Colégio eleitoral se reúne para referendar resultado nos EUA

Colégio eleitoral se reúne para referendar resultado nos EUA

Apesar da pressão popular, é quase nula a possibilidade de que o órgão rejeite a escolha de Donald Trump como o 45º presidente americano

Redação Internacional

19 Dezembro 2016 | 05h00

Cláudia Trevisan
CORRESPONDENTE / WASHINGTON

Considerado uma “relíquia medieval” por alguns constitucionalistas e um “vestígio” do passado pelo presidente americano, Barack Obama, o colégio eleitoral dos EUA se reúne nesta segunda-feira, 19, sob pressão sem precedentes de parcela da sociedade para ignorar a tradição e rejeitar a escolha de Donald Trump como o 45.º presidente do país.

A probabilidade que o movimento seja bem-sucedido é próxima de zero, mas ele revela a crescente insatisfação com um modelo que nem sempre reflete a vontade popular. Trump será o sucessor de Obama apesar de ter perdido a eleição direta para a democrata Hillary Clinton por uma diferença de 2,8 milhões de votos.

Brian Fairbrother, morador de Shelby Township, no Michigan, exibe certificado que garante sua participação no colégio eleitoral que se reunirá nesta segunda-feira, 19, para confirmar a eleição presidencial nos EUA (AP Photo/Mike Householder)

Brian Fairbrother, morador de Shelby Township, no Michigan, exibe certificado que garante sua participação no colégio eleitoral que se reunirá nesta segunda-feira, 19, para confirmar a eleição presidencial nos EUA (AP Photo/Mike Householder)

A personalidade controvertida do republicano, o conflito de interesses de seus negócios e a suspeita de interferência da Rússia na eleição americana levaram ativistas em todo o país a bombardearem os 538 integrantes do colégio eleitoral com milhares de e-mails, telefonemas e cartas para que votem contra Trump. O ator Martin Sheen e outras celebridades gravaram vídeos nos quais sustentam que os fundadores dos EUA criaram o organismo para impedir que o comando do país caia nas mãos de “demagogos” e garantir que ele seja exercido por alguém qualificado para o cargo – requisitos que, para eles, não seriam atendidos por Trump.

Os integrantes do colégio eleitoral desempenharão um ritual que até agora era visto como uma mera formalidade: votar no candidato que ganhou a eleição em seus Estados e conquistou seus representantes no organismo. Nessa conta, o republicano lidera com 306 dos 538 votos, enquanto Hillary tem 232. Por enquanto, só um delegado republicano disse que vai ignorar o resultado de seu Estado e votar contra Trump por “razões de consciência”. Para impedir a chegada do Republicano à Casa Branca, mais 36 “eleitores” teriam de seguir o mesmo caminho, possibilidade quase inexistente.

A aritmética do voto popular e da eleição indireta não coincidiram em duas das últimas cinco disputas presidenciais americanas, sempre em prejuízo de candidatos democratas. Em 2001, Al Gore teve 500 mil votos a mais que George W. Bush, mas não chegou à Casa Branca. A diferença de 2,8 milhões de votos deu a Hillary uma vantagem de 2,1 pontos percentuais sobre Trump, margem superior à obtida por três presidentes da história recente dos EUA: John Kennedy, Richard Nixon e Jimmy Carter.

A disparidade entre a eleição direta e indireta ocorre porque o colégio eleitoral dá peso desproporcional a Estados menos populosos do interior americano, em detrimento dos que concentram grandes populações urbanas nas duas costas, que representam o típico eleitorado democrata.

No mês passado, a senadora Barbara Boxer apresentou uma proposta de emenda constitucional para eliminar a eleição indireta. “O colégio eleitoral é um sistema ultrapassado e não democrático, que não reflete nossa sociedade moderna e precisa ser modificado imediatamente”, justificou a democrata da Califórnia.

Mas é improvável que a proposta avance. Além da aprovação no Congresso, emendas constitucionais precisam ser ratificadas por dois terços dos Estados e os que se beneficiam do modelo tendem a votar contra sua eliminação.

Na tentativa de contornar a mudança constitucional, um grupo de Estados iniciou um movimento pelo qual se comprometem a dar o voto de todos os seus representantes no colégio eleitoral ao candidato que vencer a eleição popular nacionalmente. Por enquanto, o grupo tem adesão de 11 Estados com 165 representantes no organismo. A proposta de vincular os delegados ao voto popular entrará em vigor quando a iniciativa tiver a participação de Estados que tenham um total de 270 delegados, número mínimo necessário para a eleição indireta do presidente.

Em 2012, Trump disse em um post no Twitter que o colégio eleitoral era “um desastre” para a democracia americana. Depois da eleição, ele mudou de opinião: “O colégio eleitoral é na verdade genial na maneira pela qual coloca em jogo todos os Estados, até os menores.”