Artigo: Eleição maculada

O vitorioso venceu no colégio eleitoral graças a uma intervenção internacional e ao comportamento inapropriado do FBI

Redação Internacional

13 Dezembro 2016 | 05h00

Paul Krugman
THE NEW YORK TIMES

Segundo o Washington Post, a CIA concluiu que hackers operando para o governo russo interferiram na eleição de 2016 e a fizeram pender para a vitória de Donald Trump. Por outro lado, o FBI publicou, dez dias antes da eleição, uma carta sugerindo que estava prestes a encontrar novas provas incriminando Hillary Clinton. O assunto dominou as manchetes, mas, como se verificou depois, nada foi encontrado.

A interferência russa e a intervenção do FBI influíram na eleição? Sim. Hillary perdeu em três Estados, Michigan, Wisconsin e Pensilvânia, por menos de um ponto porcentual, e na Flórida por pouca coisa mais. Se tivesse vencido em ao menos três desses Estados teria sido eleita. Existe dúvida de que Putin e o FBI fizeram diferença?

PIL02 VILNIUS (LITUANIA) 21/11/2016.- Una mujer pasa por delante de un grafiti que representa al presidente electo estadounidense, Donald Trump (d), y al presidente ruso, Vladímir Putin, mientras comparten el humo de un cigarro, en la pared de un restaurante en Vilnius, Lituania, el 20 de noviembre de 2016. EFE/Roman Pilipey

Grafite de Putin e Trump na LItuânia (Foto: EFE/Roman Pilipey)

Além disso, não teria sido uma vitória marginal. E, mesmo que fosse, Hilary recebeu quase 3 milhões de votos a mais que seu rival, com uma margem próxima da que George W. Bush obteve em 2004. Essa foi uma eleição maculada. Não foi, até onde podemos afirmar, roubada no sentido de que os votos foram contados erroneamente e o resultado não foi invalidado.

Mas foi ilegítima sob vários aspectos importantes: o vitorioso foi rejeitado pela população e venceu no colégio eleitoral graças a uma intervenção estrangeira e ao comportamento inapropriado – e partidário – do FBI. Sabendo disso, a questão agora é o que fazer nos próximos meses e anos.

Os americanos poderiam apelar ao presidente eleito para agir como um pacificador e se comportar de maneira a respeitar a maioria dos eleitores, que votou contra ele, e a fragilidade de sua vitória no colégio eleitoral. Correto. O que estamos vendo são alegações insensatas de que as pessoas votaram ilegalmente, afirmações falsas de uma vitória avassaladora e difamação das agências de inteligência.

Um outro caminho, que será adotado pela mídia, é acatar como normal o futuro governo. Basicamente, fingir que tudo está bem. O que poderia se justificar se houvesse alguma perspectiva de um comportamento controlado, responsável, por parte do próximo presidente.

Mas está claro que Trump – cujos conflitos de interesse não têm precedentes e possivelmente são inconstitucionais – pretende mudar radicalmente a política dos EUA, incluindo uma pronunciada tendência pró-Rússia no campo da política externa, sem se importar com as preferências de muitos americanos.

Em outras palavras, nada do que ocorreu no dia da eleição ou vem sucedendo é normal. As normas democráticas foram e continuam a ser violadas e quem se recusa a reconhecer essa realidade é cúmplice da degradação da república. Esse presidente terá autoridade legal, que deve ser respeitada. Mas não merece nenhuma deferência ou benefício da dúvida.

Quando o governo começa a tratar as críticas como algo antipatriota, a resposta tem de ser essa: o senhor está brincando? Trump, ao que tudo indica, é um “candidato siberiano”, que venceu a eleição com ajuda de uma potência estrangeira hostil à qual expressa respeito. E seus críticos são pessoas sem patriotismo?

Reconhecer essa mácula envolvendo o próximo governo resultará em algo positivo? Talvez desperte a consciência de pelo menos alguns republicanos. Muitas das coisas que Trump tentará fazer poderão ser bloqueadas por apenas três senadores republicanos. Os pilares da moralidade no Capitólio vão enrijecer se houver claros sinais de que a população está indignada com o que vem ocorrendo. E haverá uma chance de essa indignação ser sentida dentro de dois anos – não só nas eleições para o Congresso, mas nos votos que determinarão o controle de muitos governos estaduais.

No momento, a indignação com uma eleição maculada não deve pautar toda a política de oposição. Será crucial manter a exasperação com relação às medidas políticas adotadas de fato. Tudo o que se ouviu até agora indica que Trump trairá completamente os interesses dos eleitores brancos da classe operária que foram seus defensores, tirando deles a assistência médica e a segurança da aposentadoria e tal traição deve ser ressaltada. Estou pensando como manter minha cólera em ebulição. Essa eleição foi um escândalo e não devemos esquecê-la jamais. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É COLUNISTA