Berlinale: cerimônia de entrega de prêmios com um adorável finlandês quebrando protocolos

Berlinale: cerimônia de entrega de prêmios com um adorável finlandês quebrando protocolos

Fátima Lacerda

19 Fevereiro 2017 | 09h33

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Provavelmente de cunho estratégico foi o assento planejado para o diretor finlandês, Aki Kaurismäki, irmão de Mika, um apaixonado pelo Brasil e que também defende a tese que é impossível viver na Finlândia, ou na melhor das hipóteses, um ato masoquista.

Atrás da fila número 9 dos assentos do Berlinale Palast, cinema principal do festival e local de homenagens e premiações, há um vão largo além de ser bem perto da porta de saída.

Kaurismäkis...

Havia muita especulação e muita torcida para que a obra prima “O outro lado da esperança” (em alemão, a tradução foi para “No fim da esperança”, o que acho bem mais procedente para o enredo do filme). Há quem não acredita, mas esse filme foi a estreia de Kaurismäki, Aki, na mostra competitiva na corrida pelos cobiçados Ursos. Quem já teve com um não mão sabe a a delícia sensorial e intelectual que isso significa. Poder levá-lo pra casa, como fez a nossa grande dama do teatro brasileiro e atriz brilhante, Fernanda Montenegro e poder vislumbrá-lo todos os dias, não há nada igual para quem é obcecado pela Sétima Arte e isso, Kaurismäki já provou várias vezes.

Outro candidato bem cotado para levar o Urso era “Una mujer fantástica”, dirigido por Sebastian Leilo, um dos mais instigantes diretores da nova geração do cinema latino-americano. Ele acabou sendo premiado com o Urso de Prata pelo melhor roteiro que escreveu juntamente com Gonzalo Maza.

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Para o, ao mesmo tempo simpático e sempre comedido para Sebastian, é a segunda viagem à mostra competitiva. Em 2013, ele teve com seu filme “Gloria”, a consagração da atriz chilena Paulínia Garcia, que levou para o Chile o Urso de Prata. Pouco antes do início da cerimônia, fui até o lugar de Sebastian e indagar sobre a sua expectativa. Sua resposta nao poderia ser mais autêntica.

Cumplicidade na dor

Kaurismäki fez um um filme ácido referente ao Zeitgeist e cheio de poesia silenciosa, mas acima de tudo: fez um filme de louvou algo que em períodos de Trump, Putin, Erdogan, momentos temerosos de terror e populismo de direita na Europa parecia, definitivamente, perdido: a humanidade.

A história de 5 biografias de caminhos tortuosos e fora de toda a nós imposta “normalidade” do politicamente correto se encontra num espaço físico pequeno, mas que se mostra metáfora para tudo o que acontece no mundo externo. Na parede pintada de azul, um retrato com Jimmi Hendrix em olhar sensual e ao lado da mesa que serve para todos os momentos de melancolia, uma music box. A música não é um acompanhante nos filmes dos Kaurismäki, mas uma protagonistas e fica também por aí a única similaridade entre os irmãos Aki e Mika.

Na sessão em que fui assistir ao filme, o destino, desses que só se desnudam durante o período mágico da Berlinale: O assento do meu lado direito estava vazio. Com o cinema Friedrichstadtpalast, que na realidade é um teatro de revistas já estava quase todo completo, ela partiu para as fileiras de baixo. Uma das compensações de levantar bem cedo e ir ao cinema é o papo que quase sempre acontece entre “cúmplices”. De onde você é, perguntei: “Da terra do Trump, infelizmente”, respondeu ela. E você? “Do Brasil”. “Ah, então você fala português!” e a conversa foi desenrolando e me impressionei com o português quase sem sotaque e o conhecimento que ela tem em todos os âmbitos sobre o Brasil. Atrás de mim dois finlandeses músicos. Eu, Vivien e os dois finlandeses rimos, gargalhamos até às lágrimas com um filme de tal poesia e de total aversão ao politicamente correto e aos anseios de um final feliz.

O Plot

Um refugiado de Alepo, depois de passar pela Turquia e pela Grécia, vai como “peso morto” num navio de carga do qual o destino é a Finlândia. O acaso. Um dos instrumentos mais preferidos de Kaurismäki.

Ao chegar no país gélido quase todo o ano, os conflitos estão programados. Já estão esperando por ele. Mas Aki não seria Aki se não tivesse na cartola momentos de uma insustentável leveza do ser humano, como quando o refugiado Kaled, pergunta ao músico de rua onde fica o chuveiro público. Simpático, o músico responde e vai nos presenteando com a musicalidade, fator libertador, transgressor no maravilhoso universo kaurismäkiano.

O protagonista Wikström, vivido por Malla Hukkanen é um cara que acaba de começar uma nova vida, depois de deixar a esposa sentada na cozinha com bobes na cabeça, um copo de Vodca na mesa e um cinzeiro abarrotado de guimbas de cigarro.

A propósito… cigarros

Em todas as mostras dos filmes da Berlinale o cigarro é um dos protagonistas, uma metáfora ou substituto para a falta de diálogo, de perspectiva, do que fazer e até mesmo de um Plano B para como sair da letargia na qual a vida se tornou. O filme “Belinda”, exibido na mostra paralela Panorama mostrava um protagonista fumando tal quantidade de cigarro, feito ainda da forma artesanal como o (ainda) fazem os franceses, enrolando o tabaco na folha do cigarro, que gerou preocupação com sua saúde depois das filmagens.

Começar de novo

Não somente Wikström quer começar de novo. Em contraponto à sua esposa largada na cozinha e que depois de sua saída, enterra a aliança no mar de guimba de cigarro, ele encontra uma mulher finlandesa sessentona, mais estilosa, mas não menos amarga por tantos anos de “paz e tranquilidade” em solos finlandeses. Sentados na cozinha e bebendo um espresso, mas nao sem que Kaurismäki, obcecado por detalhes, nos deixe ver que a marca da máquina de café se chama “Porto”, Wikström, com um olhar de quem já está tempos demais na secura, ele olha pra ela, na esperança de se livrar do negócio com roupas e realizar seu sonho de comandar um restaurante, e arrisca na oferta: “A Sr. pode assumir o meu negócio”. Sem qualquer sinal de expressão no rosto, mas com voz gélida e um olhar não menos frio, ela recruta: “Depois de tantos anos de paz e tranquilidade, eu vou pro México e só quero dançar Hula Hula”. Nessa hora, o mais travado os alemães não contém o regozijo. Os finlandeses atrás de mim arriscam gargalhadas contidas.

Com uma única frase, Kaurismäki nos permite um olhar profundo no abismo do universo emocional de caráter vegetativo em que viveu aquela mulher uma vida, da qual o único sonho é ir para o México e só dançar Hula Hula.

Em minha estada em Barcelona, de férias no início do ano, decidi alugar uma bicicleta para passear ao longo da orla marítima. Em pleno início de janeiro e sem ter que ter receio de ser esfaqueada unicamente por uma bicicleta.

Entrei na loja e deparei com um loiro, bonitão e simpático e com todo o estilo viking. Sami, muito simpático e solícito me perguntou de onde eu venho e aquelas conversas. Quando ele me disse que era finlandês, lá fui eu com a minha pergunta que herdei da dialética alemã: “O que faz um finlandês parar em Barcelona?”. O contra-ataque dele foi: “Como pode um finlandês aguentar viver na Finlândia”. Pergunta respondida. Cheque-Mate. Pra Samir.

Se bem me recordo, uma das cenas iniciais de “Brasileirinho! (2005) filme do irmão, Mika, é um cara andando por debaixo de uma tempestade de neve tendo debaixo do braço, um disco de Bossa Nova. Finlândia, o país escondido pelo frio e pela neve e todos os desdobramentos disso em todos os âmbitos da vida humana.

No filme de Aki, o restaurante que, primeiramente leva o nome de “O caneco de ouro” (só de ouvir esse nome já da sede, garante o intermediador na hora da venda do negócio). Como os resultados não se mostram “satisfatórios”, o local muda para “Imperial Sushi”, a hora de Aki, com humor ácido, acertar as contas com o grupo de japoneses que fecham pacote “Europa inteira em 5 dias”. Os funcionários vestidos à caráter e a zoeira do diretor com os clises que nós mesmos acabamos produzindo e exigindo, é um deleite cinematográfico cultural de primeira linha.

Na sequência, o local passa oferecer cozinha indiana e ganha, surpreendentemente, o nome de “Ghandi”. Kaurismäki zoa com as culturas, com o sofrimento transformado em superação ou necessidade de transcender o “inverno infinito” como a mulher que vai dançar Hula-hula.

No final, Kaurismäki nos presenteia com um final feliz comedido, silencioso, e como não poderia ser diferente, recheado de (auto) ironia e poesia. Também a sua atitude ao ser premiado com o Urso de Prata para a melhor direcao, ele, quebrando todos os protocolos, se levanta do assento, se vira para diversos lados da plateia, bota as duas maos ao redor da boca como se as quisesse transformar em um mega-fone, mas nao vai ao palco. Dieter Kosslick, diretor do festival vai até ele, assim como a apresentadora da noite. Como ningúem sabia qual seria sua próxima atitute, já que ele nao estabelecia contato visual com ningúem ao redor e já quer se sentar, Dieter avisa em seu inglês rudimentar: “Aki, the bear. Aki, the bear!”. Ele se vira, pega o Urso e tenta colocar no bolso do paletó. Com esse de mostra pequeno demais, Dieter ajuda no empreendimento, mas Aki é ainda mais rápido, tira o Urso e o usa como microfone. No primeiro momento nao se sabe que é pra cantar, mas logo entendemos que é para agradecer. Anne, a apresentadora diz: “Pera ai!” e depois suaviza o tom e pergunta com formalidade: “Você quer falar alguma coisa?” enquanto oferece o microfone preto com o Design da Berlinale. Ele, ainda ignorando tudo e todos, usa o Urso como microfone (mas agora sendo ouvido por todos gracas à atenã de Anne em posicionar o microfone ao lado do Urso) e diz: “Senhoras e Senhores. Muito obrigada”. Voltando ao palco ela, em tom irônico, mandou: “Se o diretor não vai ao Urso, o Urso vai ao diretor”, arrancando risos da platéia. Enquanto isso, Kaurismäki se “livra” do Urso como se fosse uma batata quente e passa para os seus protagonistas, sentados logo ali ao lado.

A fração rasa da imprensa alemã justifica o Urso de Prata para o finlandês como “um incentivo para ele continuar a fazer filmes”, como se a Berlinale fosse uma instituição de incentivo cultural para quem se desviou do caminho. Quatsch! (Bobagem). O premio de melhor direc é mais do que merecido. A meticulosidade e matematicidade da direção, mesmo quando as cenas parecem improvisadas faz esse filme merecedor do premio.

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Em termos técnicos, porém, o chileno “Una mujer fantástica” está bem perto da perfeição. Já no assento do Berlinale Palast, indaguei o diretor Sebastian Leilo: “Como se sentes?”. “Vivo”, disse ele. Sebastian levou o Urso pelo melhor roteiro. Ao agradecer, chamou Daniela Vega ao palco: “Esse filme gira em torno dela”.

O júri internacional, um dos mais fracos dos últimos anos (que saudade do Costa Gravas e do Mike Leigh e da Meryl Streep!) se decidiu pelo filme húngaro “Corpo e Alma”.