China prevê instabilidade com os EUA se Trump não revisar elo com Taiwan

Pequim afirma que relações entre países serão ‘severamente’ abaladas se presidente eleito deixar de seguir princípio que impede Washington de reconhecer independência da ilha; jornal oficial chinês fala em ‘auxiliar inimigos’ americanos

Redação Internacional

13 Dezembro 2016 | 05h00

Cláudia Trevisan
CORRESPONDENTE / WASHINGTON

O governo chinês elevou o tom da crise provocada pelas declarações do presidente eleito dos EUA, Donald Trump, sobre Taiwan. Pequim afirmou que o republicano pode colocar em risco as bases do relacionamento entre as duas maiores economias do mundo caso decida ignorar o princípio de “Uma Só China” que o orienta os laços há quase quatro décadas.

Em linguagem menos diplomática, um dos jornais oficiais chineses disse que o bilionário é “ignorante como uma criança” em temas de política externa. Trump decidiu testar os limites da relação entre os EUA e a China antes mesmo de se mudar para Casa Branca. Depois de aceitar um telefonema de felicitações da presidente de Taiwan, Tsai Ing-wen, ele condicionou o respeito ao princípio de “Uma Só China” a concessões de Pequim em outras áreas, como o comércio.

RIT06 TAIPEI (TAIWÁN) 12/12/2016.- Una ilustración del presidente electo estadounidense Donald Trump en la portada de un periódico junto a la bandera taiwanesa (izq abajo) y otra china (dcha arriba) en Taipei, hoy, 12 de diciembre de 2016. Taiwán buscará el apoyo de Estados Unidos para la firma de acuerdos inversión y libre comercio bilaterales y multilaterales, dijo hoy la presidenta taiwanesa, Tsai Ing-wen, a un alto funcionario estadounidense. EFE/Ritchie B. Tongo

Posições de Trump sobre Taiwan irritam a China EFE/Ritchie B. Tongo

A conversa com foi a primeira entre um líder dos EUA e um presidente de Taiwan desde 1979, quando os dois países deixaram de ter relações diplomáticas em razão do restabelecimento dos laços entre Washington e Pequim.

O não reconhecimento de Taiwan como um país independente é um dos elementos centrais da política doméstica e externa da China. Os dirigentes comunistas veem a ilha como uma Província rebelde, para onde fugiram os nacionalistas que perderam a guerra civil vencida pelos comunistas em 1949.

Durante 30 anos após a vitória das forças comandadas por Mao Tse-tung, os EUA mantiveram relações diplomáticas com Taiwan. A situação começou a mudar com a reaproximação iniciada por Richard Nixon em 1972, que levou ao restabelecimento de relações com Pequim em 1979. Para que isso fosse possível, a China exigiu o fim do reconhecimento de Taiwan como país independente, princípio respeitado por todos os países que têm laços com Pequim – entre eles, o Brasil.

Cobrança. “A diretriz de ‘Uma Só China’ é o fundamento político dos laços entre a China e os EUA”, disse ontem Geng Shuang, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores chinês. Segundo ele, os vínculos bilaterais podem ser “severamente” abalados caso o novo governo americano mude a orientação de Washington sobre isso.

“Estamos sendo muito prejudicados pela China com a desvalorização (da moeda); impondo tarifas a nós em suas fronteiras enquanto não cobramos tarifas deles; com a construção de um grande forte no meio do Mar do Sul da China, que eles não deveriam estar construindo e, francamente, com o fato de eles não estarem nos ajudando de nenhuma maneira com a Coreia do Norte”, disse Trump no domingo em entrevista à Fox.

Apesar de não reconhecer Taiwan como país independente, o governo dos EUA dá assistência na área de defesa à ilha e é obrigado por lei a defendê-la na hipótese de agressão externa.

O questionamento do presidente eleito do princípio de uma só China gerou uma onda de recriminações nos jornais ligados ao governo de Pequim “Em resposta às provocações de Trump, Pequim poderia oferecer apoio e até assistência militar aos inimigos dos EUA”, disse editorial do Global Times, ligado ao Partido Comunista.