Artigo: Para onde vão os democratas?

Partido precisa de reformas para voltar a ser a legenda da classe trabalhadora, dos idosos, e dos pobres

Redação Internacional

15 Novembro 2016 | 05h00

Bernie Sanders

Milhões de americanos votaram em protesto no dia 8, manifestando sua oposição a um sistema político e econômico que põe a riqueza e os interesses corporativos acima dos interesses da população. Apoiei Hillary Clinton e trabalhei duro em sua campanha por achar que ela era a melhor opção. Mas Donald Trump conquistou a Casa Branca.

Sua retórica de campanha explorou com sucesso um medo muito real e justificado – um medo que muitos democratas tradicionais também sentem. Fiquei triste, mas não surpreso, com o resultado. Acredito que milhões de pessoas que votaram em Trump o fizeram porque estão cansadas da atual situação da economia, da política e da mídia. Famílias operárias veem como políticos recebem doações de campanha de bilionários e de representantes de corporações – e como, uma vez eleitos, esses políticos passam a ignorar os interesses dos americanos comuns.

Presidential candidate, Bernie Sanders prepares to speak for a video to supporters at Polaris Mediaworks on Thursday June 16, 2016 in Burlington, VT. (Matt McClain/The Washington Post via AP, Pool)

Bernie Sanders disputou as prévias democratas (Matt McClain/The Washington Post via AP, Pool)

Nos últimos 30 anos, muitos americanos foram vendidos pelos patrões. Enquanto trabalhavam cada vez mais, e por salários cada vez menores, viam os bons empregos irem para China, México ou outro país de salários mais baixos. Cansaram-se de ver diretores de empresas ganhando 300 vezes mais que eles, com 52% dos novos salários indo para o 1% de empregos de cúpula. Muitas de suas antes belas cidades do interior ficaram despovoadas, as lojas fechadas, os jovens tendo de sair de casa por falta de emprego – enquanto as corporações sugavam a riqueza das comunidades para depositá-las em paraísos fiscais.

Trabalhadores americanos não conseguem mais pagar por assistência decente e qualificada para suas crianças. Não podem mais mandar os filhos para a faculdade. Ao se aposentarem, não têm nada na conta bancária. Em muitas partes do país não encontram moradia pela qual possam pagar e o preço do seguro-saúde é alto demais. Muitas famílias vivem em desespero: drogas, álcool e suicídio encurtam a vida de um número cada vez maior de pessoas. Trump está certo: os americanos querem mudanças. Mas que tipo de mudança ele oferece?

Terá coragem de enfrentar os poderosos que são os responsáveis pelo sofrimento econômico de tantas famílias trabalhadoras? Ou dirigirá essa raiva majoritária para as minorias, para os imigrantes, para os pobres e desprotegidos? Terá ele coragem de peitar Wall Street, de tentar domar as instituições financeiras “grandes demais para quebrar”, de forçar os grandes bancos a investir em pequenos negócios, criando empregos no interior do país? Ou vai nomear outro banqueiro de Wall Street para chefiar o Departamento do Tesouro e manter os negócios como estão? Vai, como prometeu, enfrentar a indústria farmacêutica e obrigá-la a baixar os preços dos remédios?

Fico angustiado ao ouvir histórias de americanos sendo assediados e intimidados na esteira da vitória de Trump e de famílias que vivem com medo de serem separadas. Avançamos muito como país que combate a discriminação. Não vamos retroceder. Estejam certos: não haverá concessões quanto a racismo, preconceito, xenofobia e sexismo. Vamos combater isso em todas suas formas, quando e onde voltar à tona.

Manterei a mente aberta para ouvir que ideias Trump oferecerá, para como e quando poderemos trabalhar juntos. Mas, tendo perdido no voto popular, ele faria bem em prestar atenção às opiniões dos progressistas. Se estiver falando sério sobre adotar políticas que melhorem a vida dos trabalhadores, dou a ele algumas sugestões para que tenha meu apoio.

Vamos reconstruir nossa destroçada infraestrutura e criar milhões de empregos bem pagos. Vamos elevar o salário mínimo para um patamar que permita a sobrevivência. Vamos ajudar os estudantes a pagar a faculdade. Vamos garantir licença-maternidade, licença médica e ampliar o seguro social. Vamos reformar um sistema econômico que permite a bilionários como Trump não pagarem um centavo de impostos federais. E, mais importante que tudo, vamos acabar com a possibilidade de grandes doadores de campanha comprarem os resultados de eleições.

Nos próximos dias, também vou propor reformas para revigorar o Partido Democrata. Tenho convicção de que a agremiação deva se libertar de seus laços como o establishment corporativo para voltar a ser o partido da classe trabalhadora, dos idosos e dos pobres. Precisamos abrir o partido para o idealismo e a energia dos jovens e para todos os que lutam pela justiça econômica, social e ambiental.

Temos de ter a coragem de conter a ganância e o poder de Wall Street, das empresas farmacêuticas, das seguradoras e da indústria petrolífera. Quando minha campanha chegou ao fim, prometi a meus apoiadores que a revolução política continuaria. Agora, isso precisa ocorrer. Somos a nação mais rica da história da humanidade. Quando nos unimos e não permitimos que demagogos nos dividam por raça, gênero ou origem, não há nada que não consigamos fazer. Precisamos avançar, não retroceder. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

*SENADOR DE VERMONT, DISPUTOU
AS PRÉVIAS DEMOCRATAS DE 2016

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