A guinada no curso dos social-democratas (SPD) e o ápice da crise de identidade do partido

A guinada no curso dos social-democratas (SPD) e o ápice da crise de identidade do partido

Fátima Lacerda

22 Janeiro 2018 | 15h22

 ©AFP

Martin Schulz, chefe dos social-democratas, e um dos políticos com menor índice de aceitação e popularidade na Alemanha. Junto com Angela Merkel ele incorpora o Status Quo, a falta de coragem para mudanças, o lema “em time que esta ganhando não se mexe”.

A politica tem muito mais paralelidades com o futebol, do quemos puritanos intelectuais possam imaginar. Por que as sondagens “Jamaica” fracassaram e para evitar novas eleições Martin Schulz, como um marinheiro que precisa evitar a tempestade em alto-mar, precisa dar uma guinada em seu curso. Um governo de minoria era o que Merkel queria evitar de toda a forma. Nesse formato ela teria que sair de sua postura de matrona e mandona e sair colhendo apoio das diferentes bancadas para cada projeto de lei ou aprovação que necessitasse. Merkel nunca foi muito democrática, mesmo quando ela finge ser. E por essa guinada de curso que críticos de Schulz, especialmente dentro do próprio partido, o acusam de ser “salva-vidas” de Merkel. Outros o chamam de “provedor de maioria” para a chanceler. No caso atual, sem o SPD no barco, Merkel teria que formar um “governo de minoria” ou mexer os pauzinhos para novas eleicoes, para as quais há, por razoes históricas, obstáculos altos até que o presidente possa e queira convocá-las.

Partido rachado

Em poucas vezes de sua historia centenária o SPD esteve tão rachado internamente. Para se assegurar de um mínimo de respaldo, Schulz deixou na mão dos delegados em âmbito federal para darem o sinal verde, ou não, para o inicio de “negociações”, depois do primeiro passo, as sondagens.

Durante muitos dias, Schulz passou marcando presença em todas as estações de TV e era só elogios para o famigerado documento:”Esse documento foi feito por mim“. O que não faz um politico quando está contra a parede? Ele transcende da realidade e cria a sua própria história, como a personagem da literatura infantil Pipi Meia Longa, da escritora Astrid Landgren. Seu lema:”Eu desenho o mundo da forma que me agrada”.

©DPA/Monika Skolimowska

Um olhar mais atento ao documento resultante das sondagens com a União (CDU & CSU) pode-se constatar quem implementou sua assinatura, sua linha politica no documento. Nao foi Merkel e muito menos Schulz, mas o garoto do CSU, partido da Baviera.

O politico atende pelo nome de Alexander Dobrindt, foi o pior Ministro de Transportes da história do país e não esconde suas intenções em se tornar chefe do partido depois da saída do atual no cargo, há sentidos 100 anos. Horst Seehofer não consegue largar o osso e Dobrindt está na fila para se candidatar.

O CSU precisa, sempre, de um pau mandado em Berlim para legitimação em âmbito regional, para somar pontos na base do partido para enfrentar as eleições em 14 de outubro de 2018.

Capítulo “Sondagens”

Depois do resultado apertado dos delegados do partido na noite de domingo, Schulz foi salvo por um triz e já avisa que “as negoçiaçoes serão duras” para angariar moral dentro de um partido em plena crise de identidade e que está sendo, em sua recente historia, mais uma vez freado por motivos da famigerada Realpolitik, o que no jargão em português seria o toma lá da cá.

Schulz fracassou em se emancipar de Merkel no ápice do visível desgaste do relacionamento entre os dois partidos. A fatura durante a “Grande Coalizão” que durou ate setembro de 2017, não gerou aos social-democratas um aumento de simpatia em forma de intenção de votos. Apesar de medidas como a implementação do salario mínimo e outras importantes medidas, foi Merkel que angariou pontos de simpatia dos eleitores.

Quem votou em 24/09 votou contra a “Grande Coalizão” e Schulz se viu frente ao pior impasse de sua carreira politica. Enquanto isso, algo ainda mais inusitado se mostra na constelação politica na Alemanha. Mesmo sem governo empossado e governo em formato de comissariado, o Parlamento Alemão esta em pleno funcionamento. Nele o SPD faz parte da oposição. Fora das paredes altas e austeras do parlamento, os dois partidos tentam um Vale A Pena Ver De Novo em detrimento da democracia e a força e relevância da Câmara Baixa, o Reichstag, num sistema de democracia parlamentar.

A situação entre Schulz e Merkel e parecida quando o casal já esta prestes a marcar a audiência de divórcio com bens já partilhados e a massa falida do relacionamento desgastado em cima da mesa e acontece algo que obriga a ativar o freio de mao numa rua sem saída.

A única coisa positiva no caroco desse angu politico e que, ao contrário do CDU, os social-democratas a discussão, o debate acalorado, controverso, apaixonado e o melhor adubo para a democracia. O intenso debate se deve a um jovem chamado Kevin Kuehnert, eleito no final do ano passado, chefe dos “Socialistas Jovens”, (Jusos, na abreviação) setor que existe em todos os partidos da Alemanha para formar as novas gerações de políticos. Em tom de coerência, paixão e uma retórica brilhante ao mesmo tempo que realista, ele pleiteou durante semanas para um Nein da “Grande Coalizão” simbolizado pelo Slogan e #Hashtag #NoGroko.

©SPD

Na convenção extraordinária do partido na cidade de Bonn, a beira do Rio Reno, Kevin, o Shooting Star do SPD, fez um discurso de 12 minutos, infinitamente mais consistente do que Schulz que teve 58 minutos para seu habitual choramingar de injustiçado, mal entendido, vilipendiado. É preciso muita paciência e ouvidos muito disciplinados para ouvir discursos do chefe do SPD e assistir a sua penúria, ele que nunca deveria ter deixado suas funções no Parlamento Europeu em Bruxelas.

Os 600 delegados deram o sinal verde para o início das negociacoes, mas numa percentagem (44% contra e 56% a favor) resultado que implica um dever de casa, uma incumbência de negociar duramente para inserir itens que ratificam o perfil programático dos social-democratas. Entre eles, a melhoria da situação de quem tem plano de saúde público, uma realidade que atinge 90% dos alemães e o item que irá dificultar a prática de fazer contratos de trabalho com limitação temporária sem motivo consistente para isso.

Do outro lado do front, políticos da União garantem que “não há nada mais para negociar” e falam em “aprofundamento” de itens já estipulados, mas excluem a possibilidade de “reabrir a panela de pressão”.

Próximos capítulos

Logo depois de divulgada a aprovação dos delegados do SPD, a chanceler Merkel fez um pronunciamento, avisando que a União estaria reunida esta segunda-feira (22) para delinear os itens das sondagens, sem entrar em detalhes sobre o que e negociável e o item que sublinhado por “uma linha vermelha”, que significa condição sine qua non . Caso as negociações fracassem, decerto, a cabeça de Schulz irá olar.

Mesmo que uma “Grande Coligação” seja formada por volta do fim do mês 03, Schulz terá sempre a fama ingrata de ter sido aquele que auxiliou Merkel para poder continuar mais quatro anos no poder. É como aquela mancha de lama que você não consegue tirar da sola do sapato.

Os programas de sátira política estão em regojizo, tal é o número de motivos para zoar com a classe política.

Numa paródia ao fracasso das sondagens para o governo com a coligação “Jamaica”, concernente a um pronunciamento do chefe do partido liberal, Christian Lindner, que, ao justificar a sua saída repentina já no final da noite, declarou: “É melhor não governar, do que governar mal“.

O programa EXTRA3 adaptou essa “filosofia” para o SPD: “É melhor governar mal do que não governar”, criticando o “Sim” o próximo passo, as negociações, fato que, ao pé da letra, é até injusto já que o SPD entrou nessa de gaiato no navio, devido à pressão da opinião pública, da mídia e do atual presidente, que tenta de um tudo para evitar a convocação de novas eleições.