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O xeque e a Lua
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Cristiano Dias

18 Dezembro 2015 | 07h00

Sheikh Abdul Aziz Al-Asheikh, the Kingdom's grand mufti, prays during the funeral of the Saudi woman and her daughter who were killed in Chad, at the Grand Mosque in Riyadh February 6, 2008. A bomb attack on the residence of the Saudi ambassador to Chad killed the wife and daughter of an embassy employee taking shelter from the fighting between the government and rebel forces. REUTERS/Ali Jarekji  (SAUDI ARABIA)

Abdul Aziz bin Baz (Reuters)

O escritor argelino Kamel Daoud diz que o Estado Islâmico tem um pai: a Arábia Saudita, talvez hoje o regime mais hermético e opressivo do mundo. A política saudita é uma esfinge. É como a simpática bandeira do país. Do fundo verde, identificamos a espada. O resto parece pichação debaixo de viaduto. Na busca furiosa para entender os psicopatas que tentam fazer o mundo voltar aos tempos de Maomé, muita gente aponta o dedo para Meca. Alguns se concentram no dinheiro dos jihadistas. Outros listam pretextos políticos e misturam com rancor religioso para chegar a uma receita qualquer de extremismo. Mas outro jeito de montar esse quebra-cabeça é começar a construir o todo pela parte, contando a história de um personagem que simbolizou o duelo entre o Islã e o futuro: o xeque Abdul Aziz bin Baz.

Ele foi o homem mais poderoso da Arábia Saudita. Quase um santo. Nascido em 1910, sobreviveu à infância pobre. Começou a ficar cego aos 8 anos. Aos 20, já não enxergava um palmo à frente do nariz. De olhos fechados, parecia estar sempre em estado permanente de escuta, com a cabeça virada para o alto, como se falasse com Deus. Em 1966, emitiu uma fatwa, espécie de decreto religioso, que condenava à morte quem dissesse que a Terra girava em torno do Sol. “Negar que o Sol gira em torno da Terra é negar Alá e seu livro sagrado”, dizia Bin Baz. “É obrigação das autoridades pedir que essas pessoas se retratem. Se não se retratarem, devem ser executadas.”

Quando lhe contaram que Neil Armstrong havia pisado na Lua, três anos depois, ele respondeu com uma nova fatwa pedindo que os muçulmanos duvidassem da lorota americana. “Temos de ter cuidado com aquilo que os infiéis nos dizem. Não podemos acreditar até que nos deem provas.” Pouco depois, em entrevista, lhe perguntaram se a Terra era redonda. “Pelo que me lembro, da época em que enxergava, ela parecia plana”, respondeu.

O xeque era cego, mas não era burro. Seus ouvidos não escutavam só a palavra divina. Captavam também os mexericos da ralé. E, ao seu jeito, Bin Baz tentava manter a mente aberta. “Nada no Alcorão nega a possibilidade de o homem chegar à Lua”, escreveu o mulá, em uma singela tentativa de conciliar Islã e ciência. “Sabemos que há espaço entre a Terra e o céu. Ninguém disse que um foguete não pode viajar entre eles.”

O problema é que Bin Baz sempre acreditou mais em suas sensações do que na eloquência dos cientistas que ele nunca conheceu. Seus pés caminhavam em um mundo plano, então ele seria plano até que provassem o contrário. Mas como provar? Uma revelação de Alá? Quem sabe alguma mensagem bafejada pelo profeta? Em 1985, veio o acerto de contas.

Depois de um exaustivo processo de seleção, a Nasa (agência espacial americana) escolheu o príncipe Sultan bin Salman al-Saud para uma missão multinacional na órbita da Terra. Piloto da Força Aérea saudita, 34 anos, membro da família real, ele seria especialista de carga do ônibus espacial Discovery, que lançaria o primeiro satélite árabe. Parte da missão seria durante o mês sagrado do Ramadã. O que fazer com relação ao jejum? Como seria o ritual da purificação com gravidade zero? Como rezar virado para Meca com a cidade mudando de lugar a cada segundo? O Alcorão não tinha as respostas e Sultan pediu ajuda a Bin Baz.

O xeque ficou fascinado com a chance de ter um homem de confiança no espaço. Finalmente, um muçulmano lhe contaria como é o mundo lá em cima. Ele ficou amigo do astronauta, com quem costumava trocar telefonemas durante a fase de treinamento na Flórida. Sultan conta que Bin Baz era bem-humorado. “Veja bem”, dizia ele ao xeque, “se eu viajar a 30 mil km/h, vou assistir a 16 crepúsculos e a 16 alvoradas em 24 horas. Será que posso encerrar o Ramadã em dois dias?” — do outro lado da linha, o príncipe escutava as gargalhadas do mulá.

No fim, o combinado foi que o jejum e as preces seguiriam o tempo na Terra e Sultan acertou seu relógio pelo fuso horário da Flórida. Em razão da falta de gravidade, a purificação seria feita com lenços molhados. Como era impossível ajoelhar, ele rezaria sentado, preso à cadeira com cinto de segurança e com as botas calçadas. Mas, para Bin Baz, as filigranas do ritual eram mixaria diante do relato do primeiro muçulmano a viajar pelas estrelas. “Fique de olhos abertos”, recomendou o xeque. “Depois, me conte tudo o que você viu.”

De volta à Terra, Sultan foi recebido como herói. Na festinha em sua homenagem, a família real estava toda reunida, incluindo seu tio, o rei Fahd. Lá pelas tantas, porém, ele se mandou para um encontro muito mais importante na casa de Bin Baz, onde estava a nata espiritual do reino. Na porta, os dois se abraçaram. O príncipe agradeceu os conselhos e foi apresentado aos clérigos. Sentados, começou a sabatina do astronauta. Cada resposta, segundo Sultan, era seguida de um “Allahu akbar” coletivo.

“Como você não caiu de lá de cima do céu?”

“Como é possível viajar a uma velocidade tão grande?”

“Quem será o próximo?”

“No primeiro dia no espaço”, disse o príncipe mais tarde, “todos nós apontávamos nossos países. No terceiro ou quarto dia, mostrávamos nossos continentes. Mas, depois do quinto dia, enxergávamos só uma Terra.” E sim, ela é redonda. Biógrafos de Bin Baz divergem sobre ele ter se convencido da coisa. O xeque não se retratou, mas também nunca mais tocou no assunto.

Sultan bin Salman al-Saud: primeiro muçulmano a orbitar pela Terra, em 1985

Sultan al-Saud: primeiro muçulmano a orbitar pela Terra, em 1985

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