A capitulação de Angela Merkel frente à Turquia

Fátima Lacerda

16 Abril 2016 | 14h29

No início da tarde de sexta-feira (15) a chanceler Angela Merkel se mostrou frente à imprensa. Até ai, nada de novo. Porém a visível saia justa da chanceler, mostra o beco sem saída que ela se deixou acuar.

Cronologia

Numa noite da 31 de março, um humorista alemão chamado Jan Böhmermann (35) usando da liberdade artística, algo sagrado na Alemanha, ao recitar um poema em seu programa noturno “Neo Magazine Royal“, na rede pública ZDF no seu canal de cultura, o  ZDFneo, faz gestos chulos e obscenos em desprezo e escárnio ao presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan. Mesmo sendo no horário no final da noite, a exibição resultou naquilo que ninguém esperava: num abacaxi político-diplomático sem precedência. 

Logo no dia seguinte, a emissora tirou da mediateca o programa disponível em formato de Podcast, deixando o humorista à mercê de si mesmo e da avalanche midiática que caiu sobre ele. Um funcionário da mais infuente emissora de TV do país, desprovido de Lobby. A panela de pressão político midiática foi cozinhando o engodo, até que no início de abril, o presidente enviou carta a Chancelaria Federal pedindo autorização ao governo federal para que seja aberto inquérito pela Promotoria Pública baseado no parágrafo 103 do Código Penal Alemão (StGB), na sigla.

O aspecto jurídico

O parágrafo 103 prescreve pena entre 3 e 5 anos para quem ofender Chefes de Estado estrangeiros. Esses, podem enviar uma solicitação ao governo alemão que precisa aprovar a abertura de inquérito.

Entre o recebimento da carta do presidente do Presidente turco dia 08 de abril no Ministério das Relações Exteriores e o pronunciamento de Merkel na sexta-feira (15) foram 7 dias. Em pronunciamento através de seu porta-voz, Merkel pedia à opinao pública “paciência” para avaliar o caso.

Visivelmente de saia justa e acuada pelas circunstâncias políticas que atualmente envolvem a Alemanha e a Turquia, em seu breve pronunciamento, Merkel capitulou perante o déspota turco. Imediatamente se tornou trending topics no Twitter com o #hashtag #Merkel.

“Sras e Srs. Em carta com a data de 07 de abril e recebimento dia 08, a República da Turquia faz um pleiteio de abertura de inquérito contra o humorista Jan Böhmermann, por causa do seu programa na TV. O parágrafo do código penal prevê que para injúria e difamação de chefes de estado estrangeiros e a eventual abertura de inquérito é da acuada do governo federal alemão, que avaliou esse pedido. Nessa avaliação estiveram envolvidos o Ministério das Relações Exteriores, o Ministério da Justiça, o Ministério do Interior e a Chancelaria Federal. Houve discordância das pastas envolvidas de como proceder entre a União e o SPD (partido que compõe a coligação com o partido de Merkel). Nesse caso, o governo federal irá dar o sinal verde para a Promotoria (Pública) abrir inquérito”. Tentando botar panos quentes para o que a imprensa de forma quase unânime considera uma decisão equivocada da chanceler, Merkel apelou para os argumentos que já eram usados por seus antecessores, quando o assunto era crítica sobre a “parceria” entre Alemanha e Turquia.

Na época que o país era governado por Helmut Kohl e seu Ministro das Relações Exteriores era Klaus Kinkel, a retórica e tentativa de justificativa de que a Turquia é importante como parceiro na OTAN, já era usada. Num dos pronunciamentos mais equivocados de toda a sua gestão, a chanceler também pescou o argumento de Kinkel, além de usar de frases de valor cosmético para “esclarecer” uma decisão que é unicamente de cunho político estratégico. “A Alemanha é parceira da Turquia tem uma ligação estreita e cordial: através dos turcos que aqui vivem, através das estreitas relações de âmbito econômico e através da nossa reciproca responsabilidade como membros da OTAN“, declarou Merkel fazendo uso de uma linguagem corporal que claramente revela que nem ela mesmo acredita no que acabou de dizer. A chanceler ainda acrescentou ao seu esclarecimento cosmético, que a Turquia está na fila, em negociações, para adentrar a UE. Tipo assim: Em breve a UE será “uma de nós” mudando totalmente o paradigma que usava em 2004, antes de ser eleita. Foi também a entao candidata Merkel que se negava teimosamente em admitir que a Alemanha, há décadas, é um país de imigração fazendo vista grossa para uma realidade que foi ratificada pela dramática crise dos refugiados em 2015.

Recordar é viver…

Vale lembrar que desde 2004, a Turquia vem batendo na porta da UE. O ex-chanceler socialdemocrata Gerhard Schröder via com bons olhos o “Projeto Turquia”. Na época, em campanha eleitoral para as eleições federais de 2005, Merkel declarou claramente que não via a possibilidade da Turquia na UE e pleiteava para uma “Cooperação especial”, que daria ao país um status especial, o que levou a ira do então governo turco, que se negava a ser “parceiro de segunda classe”.

Os tempos mudaram

Muita água rolou debaixo da ponte do Bosphorus e do Rio Spree. Estourou a Guerra Civil na Síria, a Turquia se tornou o destino priorizado pelos Sírios que fugiam da guerra e dos bombardeiros que duram até hoje. A crise de refugiados acometeu a Europa e Merkel teve que voltar o seu olhar para o “parceiro” Turquia. Erdogan estava na situação privilegiada de colocar as cartas na mesa. Em visita Blitz à capital turca, Ancara, Merkel abriu a carteira, fez um negócio da china para que Erdogan segurasse os refugiados na Turquia e os impedisse de seguir para a Europa Central. Na sequência, o governo alemão fechou um acordo com a Turquia para a “devolver” os refugiados para seus países de origem.

Po um lado, as cenas trágicas na Ilha de Lesbos, na Grécia, com os refugiados sendo transportados de volta para a Turquia. Ou outro lado da moeda sórdida na política de refugiados é a Amnesty Internacional ter denunciado que o governo turco já havia deportado sírios de volta para seu país de origem muito antes do acordo com o governo alemão ter entrado em vigor em 04/04. Às denúncias, o governo em Berlim optou pela vista grossa. 

Na encolha, Erdogan já foi se livrando os sírios… A conta fechou para quem fez vista grossa. O número de refugiados a entrar na Alemanha diminuiu consideravelmente e as brigas homéricas da coalizão entre Merkel e Seehofer, do partido bávaro CSU, estavam num estágio de cessar-fogo.

O Absurdistão

Assim apelida a mídia alemã, o país dos absurdos. Em seu pronunciamento, depois de frases de esclarecimento puramente cosmético, Merkel ressalva a importância de instrumentos de Estado de Direito, liberdade de imprensa e liberdade artística e acrescente que “o governo alemão tem sérias preocupações em relação à Turquia” e que “esses temas serão sempre temas de conversas entre os dois países”. O Absurdistão no ápice de sua existência. Merkel explicando para o governo turco, instrumentos do Estado de Direito, dissertando sobre a importância do “Pluralismo de Opiniões“. “Por isso estamos muito preocupados com a situação de jornalistas na Turquia”, acrescentou a chanceler para constar no protocolo.

A liberdade de imprensa à la Erdogan

Os jornalistas turcos Can Dündar e Erdem Gül. Dündar é redator-chefe do jornal Cumhuriyet, oposicionista ao governo. Gül atua como correspondente em Ancara. Foi o próprio Erdogan que deu queixa à Promotoria, que pede a prisão perpétua pelas acusações de espionagem. O jornal publicou artigo baseado em documentos do Serviço Secreto Turco, o Millî İstihbarat Teşkilâtı (MIT) que planejavam o contrabando de tanques recheados de armas para a Síria e ainda descobriram que essas armas “cairiam nas mãos das milícias do Estado Islâmico“. Os dois jornalistas estão sendo julgados à portas fechadas sem a possibilidade de acompanhamento por ONGs internacionais e sem o acompanhamento da organização “Repórteres sem fronteiras“. Depois da primeira audiência, em 01 de abril, o julgamento foi adiado.

O paradoxo merkeliano

Apesar de dar o sinal verde para a Promotoria abrir inquérito contra o humorista Böhmermann, Merkel ainda na entrevista, que o artigo 103 será excluído do Código Penal. Uma comissão já está trabalhando para que isso aconteça no mais tardar em 2018. Esse passo também tem o aval do “parceiro-junior” na coalizão, o SPD. Em contra partida, os ministros socialdemocratas, Steinmeier, da pasta Relações Exteriores e Maaß, da Justiça fizeram um pronunciamento honesto e digno à imprensa, explicando a discordância com a atitude da chanceler e ainda acrescentando que na hora da votação, o peso do voto da chanceler é maior e por isso foi decidido pelo sinal verde para abertura de inquérito. Steinmeier, um homem das Artes é altamente respeitado e querido pela classe artística alemã, seja na área de cinema, música ou artes plásticas e em maio, será o patrono da exposição sobre Arte Contemporânea de Cuba, a ser realizada na cidade hanseática de Rostock (nordeste do país). A curadora da exposição é a brasileira Tereza de Arruda. 

Reação nas redes sociais

Entre posts de escárnio sobre a falta de “cojones” da chanceler frente a Erdogan, usuários exigiam a renúncia de Merkel. Outro postou: “Mielke, estará feliz da vida”, mencionando o ex-chefe da polícia secreta da Alemanha Oriental, alfinetando a chanceler pela sua proveniência.

Na primeiras horas de sábado, horário local, o humorista divulgou na sua página do Facebook que vai „dar uma parada de 3 semanas“ com seu programa de TV. „…Para que o universo midiático possa voltar a se concentrar nas coisas que realmente importam, como a crise dos refugiados, vídeos de gatos ou a vida amorosa” de estrelinhas categoria C e D. Existem temas bem mais importantes do que a discussão sobre o recitar de um poema vinculado no programa humorístico.

Apoio tardio

Só depois do pronunciamento da chanceler que a diretoria da emissor ar ZDF decidiu sair do armário e declarar apoio total ao humorista: „Vamos percorrer com Böhmermann todas as instâncias (jurídicas)“ declarou Thomas Bellut, chefe da emissora depois de sofrer severas críticas do jornal Süddeutsche Zeitung, um dos mais respeitados do país.

Paradoxos

Enquanto aliados e membros do governo do CDU, partido de Merkel não perdem tempo em louvar a postura da chanceler, Beatrix von Storch , membro do partido populista de direita, AfD no parlamento europeu, saiu do armário em defesa da liberdade de imprensa e artística. Em seu Post no FB, o humorista alfinetou: „Se até a Beatrix saiu em defesa da liberdade da sátira, quem então sobra para eu zoar?

O „Caso Böhmermann “ mostra exibe claramente duas pilastras muito relevantes: a primeira: a histeria midiática e a capitulação de uma chanceler que acaba de colocar no papel um projeto de lei de integração, tido por analistas políticos como „o último ato da coligação“ antes da campanha eleitoral começar para as eleições federais em setembro de 2017. Até lá, a „questão dos refugiados“ tem ser assunto resolvido e para isso, Merkel precisa da Turquia. A única alternativa vista pela chanceler foi a capitulação frente ao déspota Erdogan, o garoto probe da Anatolia se que se transformou num sultão, num déspota que bombardeia os curdos no leste da Turquia, transfere promotores e desembargadores para os confins do país por cometerem “ofensa à majestade” quando esses se mostram críticos à política do governo. Esse é o cara do momento na UE, o responsável por manter os refugiados longe da nossa vista periférica. Os fins justificam os meios, premissa já pregada pelo ex-chanceler Helmut Kohl (1982-1998,) mentor da “menina do leste”.

Merkel teve a melhor escola possível quando se trata de mecanismos sejam eles os mais questionáveis possíveis e que tem um só objetivo: se manter no poder. O que fica transparentemente claro é que, o acordo firmado com a Turquia no âmbito político, bem antes do programa do humorista ser vinculado, foi o que possibilitou a chanceler se tornar vulnerável ao suborno que acabou acontecendo. Böhmermann é um dos humoristas que mais testa os limites da auto-censura e dos limites que, em termos artisticos na Alemanha, são bem confortáveis.

O caso que abalou o universo midiático brasileiro devido ao comentário do humorista Rafinha Bastos se referindo à então gravidez da cantora Wanessa, não teria se tornado nem um tópico no Twitter, quanto mais ter o desmembramento que teve em solos brasileiros. 

Na edição de domingo (17) da revista Der Spiegel, o humorista Böhmermann foi homenageado na capa, com a escrita: “Malvado, malvado Böhmmermann“.

Atualização 17/04:

Em Enquete requerida pelo ARD, conglomerado de emissoras de rádio de TV ao Instituto Infratest e primeiramente vinculada na noite de domingo (17), 2/3 dos alemães declararam errada a decisão da chanceler Merkel em dar sinal verde para abertura de inquérito contra o humorista. 65% se declararam contra e 28% a favor da postura da chanceler. Analistas políticos acreditam que isso terá uma influência, direta no percentual de popularidade da chanceler. 

O jornal berlinenses Der Tagesspiegel (espelho do dia) foi, partindo da premissa que ” a internet nunca esquece” saiu em busca do vídeo do programa e o encontrou, na íntegra, disponível no Rutube, o YouTube da Rússia.

Veja aqui:

http://rutube.ru/video/37fb323bb9094b2cf08d829194f8ba42/?bmstart=11