Comeback: A-ha faz show eletrizante na Arena Mercedes Benz

Fátima Lacerda

14 Abril 2016 | 09h06

Para o público berlinense foram 7 longos anos de espera para a volta dos garotos da Noruega. Mesmo já tendo passado da faixa dos 50, o trio liderado por Morten Harket continua com tudo em cima além de continuar sendo o trio que compos a trilha sonora de uma fase importantíssima das nossas vidas: aquelas que a gente que conquistar o mundo, viajar para a Escandinávia e mergulhar na natureza estonteante e cheia de mistérios daquele país.

A Arena Mercedes Benz, um mega local para todo o tipo de mega-entretenimento, ao contrário da Arena HSBC na Barra da Tijuca, RJ, é, nas maioria dos shows, um lugar frio, mas não na noite de quarta-feira (14,) com o retorno da banda norueguesa à capital cultural da Europa. Decerto que a conexão do A-ha com Berlim nem chega perto da que a banda tem a cidade maravilhosa. É até covardia comparar.

Foi em solos cariocas, na segunda edição do Rock in Rio, em 1991, em plena Guerra do Golfo, que o Trio composto por Morten Harket (Voz), Magne Furuholmen (Teclados) e Pål Waaktaar-Savoy (Gitarra) levou 198.000 pessoas naquela noite no Maracanã, garantindo serem eternizados no Livro Guiness de Recordes. Morten confessa que aquela apresentação no Rio, naquelas proporçoes, desencadeou uma nova dimensão da carreira do grupo. Já o tecladista Magne, muitos anos depois, confessou em entrevista a Rede Globo, que precisou de 20 anos para entender o que, naquela noite aconteceu.

Rock in Rio II no Maracanã

A minha vida de imigrante só me permitiu assistir ao show do Prince, perdendo o show do George Michael e da banda que tornou incontrolável a minha vontade de sair do Brasil para conhecer o mundo. A-ha. E sempre bom estar atento ao que o irmão ouve. Foi o Paulinho que me apresentou a banda através do vídeo “Take on me” e aquilo mudou tudo. A perfeição musical e a pecepção do mundo.

A passagem de avião de volta para Berlim estava marcada. Não havia como adiar já que a Guerra do Golfo espalhava o pânico em ter que trocar de avião em Londres. Meu coração voltou partido para Berlim enquanto naquele domingo, 20/01 o Guns ‘n Roses arrebatava o Maraca e 6 dias depois, o estádio, mais uma vez entre tantas outras anteriormente, seria palco de um momento histórico.

Muitos anos depois…

O show de 2009, na época chamada Arena 02 era para ser a despedida de Berlim. A-ha iria se aposentar e “se ocupar de outros projetos”. O peso da venda de 80 milhões de discos, a visibilidade midiática, o provavelmente dinheiro minguando e provavelmente além de ser muito mais legal varar o mundo do que segurar o inverno norueguês, o trio trilhou o Comeback aos palcos do mundo. Em abril de 2015 convocou uma coletiva de imprensa que aconteceu em Berlim, na própria Arena onde, um ano depois eles tocariam. Para que os itens marqueteiros ficassem completos, a banda anunciou um disco, o “Cast Steel“, que foi lançado em setembro de 2015 e aniquilado pela crítica e pelo público. E daí? Sem perder tempo, A-ha já fez show no início de outubro em Recife. O amor aos brasileiros se mostra incondicional. Enquanto os berlinenses amarguravam na secura musical, os cariocas tinham o trio de volta em mais um Rock in Rio, o de 2015.

http://g1.globocéfalo/musica/rock-in-rio/2015/noticia/2014/12/-ha-toca-no-rock-rio-em-2015-24-anos-depois-de-recorde-no-maracana.html

Em Berlim…

A Arena Mercedes Benz não é um dos lugares mais legais para o clima eferverscente que todo show musical deveria ter. Porém na noite de quarta-feira, o clima ele de eletricidade era palpável no ar. A banda alemã “Stanfour” teve o dever de esquentar a plateia. As influências do grupo norueguês iam da musicalidade, do visual dos músicos e suas indumentárias. “Quando Take on Me foi lançada, eu tinha somente 9 anos, mas essa música marcou muito a minha vida. Há 7 anos atrás, também fomos a banda de abertura para o A-ha em Berlim e aquele foi um arranco no nosso caminho“, disse o vocalista do “Standfour“.

Pra começar teve “I’ve been losing you”. Depois “Crywolf” com uma arrojada projeção de imagens nos 3 telões posicionados como telas no final do palco e prateados lobos selvagens correndo pela tela. Todo o cenário e até mesmo o guarda roupa de Morten, que apesar de cinquentão (vamos combinar) continua irresistível, é igual a usada pela banda no show do Recife. O que não fica claro é se o Frontman da banda usou a jaqueta de couro preta com a qual ele entrou no palco da Arena em Berlim. Devido à calorama que rege no nordeste do Brasil, isso é infactível, mas a calça jeans contendo rasgos na altura da coxa direita e esquerda, ele exibiu nos dois shows. 

Em 7 anos de abstinência de palcos berlinenses, a voz de Morten não perdeu em absolutamente nada nos quesitos, clareza, postura, sensualidade, poesia. tudo em cima! Porém, como o programa de Fitness praticado por Mick Jagger, líder da melhor banda do mundo, não é pra qualquer um, no final do show que durou 2 horas, Morten já exibia sinais de cansaço e quase não se locomovia no palco. Tudo bem que ninguém espera a “maratona mickjaggeriana” de dinâmica e velocidade estonteante, mas um pouquinho de movimento, até mesmo pelo aspecto cênico, se fazia necessário.

A síndrome dos Hits

Simply Red já fez. A americana Laurin Hill é mestra nisso: na arte de arranjar de forma diferente as músicas retirando delas a linha de potencial reconhecimento. A-ha, que teve seu nome CD rejeitado por público e crítica, não resistiu a prática de desestruturar a memória musical. Fez isso com “I’ve been losing you” e “Sycamore Leaves“. Os fortes beats no início de “Sycamore”, decisivos para o arquivo musical cravado dentro dos nossos ouvidos, não apareceram. O trio não foi tão ousado em mexer em “Hunting High and Low“, que levou os berlinenses a loucura. (Veja no link abaixo).

Um final de mentirinha

Para aumentar o suspense, o grupo se despediu da primeira vez sem nem ter tocado “Hunting High and Low” e muito menos o hit dos hits “Take on me.” A segunda volta ao palco foi para legitimar a execução da terceira música do novo disco. Como diz o Mestre Lenine: “Se pediu aguenta“. Pedimos pra voltarem, o preço é ter que ouvir mais uma do novo álbum. Depois veio “Hunting” que foi orquestrado com o público por Morten, que até então havia entregue o comando da noite e direção da plateia para o seu tecladista. Magne Furuholmen conduziu a plateia para acender as luzes do celular: “Estamos fazendo um filme. Se vocês puderem nos ajudar, será muito legal”. E foi! A Arena toda iluminada por minúsculas luzes de celular. No palco, a música carro-chefe e homônima do novo álbum “Cast Steel“.Que original!

https://www.youtube.com/watch?v=5MCKhFt45ng

Depois venho mais uma “orientação” para as filmagens. Agora com “The Living Daylights“, do filme do agente secreto James Bond em 1987.

https://www.youtube.com/watch?v=DfFbiFoAWjM

Nenhum dos mais pessimistas dos berlinenses pensaria que na metade de abril, a primavera ainda não teria dado as caras e iríamos para o show do A-ha com casacos grossos e capas de chuva. Como ratifica um ditado popular: “A vida não é um show que você escolhe”. Pois é. Não escolhemos o frio, que ainda persiste na capital, mas escolhemos, sim, o show A-ha, que eletrizou, emocionou e melhor do que tudo isso: matou as saudades dos berlinenses, loucos para ouvir a trilha sonora de alguma fase decisiva de suas vidas. Que não sejam necessários mais 7 anos de espera até os garotos da Noruégua voltarem à capital.

https://www.youtube.com/watch?v=puC9PFxj7co

https://www.youtube.com/watch?v=o_pQtaG0aNg

Links relacionados:

Artigo de minha autoria sobre o show, no portal Inberlin.