Baschar Assad batendo ponto em Moscou completa a vingança de Putin

Fátima Lacerda

21 Outubro 2015 | 17h28

image-911496-galleryV9-bahu.jpg© REUTERS/RIA Novisti/Alexey Druzhinin

O ditado popular em Terra Brasilis, atesta: “Vingança é um prato que se come frio”. Os discípulos de Maquiavel sabem disso. A Flora (A Favorita) sabia. O Romero Rômulo (A Regra do Jogo) sabe. Vladimir Putin, também. O rejeitado é ridicularizado pela comunidade internacional, desconvidado para a Cúpula do ex-G8, agora G7, realizado em junho passado, na Alemanha. Putin, o cara Persona non grata, nada confiável e politicamente imprevisível. Durante algum tempo, a vingança vinha em forma de marketing meticuloso e matematicamente programado, assim como toda a vingança que se preze. Putin fazendo musculação, Putin saindo do submarino, do helicóptero, um cabra macho sim senhor. Enquanto isso, os expoentes da comunidade internacional o ridicularizaram e o que ainda é pior, para o ex-chefe da KGB na Alemanha (1985-1990), o ignoravam.

Quem paga a conta?

Com o início da situação dramática dos refugiados presos na estação ferroviária de Budapeste no mês 08, a comunidade internacional, e especialmente o governo alemão, caiu na real. Sem o presidente russo não há possibilidade de resolver, de forma diplomática, a Guerra Civil da Síria e conceber o plano de um governo de trânsito, sem Assad. O saldo guera até agora é de 250.000 mortos, 12 milhões de refugiados e o fracasso diplomático de duas Conferências sobre a Síria, realizadas em Genebra na Suíça. Na época, o plano apresentado pelo então enviado Kofi Annan, foi recusado mesmo antes de ter sido detalhadamente examinado. O atual enviado da ONU, o diplomata suéco-italiano Staffan Domingo de Mistura, fica batendo de porta em porta e não consegue nada de realmente concreto, perto de algo parecido como um denominador comum.

O Ministro das Relações Exteriores, Frank-Walter Steimeier, em tom autocrítico, mas também não deixando a comunidade internacional ficar bem na foto de grupo, declarou em recente discurso no parlamento alemão: “Agora, muitos ficam choramingando e se mostram nostálgicos no que concerne a sugestão do enviado da ONU naquela época. Também aqueles que foram rápidos demais em diabolizar a Síria como parte do “Eixo do mal” e batiam pé dizendo que não era admissível falar com Assad, agora pleiteiam que é preciso falar com ele”, criticou.

Assad batendo ponto em Moscou

A convite do presidente Russo, o tirano sírio, excepcionalmente, deixou seu país para “uma “visita de trabalho sobre a intervenção das forças militares russas na Síria contra o Estado Islâmico”, assim a versão oficial da agências, que divulgaram a notícia de forma tardia. Com o convite ao tirano para sentar na sua mesa de ouro em Moscou, Putin faz o seu marketing na hora certa para ratificar para a comunidade internacional a sua conexão direta com o ditador sírio O registo do encontro dos dois políticos egocêntricos acontece exatamente no dia 20, dois dias depois que Merkel teve que marcar terreno na cova do leão em visita a Istambul, enquanto Steinmeier foi bater ponto nos palácios do déspota, no Irã e na Arábia Saudita. Segundo a Amnesty International, entre janeiro e 15 de julho do ano corrente, já foram executadas 694 pessoas no Irã.

A questão ideologia que vigorava e dominava o jogo político na época da Guerra Fria, não resistiu ao Zeitgeist da Realpolitik, ou seja, a administração (e não prevenção) de problemas que vão surgindo, como dizem os americanos, on the long run.

Merkel sempre foi adepta desse estilo de governo pragmático: em suas visitas à China, à Índia ou a outros países, onde o motivo principal da longa viagem eram contratos econômicos a serem firmados com o Deutsche Bank, a Siemens, Volkswagen, BMW e outros grandes Global Players. Os temas Democracia e Direitos Humanos só tomavam uma parte mínima das conversas. Só pra constar. Pra alemão ver.

O poder das imagens

Quem vê Assad, todo sorridente em direção a Putin, nem parece que ele “governa” um país em guerra há 5 anos. Putin, com a postura de quem toma iniciativa e passos firmes de um político resoluto que não pestaneja quando tem que botar a mão na massa. Essa é uma alfinetada genial na comunidade internacional. A mídia na Alemanha foi bem economica ao dar a notícia.

A história mostrou: “Ruim com Putin, (e o que ninguém imaginava) ainda muito pior sem ele”.

Um ditado popular de visão de cunho bem pragmático comum nas terras daqui, acredita: “A politica não é um playground”.

Que o governo Merkel subestimou a capacidade analítico-estratégica de Mr. Putin (assim o chama o presidente americano com o intúito de desclassificá-lo), é incontestável. Mesmo que o Ministro alemão das Relações Exteriores veja a intervenção da Rússia na Síria contra o Estado Islâmico como algo que dificulta ainda mais almejar uma solução pacífica para o abacaxi político. Agora Inés é morta. Para atuar como mediador no processo de solução diplomática à Guerra da Síria, Mr. Putin terá que voltar a fazer parte do circuito exclusivo dos protagonistas do “sinteco político”, como diz o jargão.

Mais uma vez a frase, eternizada pelo ex-líder soviético Michael Gorbachev, referente às forças da Alemanha Oriental, teimando em manter de pé o Muro de Berlim: “Quem chega tarde demais (na história) é punido pela vida”. Agora, a vingança de Mr. Putin está completa, mesmo antes de qualquer cidadão poder ser salvo de bombardeios na Síria sejam eles de soldados russos ou do próprio regime Assad. Isso é política real. Não tem playground, a não ser para Mr. Putin, que agora está por cima da carne seca, digo, do caviar.