Sessions promete ser contrapeso a Trump como secretário de Justiça dos EUA

Sessions promete ser contrapeso a Trump como secretário de Justiça dos EUA

Em audiência no Senado, indicado ao cargo garantiu que falará 'não' a Trump quando o presidente eleito 'se exceder'; ele também prometeu proteger direitos de gays, lésbicas e transexuais e disse que não investigará a democrata Hillary Clinton

Redação Internacional

10 Janeiro 2017 | 15h15

WASHINGTON – O senador Jeff Sessions, indicado pelo presidente eleito dos EUA, Donald Trump, para ser secretário de Justiça, está decidido a exercer um papel de contrapeso no futuro governo americano e a dizer “não” ao milionário nova-iorquino se Trump “se exceder” em seu poder.

Sessions afirmou também que cumprirá a decisão da Suprema Corte que autorizou, em 2015, o casamento gay em todo o território americano e se comprometeu a proteger os direitos de gays, lésbicas e transexuais. O senador também afirmou considerar que a decisão em que o Tribunal reconheceu o direito ao aborto ou interrupção voluntária da gravidez “viola a Constituição”, mas ressaltou que respeitará as leis do país.

As declarações foram feitas na primeira de suas audiências da Comissão de Justiça do Senado, destinada a avaliar sua designação como secretário de Justiça do futuro governo americano, que foi interrompida em várias ocasiões por manifestantes que gritaram: “Não a Trump, não ao fascismo nos EUA, não a Ku Klux Klan (KKK)”.

Senador pelo estado do Alabama durante 20 anos e conhecido por suas duras posições em relação à imigração, Sessions defendeu a independência do Departamento de Justiça dos EUA e considerou que qualquer um que desempenhar esse cargo deve estar “comprometido a seguir a lei” e ser fiel à Constituição do país.

“(Essa pessoa) deve estar comprometida a seguir a lei. Ele ou ela devem estar dispostos a dizer ‘não’ ao presidente se este se exceder. Não deve ser uma pessoa que autoriza sem questionar”, afirmou Sessions.

Em sua declaração, Sessions rotulou de “falsas” algumas das acusações que foram feitas contra ele, como a de que perseguiu defensores dos direitos civis dos afro-americanos e apoiou o grupo racista Ku Klux Klan durante sua etapa como procurador do distrito sul do Alabama (1981-1993).

“Abomino o Ku Klux Klan, o que ele representa e sua ideologia de ódio”, garantiu Sessions, que não mencionou em sua declaração as constantes interrupções dos manifestantes. O senador focou seu discurso na “perigosa tendência” de aumento do crime que os EUA estão vivendo nos últimos anos.

Para evidenciar o aumento da criminalidade nos EUA, Sessions citou as últimas estatísticas do FBI, a polícia federal dos EUA, que mostram um aumento de todo tipo de crimes de 4% entre 2014 e 2015, período no qual os assassinatos cresceram 11%, o maior aumento desde 1971.

Se for confirmado como secretário de Justiça, Sessions se comprometeu a processar os que “violam repetidamente” as fronteiras dos Estados Unidos, perseguir os crimes de armas de fogo e criar alianças com os departamentos de polícia locais para acabar com as gangues e os cartéis do narcotráfico.

Está previsto que testemunhem neste terça-feira contra Sessions o senador Cory Booker e o congressista John Lewis, um histórico ativista do movimento pelos direitos civis dos afro-americanos.

Protestos. A indicação de Sessions gerou um grande mal-estar entre organizações como a União para as Liberdades Civis na América (ACLU), que consideram o senador racista e criticaram as posturas defendidas por ele sobre imigração. Grande parte dos manifestantes que protestou hoje na audiência estava vestida de vermelho e rosa, cores da organização pacifista “Codepink”.

Quando Sessions entrou na sala, dois homens ficaram de pé em suas cadeiras na plateia e mostraram um chapéu que imitava os trajes usados pelos membros do Ku Klux Klan. Eles ironicamente agradeceram o senador pelo Alabama por ser o representante do grupo no novo governo.

“Vocês não podem me deter! Sou um homem branco e os homens brancos não podem ser detidos!”, disse um deles, também retirado pelos agentes de segurança da Comissão de Justiça do Senado.

Os democratas prometeram questionar Sessions pelas declarações que já o impediram de ser juiz em um tribunal do Alabama em 1986, quando tinha sido indicado pelo então presidente Ronald Reagan.

Hillary. Session se comprometeu durante a audiência no Senado a não investigar pessoalmente a candidata democrata à presidência derrotada por Trump, Hillary Clinton, pelo escândalo envolvendo o uso de um servidor privado de e-mails quando ela era secretária de Estado (2009-2013) ou pelas polêmicas doações para a Fundação Clinton.

“Este país não castiga seus inimigos políticos. Este país se assegura que ninguém esteja acima da lei”, disse o senador. “Não devemos permitir que uma disputa política se converta em uma disputa judicial.” Ele explicou que barraria “qualquer questão” que implicasse Hillary porque uma investigação contra ela poderia “colocar sua objetividade em risco” em razão dos comentários que ele fez contra ela durante a campanha à Casa Branca.

Durante a disputa eleitoral, Trump prometeu que faria seu secretário de Justiça designar um procurador especial para investigar Hillary, acusada pelo magnata de comprometer a segurança do país ao trocar e-mail a partir de uma conta pessoal. / EFE, AP, REUTERS e AFP

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