Análise: Em política externa, Trump usa a perigosa ‘teoria do louco’

Ele acha que pode usar sua fama de imprevisível para intimidar adversários, levando-os a fazer concessões que de outro modo não fariam

Redação Internacional

24 Dezembro 2016 | 05h00

James Hohmann
The Washington Post

Donald Trump parece haver adotado, com gosto, a “teoria do louco” de Richard Nixon em política externa. Ele acha que pode usar sua fama de imprevisível para tirar do sério e intimidar adversários, levando-os a fazer concessões que de outro modo não fariam.

Uma geração atrás, Nixon quis convencer os soviéticos e seus clientes norte-vietnamitas de que era um cabeça quente pronto a usar armas nucleares. O objetivo era assustar os comunistas e forçá-los a negociar. De certa forma, essa era a essência do plano secreto de que tanto falava durante a campanha de 1968.

Chegada de Donald Trump à presidência dos EUA divide historiadores sobre comparações do contexto atual com os anos 1930 (REUTERS/Brian Snyder)

Chegada de Donald Trump à presidência dos EUA divide historiadores sobre comparações do contexto atual com os anos 1930 (REUTERS/Brian Snyder)

Embora elites de Washington e de todo o mundo achem que Trump seja louco, o presidente eleito vem demonstrando ter a loucura de uma raposa. Ele sabia exatamente o que fazia quando propôs um banimento aos muçulmanos, por exemplo, ou arrumou brigas no Twitter para desviar a imprensa de problemas muito maiores.

Já sabemos que o telefonema de Trump ao líder de Taiwan não foi uma derrapada impensada, mas uma recalibragem cuidadosamente planejada da política americana.

Para o estratagema de Trump funcionar, líderes estrangeiros precisam continuar acreditando que ele é errático e propenso a reações irracionais. “Precisamos, como nação, ser mais imprevisíveis”, repetiu ele em campanha. Essa é uma jogada perigosa no atual ambiente geopolítico.

Nixon atuava num mundo bipolar, com duas superpotências, e não havia nada parecido com o Estado Islâmico. O mundo que Trump deve liderar é multipolar. A guerra assimétrica é hoje a principal preocupação.

O que preocupa tantos veteranos políticos estrangeiros é que Trump, pela própria natureza, é um lança-chamas, não um bombeiro. Desde que Teddy Roosevelt ganhou o Nobel da Paz por seu papel pelo fim da Guerra Sino Russa, todo presidente americano se orgulha de pelo menos tentar eliminar tensões globais, não exacerbá-las.

A ordem internacional, que os EUA encabeçam, depende muito de estabilidade, certezas e previsibilidade. Os aliados americanos precisam saber que podem contar com Washington e os inimigos têm de entender que as garantias de segurança para países que vão da Estônia à Coreia do Sul são reais.

Trump parece incapaz ou sem vontade de usar linguagem diplomática. Isso não deveria surpreender muito – e não é sempre necessariamente ruim.

Boa parte de seu sucesso na campanha deveu-se à recusa de ser “politicamente correto”. Por que ele mudaria agora? Sua decisão de adotar a “teoria do louco” confirma uma antiga fixação em Nixon. Henry Kissinger, assessor de Segurança Nacional e secretário de Estado de Nixon, conversou várias vezes com Trump antes e depois da eleição. Eles mantêm longos diálogos para falar sobre o mundo.

Na verdade, Trump admira tanto Nixon que planeja pendurar no Salão Oval uma carta que o ex-presidente lhe escreveu em 1987. Na carta, Nixon disse que Pat, sua mulher, havia visto Trump em um programa de televisão e previsto que, quando Trump decidisse disputar a presidência, venceria. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

É JORNALISTA