Os pés da pátria

Os pés da pátria

Cristiano Dias

07 Novembro 2015 | 07h01

Abraham LincolnAbraham Lincoln foi o epítome do sonho americano, um lenhador autodidata que se tornou presidente. Nasceu na fronteira, em Kentucky, quando era ali o limite entre os EUA e o desconhecido. Tinha tudo para crescer grunhindo meia dúzia de palavras, cuspindo no chão e disparando uma Winchester em qualquer coisa que se movesse. Em vez disso, virou mito. Não frequentou a escola, mas devorava livros. Tornou-se advogado sem nunca ter estudado Direito.

O nó nos adversários, “Old Abe” dava sem ninguém perceber. Em 1842, ele foi desafiado para um duelo por um fiscal do Estado de Illinois, James Shields, que não gostou das gracinhas que Lincoln escreveu sobre ele no jornal. A proposta parecia ridícula, mas pior era se passar por covarde. Aos 33 anos, o advogado da cartolinha preta – ainda sem a barba – tinha tudo para ser massacrado por um veterano de guerra. Mas as divindades têm sempre um plano. Como havia sido desafiado, lhe cabia escolher as armas e ditar as regras. Ele não queria matar, muito menos morrer. De cara, descartou a pistola. Optou pela espada. Exigiu que fosse colocada no chão uma tábua, que ambos não poderiam cruzar. No aquecimento, nosso espadachim de araque, de 1,92 metro de altura, começou a despedaçar com a arma os galhos mais altos das oliveiras ao seu redor. Shields, 20 centímetros mais baixo e limitado por um pedaço de madeira, viu que a encrenca era do tamanho da envergadura do oponente. Com a ajuda da turma do deixa disso, os cavalheiros resolveram suas diferenças sem derramamento de sangue.

Se manobrar as pessoas era moleza, difícil era controlar a própria mente. Antes dos 20 anos, já tinha perdido a mãe, um irmão e uma irmã. Quando adulto, enterrou dois filhos. Do contato íntimo com a morte veio a depressão. Em suas piores crises, os amigos retiravam os objetos cortantes de sua casa. “Sou o homem mais infeliz do mundo”, escreveu Lincoln para o colega John Stuart. “Se o que estou sentindo fosse distribuído igualmente por toda raça humana, não haveria um único sujeito alegre na face da Terra.”

Sua confusão mental refletia um pouco o ambiente político. Pouco antes da guerra civil, os EUA eram um país fraturado. Em 1850, a identidade partidária americana se resumia a duas bandeiras: contra ou a favor da escravidão. O Partido Democrata rachou entre nortistas e sulistas. Lincoln era do Partido Whig, que se esfacelou pela mesma razão. Os whigs do Sul viraram democratas. Os do Norte fundaram um novo partido, o Republicano. Na época, ser republicano era moderno. Significava viver em um grande centro urbano e lutar pela liberdade dos negros. O democrata era o oposto: rural, conservador e escravista.


Finalmente, em 1860, aos 50 anos, o ambicioso advogado de Illinois decidiu virar estadista. Até aqui, sua experiência política se resumia a dois anos como deputado federal e alguns outros no Legislativo estadual. Na convenção republicana, que escolheria o candidato presidencial do partido, o favorito era William Seward, poderoso governador de Nova York. Lincoln era o azarão. Simon Cameron, senador da Pensilvânia, o deputado Edward Bates, de Missouri, e Salmon Chase, governador de Ohio, todos tinham mais votos do que ele.

Mas, de novo, ele tinha um plano. Lincoln sabia que seus rivais se odiavam – e detestavam Seward, mais que tudo. E ninguém sabia dividir os adversários como ele. Além disso, o jogo era em casa: o local escolhido para o evento foi Chicago, maior cidade de Illinois, capital mundial da puxadinha de tapete. E assim foi. Nas plenárias, Lincoln se certificou que os aliados de Seward se sentassem longe das delegações mais importantes, evitando conchavos. Seus assessores distribuíram entradas falsas para simpatizantes, que chegavam mais cedo ao centro de convenções para ocupar os lugares dos oponentes. Por fim, seu time contratou tenores para comandar a torcida na base do dó de peito. Depois de três votações, a vaga era dele.

Com os democratas do Sul e do Norte divididos, a eleição geral não era um problema. Só uma coisa o separava da Casa Branca: sua imagem. Lincoln foi o primeiro político a usar a imprensa para se promover. Era bom orador, mas feio demais. Em seus primeiros retratos, aparecia descabelado e cheio de rugas. Ele entendeu o poder da recém-nascida fotografia e recorreu ao genial Mathew Brady, o pai do fotojornalismo. Ao afastar a câmera de Lincoln, Brady realçou sua estatura e diminuiu suas imperfeições. Fez o candidato subir o colarinho da camisa para encurtar o pescoço. Mandou sua equipe retocar os negativos, corrigir o olho esquerdo e apagar linhas do rosto. “Ele foi retocado gerações antes do photoshop”, diz o historiador Harold Holzer. “Brady me fez presidente”, afirmou Lincoln — que mais tarde deixaria crescer a tal barba inconfundível para encobrir os defeitos.

Sua vitória, porém, foi o gatilho da guerra. O território americano se expandia rapidamente para oeste do Rio Mississippi. Para viabilizar administrativamente a imensidão, criaram-se novos Estados. Segundo acordo de cavalheiros, para cada território estabelecido com mão de obra livre, surgia outro escravista. O objetivo era manter o equilíbrio no Congresso. O problema começa quando alguns saem do papel já com a escravidão proscrita, sem contrapartidas: Califórnia, Oregon, Nebraska e Kansas. Os sulistas sentem que perderam o Legislativo e temem que um presidente abolicionista ocupe o Executivo. Com a eleição de Lincoln, o anticristo chega à Casa Branca e os EUA mergulham nas trevas.

Durante o conflito civil, mais de 600 mil pessoas morreram. Em muitos momentos, Lincoln assumiu pessoalmente o comando das tropas. Foi o gênio por trás da estratégia de abrir duas frentes. Mudou a narrativa da guerra, que deixou de ser um conflito pela autonomia dos Estados e passou a ser uma luta pela igualdade. No fim, converteu a abolição em artigo constitucional, confirmando que a liberdade era um caminho sem volta.

Lincoln manteve a nação de pé. Para Gore Vidal, foi o mais brilhante presidente dos EUA. “Este gênio supremo recriou o país à sua imagem”, escreveu o ensaísta. “Então, no momento da vitória, o grande golpe de sorte: ele é assassinado. Martirizado. Hoje, nosso César tornou-se um deus.”

Elogiado por Ronald Reagan e imitado por Barack Obama, “Old Abe” foi bajulado por todos os inquilinos da Casa Branca no último século e meio. A dimensão do mito está marcada no chão da capital, onde o arquiteto Pierre L’Enfant riscou uma cruz à beira do Rio Potomac. No eixo norte-sul, o patíbulo: o Memorial de Thomas Jefferson, guru da Declaração de Independência, está na mão esquerda. A Casa Branca, na direita. No sentido leste-oeste, a estipe: na cabeça da federação, foi erguido o Congresso. No coração, o Monumento a George Washington, o pai da pátria. E nos pés, o Memorial de Lincoln, uma justa deferência ao personagem que sustentou o país no pior momento de sua história.

Lincoln por Brady

Lincoln, retocado e ainda sem barba, em fevereiro de 1860, na foto histórica de Mathew Brady: confiança e pose de presidente