A jogada sórdida de Angela Merkel, a falta de um Plano B e a vitória dos conservadores de direita

A jogada sórdida de Angela Merkel, a falta de um Plano B e a vitória dos conservadores de direita

Fátima Lacerda

11 Outubro 2017 | 08h34

O resultado das últimas eleições (24/09) mostra que Merkel obteve de eleitoras e eleitores a incumbência de formar o novo governo. Essa incumbência é, matematicamente, clara. A fração do partido de Merkel, o CDU, conseguiu se manter como a maior bancada na câmara baixa do parlamento, o Bundestag. Esse resultado matemático não exibe a mensagem política dos eleitores, esgotados depois de 4 anos de “Grande Coligação” com os social-democratas do SPD.

Para aqueles que gostam de fazer vista grossa, de empurrar problemas com a barriga ou empurrá-los para debaixo do tapete, continuam achando Merkel imbatível.

Supermercado de alianças 


Com as redias nas mãos, por saber que ninguém pode formar um novo governo sem o CDU, melhor, sem a União (composta dos partidos CDU e CSU da Baviera) Merkel, no ultimo domingo (08) deu inicio à uma indigna “Dança dos Mortos” Tudo o que Merkel faz e deixa de fazer é, sempre, para assegurar sua permanência no cargo.

“Carne morta”

Na linguagem corporativa na Alemanha, quando alguém está prestes à ser “desovado”, a palavra-chave que sela o destino é “Carne morta” (“Totes Fleisch“, em alemão).

O auto-denominado “Rei da Baviera”, Horst Seehofer perdeu, amargamente, em percentual nas últimas eleições e, tudo indica, que está com dias contados.. Aquele que, assim como Merkel, parecia intocável, inatacável, está sofrendo imensa pressão interna no seu partido. Nem mesmo a habitual arrogância do bávaro resistiu à sua apatia, clara e nua, depois da derrota das eleições federais.

Em setembro de 2018 haverá eleições no âmbito regional da Baviera. Seehofer está com a corda no pescoço. Precisa temer seu potencial de influência em solos bávaros como também no âmbito federal, como parceiro do CDU, formando a União.

Seehofer é um tipo de uma mala sem alça sem precedentes na política alemã. O compromisso, baseado em razões históricas que Merkel tem com o partido-irmão bávaro não é recíproco pela parte de Seehofer. Incontáveis vezes que ele constrangiu a chanceler perante à mídia, ameaçou dando ultimatos de “desfazer a coligação” se Merkel não implementasse uma cota numérica concernente à política de imigração. Durante dois anos, a chanceler, seguindo fiel ao seu estilo, fez vista grossa aos diversos apelos de Seehofer. Mas depois das últimas eleições, nada será como antes. O carrossel partidário roda de forma insana e a perda vertiginosa dos partidos estabelecidos para os partidos populistas de extrema-direita, faz necessários que a nova mistura das cartas e, desta vez (sem nenhuma ironia na liguagem do carteado),que vai dar o morto é a própria chanceler.

Uma mão lava a outra

Seehofer precisa do apoio de Merkel concernente às eleições regionais de 2018. Precisa reafirmar ao seu eleitorado católico conservador que ainda é “o nosso cara em Berlim”. Merkel, por sua vez, precisa literalmente da União para poder iniciar as sondagens com os Verdes e os Liberais para formar a “Coalizão Jamaica” (assim denominada pelas cores dos partidos formarem as mesmas da ilha caribenha).

Como exímia estrategista, Merkel se sentou com Seehofer primeiro, a fim de alcançar um denominador comum antes das sondagens com outros partidos.

Obergrenze – cota máxima

Essa palavra, Obergrenze virou um Mantra na carreira de Seehofer e um símbolo para sua teimosia. Assim como ele não sossegou enquanto não fez do sistema de vinhetas nas rodovias alemaes que exige que carros estrangeiros paguem pedágio, desde 2015 ele nao arredou o pé daquilo que parece ser a última boia de um afogado no oceano.

No último domingo, à portas fechadas a União (CDU e CSU) fecharam o pacto que Seehofer tanto anseava. 200.000 refugiados poderão entrar na Alemanha, assim o comunicado. Porém é preciso olhar as notas de fim de página. Para manter sua cara de chanceler liberal, Merkel avisou que esse contingente não interfere no direito estipulado pela Convenção de Genebra, ou seja, todo pedido de asilo político precisa ser analisado. “Direitos fundamentais, não tem teto“, declarou Merkel para não ficar ruim na foto na UE, que viu com bom olhos o “acordo”.

O número fictício de 200.00

Deixando uma porta aberta para “situações imprevisíveis”, Merkel alegou que esse número (estipulado e teimado por Seehofer) pode sofrer alterações “por causa de acontecimentos nacionais e internacionais”, o que significa guerras e o movimento migratório resultante dela. Nesse item vê-se bem os furos que tem esse pseudo-acordo, que nada mais é uma estratégia de Merkel para ganhar tempo, formar o novo governo e se manter no poder. Que a harmonia exibida frente às câmeras de TV na segunda-feira (09) é temporária, todos sabem. Seehofer é um neurastênico, um político com crônica Paúra da perda de influência. E agora ainda o seu “Príncipe consorte”, Markus Söder, organizando o motim interno para desbancar Seehofer e assumir o cargo em 2018.

Texto claro

Essa porta dos fundos deixada aberta por Merkel é contraditória em sua essência. 

Em seu discurso eleitoral, Merkel afirmava de pé junto: “A crise, o êxodo migratório como em 2015 não poderá se repetir”. A chanceler sabe muito bem que isso é imprevisível, assim como a Guerra da Síria está longe de acabar. Também em seu discurso antes das eleições, Merkel prometeu tornar “prioridade” ajudar (com devisas) no combate a fatores que causam a fuga dos respectivos países. Em 2017 Merkel intensivou a parceria com estados africanos, não importando se eles provem de estados democráticos ou não. O maior exemplo da estratégia de Merkel para diminuir, de forma radical, o número de refugiados é o pérfido acordo da UE (meticulosamente tecido por Merkel) com a Turquia, país que ainda mantém atrás das grades, ativistas e jornalistas de nacionalidade alemã, sem uma acusação formal da Promotoria e, em sua esmagadora maioria, sem julgamento.

©DPA

A teimosia bávara venceu

Entre os pontos que deixaram Seehofer feliz da vida foi a aceleração do procedimento de deportação para pedidos de asilo negados, ou seja, cenas dramáticas de crianças e jovens sendo retirados das salas de aula da escola de alemão continuarão no roteiro de uma política de imigração errônea e na dialética do cobertor de pobre. Tudo isso para garantir Merkel e Seehofer mais tempo no poder, em detrimento da imagem da classe política e de uma cultura de debate controverso na sociedade.

O acordo entrer Merkel e Seehofer não inclue a chamada “Migração regrada” e mão de obra qualificada, especialmente para os setores de economia e saúde. O adiantado envelhecimento exibido na Pirâmide etária da população alemã mostra bem a falta de mão de obra, especialmente no setor de acompanhamento de idosos.

Com um acordo que exibe números, mas sem compromisso com eles e deixando uma porta dos fundos aberta, Merkel não presta serviço nenhum ao seu país. Ao contrário, capitula frente as forças populistas de direita e extrema direita, mostra seu desespero assim como a falta de um Plano B dos partidos estabelecidos de todas as ideologias, de como lidar com a tendência que vem se alastrando pela Alemanha.