Obama diz que racismo divide, exalta diversidade e chora ao falar da família

Obama diz que racismo divide, exalta diversidade e chora ao falar da família

Em adeus ao mandato, presidente afirma que EUA estão mais fortes porque povo acreditou em sua mensagem de esperança há 8 anos

Redação Internacional

11 Janeiro 2017 | 01h25

Cláudia Trevisan
ENVIADA ESPECIAL / CHICAGO
Barack Obama se despediu nesta terça-feira da presidência dos EUA com um discurso no qual defendeu seu legado e alertou para os riscos de enfraquecimento dos valores que, segundo ele, formam a base da democracia americana. Ele alertou que divisões decorrentes no racismo ainda existem e fez uma exaltação da diversidade.

Logo que ele começou a falar, as milhares de pessoas que se reuniram em Chicago para ouvi-lo gritaram em coro “quatro anos mais”.

President Barack Obama delivers his farewell address at McCormick Place in Chicago, Jan. 10, 2017. (Doug Mills/The New York Times)

Obama faz seu discurso de despedida em Chicago. (Foto: Doug Mills/The New York Times)


Depois de uma eleição marcada pelas propostas de Donald Trump de deportar imigrantes, banir muçulmanos do país e usar a tortura contra suspeitos de terrorismo, Obama falou da importância do respeito ao Estado de Direito, à diversidade, às minorias e às escolhas sexuais individuais.

“Da mesma maneira que nós, como cidadãos, temos de permanecer vigilantes contra agressões externas, nós temos de estar alertas contra o enfraquecimento dos valores que nos fazem o que somos”, disse Obama.

“É por isso que eu rejeito a discriminação contra os muçulmanos americanos”, afirmou o presidente, em uma referência explícita às propostas de Trump. Segundo ele, o abandono de princípios que orientam a democracia americana fortalece os adversários externos do país e grupos extremistas como o Estado Islâmico.

“Eles não podem derrotar a América a menos que nós traiamos nossa Constituição e os princípios pelos quais nós lutamos”, afirmou.

“Rivais como a Rússia ou a China não podem equiparar nossa influência ao redor do mundo – a menos que nós abandonemos o que nós representamos e nos tornemos como qualquer outro país que abusa de vizinhos menores.”

Obama decidiu fazer seu discurso de despedida da Casa Branca em Chicago, a cidade onde construiu sua família, desenvolveu sua identidade política e criou as bases para sua meteórica ascensão para a Casa Branca.

No discurso, ele lembrou de seu vínculo emocional com a cidade e ficou com a voz embargada ao falar de sua mulher, Michelle, e das filhas Malia e Sasha. “Michelle, nos últimos 25 anos você foi não apenas minha mulher e mãe de minhas filhas, mas minha melhor amiga”, afirmou o presidente em homenagem a uma das mais populares primeiras-damas da história dos EUA.

Apesar do alerta contra a ameaça dos valores americanos, Obama disse estar otimista em relação ao futuro do país e prometeu que continuará a trabalhar por ele como cidadão até o último de seus dias. E fez um último apelo aos que o ouviam: “Eu peço que vocês acreditem. Não em minha capacidade de promover mudança, mas na sua”.

Obama fez uma única referência direta a Trump, que despertou vaias da plateia. “Em dez dias, o mundo vai assistir uma marca de nossa democracia: a transferência pacífica de poder de um presidente eleito livremente para o próximo.”

Há oito anos, Obama assumiu um país que vivia sua mais grave crise financeira em sete décadas. No dia 20, ele entregará a seu sucessor uma economia em expansão, com queda de desemprego e aumento de renda. “Em todas as medidas, a América está melhor hoje.”

Voluntário na primeira campanha de Obama à presidência, o advogado James Connelly, de 58 anos, estava entre as milhares de pessoas que ouviram o discurso de despedida em Chicago. “Eu estava no começo e queria estar aqui no fim para dizer obrigada.”

Sandra Shakoor, de 69 anos, pediu votos para Obama desde a primeira eleição que ele disputou, no fim da década de 90, quando se elegeu senador estadual de Illinois. “Sou muito orgulhosa do que ele realizou, apesar de todas as dificuldades, mantendo sua dignidade e humanidade”, disse Shakoor, que está apreensiva em relação ao governo Trump. “Nós temos que aceitar e permanecer vigilantes para evitar que o país mergulhe no caos.”

Muçulmana, a estudante Meriem Sadoun, de 22 anos, votou na candidata do Partido Verde, Jill Stein, porque não acredita nas chances de Trump vencer a disputa presidencial. “Desde a eleição houve um aumento nos crimes de ódio e hostilidades contra muçulmanos. Se eu não vivesse em uma cidade grande como Chicago, eu sentiria uma pressão maior.” Nesta terça-feira, Sadoun viveu o que descreveu como uma experiência única: despedir-se de um presidente que ascendeu politicamente em sua cidade natal.

Obama deixa a presidência dos Estados Unidos com aprovação superior a 55%, índice alcançado por poucos de seus antecessores no fim de seus mandatos. A dez dias de sua posse, Trump tem apenas 37% de aprovação, um recorde negativo para um líder recém-eleito, de acordo com pesquisa divulgada nesta terça-feira pela Universidade Quinnipiac. Obama encerrou seu discurso com um “Sim, nós podemos. Sim, nós fizemos. Sim, nós podemos”.

 

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