Trunfo de Trump

Para terminar o mandato, o melhor que o presidente eleito dos EUA tem a fazer é fomentar o cinismo

Redação Internacional

27 Dezembro 2016 | 05h00

O italiano Silvio Berlusconi estava no auge de sua carreira política e nadava de braçada em meio a escândalos e ações judiciais, um professor universitário italiano explicou a The Economist como as palavras “furbo” e “fesso” ajudavam a explicar a aparente invencibilidade do político. Nas camadas da sociedade italiana em que o apoio a Berlusconi era mais forte, ser considerado um furbo –, ou seja, esperto, manhoso, matreiro – é motivo de orgulho.

O furbo é craque em furar filas, dá nó em pingo d’água para não pagar impostos e sabe se aproveitar como ninguém das redes de nepotismo e compadrio. Já o fesso é o trouxa que espera a vez de ser atendido, não percebe que o sistema é viciado e recolhe seus impostos sem desconfiar que alguma autoridade corrupta acabará passando a mão em boa parte deles.

O fesso festeja a aprovação de uma lei destinada a melhorar a qualidade do ar em sua cidade, acreditando ingenuamente nas justificativas apresentadas pelas elites. O furbo fica se perguntando quem teria sido o espertalhão do departamento de meio ambiente cujo cunhado abocanhou um contrato polpudo para fornecer kits de limpeza de chaminés para a prefeitura.

Para seus admiradores, Berlusconi era o furbo que acabaria com todos os outros. E ele falava a língua deles, brindando-os com tiradas de um cinismo desaforado, como na ocasião em que disse que os italianos que simpatizavam com seus adversários de centro-esquerda não eram apenas uma gente iludida, mas um bando de “coglioni”, verdadeiros idiotas, capazes de votar “contra seus próprios interesses”.

Viver numa sociedade desse tipo tem custos. Antropólogos e cientistas políticos passaram décadas avaliando os benefícios das relações de confiança e práticas transparentes que caracterizam países como a Suécia, assim como os prejuízos causados pela corrupção e pelo desperdício de capital humano em lugares como a Sicília.

Em seu livro Confiança, que foi publicado há 20 anos, mas voltou, infelizmente, a ser atual, o professor da Universidade Stanford, Francis Fukuyama, diz que boa parte do sucesso dos EUA e de seu modelo de capitalismo se deve ao fato de que os americanos aprenderam a confiar uns nos outros na hora de assinar contratos, mesmo nunca tendo se visto antes.

Isso lhes permitiu passar a fazer negócios fora dos círculos familiares, grupais ou tribais em que se apoiam as sociedades onde o nível de confiança é baixo.

Governo. Às vésperas do início da era Trump, a composição do gabinete do presidente eleito e do conjunto de seus assessores mais próximos é ideologicamente incoerente demais para servir de indicação dos prováveis rumos de sua gestão.

Há incendiários e linhas-duras na equipe, incluindo secretários que até pouco tempo atrás pediam o enxugamento ou a abolição dos órgãos que agora vão comandar, além de um número alarmante de indivíduos que não veem nenhum problema em ameaçar outros países com uma guerra comercial ou outra. Mas há também figuras saídas dos recantos mais tradicionais do establishment republicano.

Para o Pentágono, onde estará encarregado da segurança nacional, Trump nomeou o general reformado James Mattis, que qualificou a anexação da Crimeia pela Rússia como uma ameaça “grave” e acusou Vladimir Putin de querer “implodir a Otan”.

O escolhido para o Departamento de Estado, Rex Tillerson, que atualmente comanda a petrolífera ExxonMobil, posicionou-se contra as sanções impostas à Rússia depois da invasão da Crimeia. O Departamento de Administração e Orçamento será chefiado pelo deputado Mick Mulvaney, da Carolina do Sul, um conservador fiscal que defende o Estado mínimo. Mas o estrategista-chefe de Trump, Stephen Bannon, quer investir US$ 1 trilhão num projeto de infraestrutura que deixará conservadores “fulos da vida”.

É fácil imaginar os jornais, daqui a alguns anos, estampando manchetes em que Trump é apresentado como o revolucionário que instaurou nos EUA o nacionalismo “de faca nos dentes”, mas também não é difícil vislumbrar um presidente incompetente, liderando um governo paralisado por disputas internas e com índices de aprovação em queda livre.

Por outro lado, por mais que as políticas a serem adotadas pelo governo Trump sejam um mistério, seu modo de fazer política é cristalino. O republicano chegou à Casa Branca minando a confiança dos americanos em toda e qualquer figura ou instituição que aparecesse em seu caminho, dos rivais que enfrentou nas primárias a sua adversária democrata, de líderes parlamentares e empresariais à imprensa e aos jornalistas que insistiam em checar a veracidade de suas declarações – e até mesmo aos fessi que acreditam ser importante pagar impostos.

Num debate com Hillary Clinton, ao ser acusado de recorrer a estratagemas para não pagar imposto de renda, o magnata grunhiu: “Isso só mostra que eu sou esperto”.

Guinada. Trump não conseguirá abortar a missão destrutiva em que embarcou para fazer com que os EUA se pareçam menos com a Suécia e mais com a Sicília. Não terá como cumprir um grande número das promessas que fez. Será obrigado a trair os eleitores que seduziu com uma teoria conspiratória travestida de política econômica, amparada numa inventividade descarada, digna de um Berlusconi.

O magnata identificou uma oportunidade de mercado: milhões de americanos com instintos conservadores, concentrados principalmente no Meio-Oeste, em sua maioria indivíduos brancos de baixa qualificação profissional, que se sentiam abandonados tanto por democratas quanto por republicanos e se mostravam incapazes de encontrar explicação minimamente benigna para mudanças socioeconômicas que os abalavam e enfureciam.

Durante a campanha, Trump fez pouco das transformações estruturais por que passa a economia mundial, como a automação ou a globalização da concorrência. Escarneceu da ideia de que a política externa é marcada por negociações complexas, em que é preciso fazer concessões.

Em vez disso, contou aos eleitores uma história sobre elites “néscias” e apáticas, que haviam aberto mão daquilo que por direito pertencia aos americanos: de empregos no setor industrial a valores tradicionais ou fronteiras protegidas contra a entrada de imigrantes ilegais e terroristas muçulmanos. Bastava que o colocassem no poder que ele daria um jeito na coisa.

Para o modo que Trump tem de fazer política, fomentar o cinismo e as divisões sectárias não é defeito. Pelo contrário, é a melhor chance que o republicano tem de se manter na Casa Branca pelos próximos quatro ou oito anos, quando a realidade começar a cobrar seu preço. É por isso que Trump instrui seus eleitores a não acreditar na CIA quando a agência acusa a Rússia de ter interferido na eleição.

É por isso que, em comícios realizados recentemente em Estados em que obteve a maioria dos votos, ele disse a seus eleitores: “Nós somos as pessoas que realmente amam esse país”, e, ao mesmo tempo, ao ouvir a multidão pedindo que Hillary fosse presa, rebateu: “Isso foi ótimo antes da eleição, agora não nos importa mais”.

Prestes a desonrar sua palavra, Trump precisa de uma América em que todos os princípios morais sejam relativos, os fatos sejam escritos pelos vencedores e os valores contem menos que o apelo solerte a lealdades sectárias. Ainda não há como saber qual será o legado de Trump para os EUA.

Algumas das coisas que ele fará serão revertidas pelo presidente seguinte, quando o pêndulo eleitoral se movimentar na direção oposta, como geralmente acontece. Não será tão simples corrigir um país em que as pessoas já não confiam em líderes e instituições. / TRADUÇÃO DE ALEXANDRE HUBNER

© 2016 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM