. “O verdadeiro caso de amor de John Kennedy não era com as mulheres”, diz o historiador Seymour Hersh. “Era com os homens. Eles o adoravam.”

Sinatra e o Rat Pack cantando “Chicago”, ao vivo no Villa Venice, em 1962.

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