A Política Ziguezague de Merkel, a vista grossa da UE e a “metrópole” Hannover

Fátima Lacerda

26 Abril 2016 | 02h18

Num passado não muito remoto, a Turquia vivia mendigando nas portas da UE. O ex-presidente Christian Wulff, um protege de Merkel que precisava dele como um pau mandado, algo que sempre foi na sua carreira anterior de político da região da Baixa Saxônia, da qual a capital é Hanover, cidade essa que sedia a Hannover Messe aberta para o público na segunda-feira (25) e onde o presidente americano se encontra numa “viagem de trabalho”.

Por partes

Em sua biografia, o atual presidente Barack Obama poderá afirmar que conheceu a cidade mais monótona de toda a Alemanha e ela se chama Hannover. Em reportagem vinculada na ARD, conglomerado de emissoras de rádio e TV, a âncora perguntou o que os hanoveranos estariam achando de “visita tão ilustre”: “Provavelmente eles se perguntam porque Obama escolheu justo essa cidade!”, respondeu o jornalista. Essa declaração disse tudo: Hannover é um solo de robusta economia e tem como carro-chefe a Feira de Tecnologia Hannover Messe ratifica isso, há anos. Também não faz muito tempo, quando em 2012 o país parceiro da Feira internacional de tecnologia da informação, CEBIT, era o Brasil e onde a presidenta Dilma Rousseff, na inauguração, aparecia ao lado da chanceler Angela Merkel afogando um tablett da Samsung num aquário para provar a impermeabilidade do aparelho. 

Merkel para inglês ver


Antes do domingo e com ele a chegada de Obama, Merkel cumpriu, em formato de disciplina prussiana, a sua agenda de sábado, que prescrevia uma visita ao campo dos refugiados na fronteira da Turquia com a Síria.

O Momento da visita não poderia ser mais delicado: primeiramente o “Caso Böhmermann”, envolvendo o humorista que ousou um “poema” esculachando o presidente turco, Erdogan e no início da semana passada, Volker Schwenck, correspondente da TV SWR foi detido no Aeroporto de Istambul e impedido de entrar no pais. Vindo do Cairo, seu intuito era continuar a viagem de Istambul para a fronteira da Turquia com a Síria para entrevistar refugiados sírios. Segundo fontes do próprio correspondente via Twitter, ele ficou detido no departamento de deportação. Em nota na sequência, A Associação de Jornalistas Alemães (DJV, na sigla) exigiu que Schwenck fosse liberado “imediatamente”.

Perguntada por jornalistas o que pensa da detenção do correspondente, Merkel, em voz de quem já está para cochilar, declarou: “Nós estamos acompanhando essa situação com uma certa preocupação”.

Um acontecimento ocorrido na última terça-feira (19) no preâmbulo da visita de Merkel à Turquia para encontro com o Primeiro-Ministro Ahmet Davutoglu foi o surto do presidente Erdogan frente à um “boletim” com notas concedidas pela UE para o seu governo. O dossiê criticava especialmente sua política frente aos Curdos assim como a liberdade de imprensa. Dois dos críticos jornalistas turcos estão sendo processados, acusados de sabotagem e correm o risco serem condenados a pena de morte (O Blog publicou sobre essa pauta em artigo anterior). Erdogan surtou e, de pirraça, prontamente enviou o dossiê de volta para Bruxelas com as anotações: “A UE precisa mais da Turquia do que a Turquia da UE”.

A politica de ZigZag de Merkel

2017 é ano de eleições federais que irá compor o novo parlamento. Em enquete divulgada recentemente, a maioria dos alemães considera a postura da chanceler frente ao governo turco “muito banho-maria”, algo nada inusitado no estilo de governo de Merkel. Porém com a explosão da “Crise dos Refugiados” em julho de 2015 tudo mudou e a chanceler teve que ousar e fazer algo que ela não cogitava: tomar posição, dar a cara para bater.

A chanceler quer ser reeleita. Para isso, precisa mostrar aos alemães que a crise dos refugiados está sob controle e, mais uma vez, ser aprovada na sua habilidade de “empresariado de crises”. As estatísticas que ratificam a diminuição da entrada de refugiados na Alemanha, não bastam para convencer os eleitores. Os refugiados já se mostram presentes em vários setores da sociedade e já fazem parte constante do cenário urbano. Em Berlim, isso é ainda mais visível: nos supermercados, nas ruas, nas esquinas de abrigos de refugiados. Na última semana, foi divulgada a construção de mais um abrigo no bairro de classe alta da cidade hanseática de Hamburgo, mas precisamente em Blankenese, localizado no oeste do bairro de Altona e à beira do Rio Elba. Um bairro com mansões que lembram as do País de Gales no Reino Unido, esbanjando aristocracia e riqueza e sofisticação. A notícia da construção de um abrigo para refugiados causou repúdio no bairro de metro quadrado mais caro do norte da Alemanha, local também onde habitam eleitores do CDU, partido de Merkel.

O que a imprensa amarela protagonizada pelo tabloide Bild faz questão de omitir é que redução de números de imigrantes contabilizados nas fronteiras da Alemanha é também resultado do fechamento da “Rota dos Bálcãs” sacramentado em 09/03, empreendimento no qual Merkel ficou de fora e que foi concebido pelos governos da Áustria, Macedônia, Eslovênia e Croácia. Na época Merkel declarou: “O Fechamento da Rota dos Bálcãs não resolve o problema”. Hoje, a perspectiva da chanceler é outra. O fechamento acabou se transformando num bem-vindo efeito colateral na política de repressão dos refugiados nas fronteiras dos respectivos países. A UE não consegue um denominador comum para administrar de forma digna a crise dos refugiados, mas quando se trata de estratégias para mantê-los distantes das fronteiras, no quesito “criatividade” só o céu é o limite.

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Sábado pela manhã (23) o sol brilhava a pino. Crianças que foram especialmente arrumadas seguravam a onda na primeira fila para receber a chanceler em visita ao país que, segundo a Agência de Gestão de Desastres e Situações de Emergência (Afad, na sigla em turco) abrigou 2,8 de sírios nos últimos dois anos sendo que 10% deles habitam em campos de refugiados, como o de Nizip na fronteira com a Síria.

Bem-vindos aos país que acolheu o maior número de refugiados”, dizia a faixa na entrada do acampamento.

O acordo com a Turquia

Somente 1 dia antes de receber o presidente americano Barack Obama na “metrópole” Hannover em sua última visita com tal no país, Merkel precisava mostrar aos eleitores alemães que não dorme no ponto e que a “questão dos refugiados” está sob controle. Sob o seu controle.

O acordo da UE com a Turquia, fechado em novembro de 2015 e que custa milhões de euros para os contribuintes, prevê que o governo turco aceite de volta os refugiados que entraram ilegalmente na Europa. Segundo vários dossiês divulgados pela Amnesty International, a Turquia já praticava, de forma sistemática, muito antes do acordo entrar em vigo,r a deportação refugiados sírios..

Em troca, a UE assinou o cheque de 3 bilhões de euros e ainda prometeu reabrir as negociações que tem como finalidade a adesão da Turquia pela UE, idéia que Merkel, durante anos, terminantemente rejeitou.

A ressurreição do Acordo Dublim II

O acordo que havia sido declarado morto pela própria chanceler serviu de álibi para o acordo com a Turquia. As vozes da UE contra o déspota turco Erdogan se calaram. A conta fechou para Merkel e como bandeira pouca é bobagem, a UE já cogita fechar acordos semelhantes com o Líbano e com a Jordânia. Segundo matéria do portal Spiegel Online e um documento proveniente do Ministério do Interior ao qual a redação afirma ter acesso, o governo alemão intui em declarar a Turquia como “país de proveniência segura” o que dizima o requerimento de asilo político em outros países da UE.

O muro na fronteira

Depois da vitória da “Revolução Pacífica”(1989) que levou a queda o Muro de Berlim, Merkel, por motivos estratégicos, faz vista grossa. Agora o muro da vergonha é entre a Turquia e a Síria.

O muro com o aval dos comissários da UE e da chanceler alemã se mostra em Reyhanli, cidade com 62 mil habitantes na região de Hatay, sul da Turquia.

A visita de Merkel serviu para mostrar serviço para os eleitores alemães, o outro lado de um acordo pérfido com um governo liderado por um déspota chamado Erdogan que Merkel há bem pouco tempo fazia questão de ignorar. Os tentáculos de Erdogan na Alemanha se mostram presentes também na área de cultura. Além do repúdio pela sátira feita pelo programa “Extra3” a TV NDR e pelo humorista Jan Böhmermann, o presidente turco exigiu a exclusao da palavra “genocídio” agora é a Sinfônica de Dresden (leste do país) alvo de tentativa de influência na liberdade artística. O projeto “Agnet” (Catástrofe) que trata do genocídio dos armênios há 100 anos atrás. O projeto, subvencionado pela Comissão Europeia com 200.000 euros que acatou a reclamação do governo turco, deletando o texto do portal: “Deletamos para procurarmos um texto mais apropriado para divulgar o projeto”. O projeto teve première em Berlim em novembro e está planejado para ser exibido em Istambul. O governo turco se vê legitimado em tentativa de influência no âmbito artístico da Alemanha. Sinal dos tempos…

Enquanto isso..

Na cidade pacata de Hannover, Merkel regozija a imprensa internacional com imagens harmônicas e de tete a tete com o presidente americano que marca presença para “ratificar a importância” do fechamento do Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento (TTIP, na sigla em inglês), acordo esse que encontra severa aversão pela opinião pública alemã, que teme a “perda de importantes aspectos na qualidade de produtos”.

Antes tarde do que nunca

Em discurso de uma hora e meia na abertura da Feira de Tecnologia em Hannover, Obama prometeu enviar 250 soldados para a Síria para combater o chamado “Estado Islâmico”. A Guera Civil na Síria estourou em 2011. Tendo cometido um erro crasso em subestimar o poder militar do EI, somente agora e para não dizer que não falou de flores, melhor, tentar deixar um legado que justifique o Prêmio Nobel da Paz que lhe foi concedido como um voto de confiança, Obama fala bonito, pede mais apoio a OTAN promete mundos e fundos incluindo a disponibilização de 250 soldados e, suma, faz o dever de casa no âmbito da politica externa dos EUA, mesmo sabendo que a solução da Guerra Civil da Síria só será possível com a inclusão da Russia no circulo de negociações, país que sucedeu o status da Turquia de outrora na UE: persona non grata. A visita do presidente Barack Obama em Hannover rendeu não mais do que um apoio indiretor para empresas que anseiam pelo fechamento do acordo de comércio e um encontro informal com presidente François Holland, os primeiros ministros David Cameron e Matteo Renzi, a anfitriã Merkel  e um chá das 5 na varanda do Castelo Herrenhausen na “metrópole do mundo”, Hannover.

Links relacionados:

http://www.hannovermesse.de/

http://www.siemens.com/global/en/home/company/fairs-events/hannover-messe.html