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Pitágoras de chuteiras
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Cristiano Dias

25 Março 2016 | 09h00

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O futebol total não é um milagre sem santo. Johan Cruyff foi o prócer do movimento, mas a revolução não teria vingado sem o gênio de Rinus Michels e uma tropa de mágicos: Ruud Krol, Johan Neeskens, Sjaak Swart e Piet Keizer. A vanguarda surgiu nos anos 60 em uma cidade em ebulição. Até então, Amsterdã era uma das capitais mais modorrentas da Europa. A guerra havia deixado uma geração de políticos e intelectuais carrancudos, quase depressivos. Foi neste clima que jovens anarquistas fundaram o Provo, um movimento que usava a chacota para provocar o Estado.

Em 1966, quando a princesa Beatriz anunciou seu casamento com Claus von Amsberg, um aristocrata alemão com passagem pela Wehrmacht, o Provo espalhou boatos de que colocaria LSD no reservatório de água da capital e injetaria gás hilariante nos tubos do órgão da igreja. Era a origem do movimento hippie holandês, que no auge faria John Lennon se trancafiar com Yoko Ono em um quarto do Hilton Amsterdam para pedir a paz mundial.

No mesmo momento, na mesma cidade, Wim Crouwel abriu um estúdio que reunia, pela primeira vez, uma equipe de designers gráficos e industriais capazes de executar qualquer trabalho. Era o Total Design. Com o mesmo espírito, os primeiros arquitetos estruturalistas holandeses criaram o “entrosamento total” de elementos para que uma obra fosse vista como uma coisa só. Diante dos novos tempos, o arquiteto Jaap Bakema começou a falar em “abordagem total”, “urbanização total” e “ambiente total”.

Neste clima revolucionário jogaram Ajax e Liverpool, pela antiga Copa dos Campeões da Uefa, em uma quarta-feira à noite em Amsterdã, no dia 7 de dezembro de 1966. Os ingleses eram favoritos ao título. Meses antes, Roger Hunt e Ian Callagham haviam sido campeões mundiais pelo English Team. Dos holandeses, ninguém havia ouvido falar. A partida ficou conhecida como “O Jogo da Neblina”, porque mal se enxergava a bola.

O primeiro tempo terminou 4 a 0 para o time da casa, mas a cerração era tanta que pouca gente viu os gols. O placar do Estádio Olímpico, do lado oposto ao ataque do Ajax, era trocado manualmente por um garoto que estava perdido com o nevoeiro. “Ei, teve mais um gol!”, gritavam os torcedores. “Parem de inventar coisas! Vocês estão de sacanagem?”, respondia o rapaz. Para muitos na Holanda, o resultado – 5 a 1 para o Ajax – marcou o nascimento do “futebol total”.

Segundo o escritor Simon Kuper, a revolução foi o reflexo do conceito de espaço dos holandeses. Ao erguer pôlderes  e diques, a Holanda mudou sua dimensão física. Cruyff e Michels fizeram o mesmo com o campo de jogo. A ideia é simples: o tamanho do gramado é flexível e pode ser alterado pelos jogadores. Quando tem a bola, o time de Michels fazia com que o campo se tornasse o mais amplo possível. Quando perdia a criança, a equipe tentava destruir o espaço do adversário, se lançando na jugular do rival. Surpreso com a precisão matemática dos movimentos, o jornalista David Miller não teve dúvidas ao definir o craque daquela insurreição futebolística: “Cruyff é o Pitágoras de chuteiras”.

Futebol total, o massacre de Gelsenkirchen. Holanda 4 x 0 Argentina (26 de junho de 1974).

 

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