Alexanderplatz: entre austeridade de outrora e o inferno contemporâneo

Alexanderplatz: entre austeridade de outrora e o inferno contemporâneo

Fátima Lacerda

11 Agosto 2017 | 15h13

Do aspecto sombrio, austero e amedrontador dos tempos da Guerra Fria, não sobrou mais nada no ponto mais conhecido e mais emblemático e localizado no centro de Berlim.

O romance de Alfred Döblin (1878-1957) e, na sequência a série de 14 episódios, “Berlin Alexanderplatz”, adaptada para a TV sob direção do Enfant Terrible do cinema alemão, Rainer W. Fassbinder, com trilha sonora assinada por Peer Raben e com a maravilhosa atriz Hannah Schygulla no papel principal, é visão de um passado muito remoto considerando o âmbito cultural, social e, acima de tudo, urbano.

A praça foi denominada em homenagem a Alexander I. Pawlowitsch Romanow (1777-1825) Imperador da Rússia, Rei da Polônia e Grão-Duque da Finlândia e que na época da Guerra Fria, era o cartão-postal de Berlim Oriental, uma espécie de garantia contra isolação total atrás da cortina de ferro devido à teimosa negação das forças ocidentais em aceitar Berlim Oriental como “Capital da Alemanha Oriental”.


Highlights

O “Relógio da hora mundial” (Weltzeituhr, em alemão) que exibe atrás de tiras e números de metal dourado, a hora de 148 cidades, já era a partir de 1969 cartão de visitas, uma janela para o regime cinzento do “real socialismo”. Desde 2015 o “Relógio”, que pesa 16 toneladas, carrega também o título de “Patrimônio histórico”.

Alexanderplatz era polo de comércio quando Berlim ainda gozava do status de uma ilha.

Na época das vacas magras, Berlim Oriental ainda oferecia mais em quantidade e em diversidade produtos do que outras cidades da Alemanha comunista. Tangerinas e bananas só tinha mesmo no período de Natal, mas o básico, além de uma certa variedade de roupas, por exemplo, era só possível encontrar em Berlim.

Uma pilastra não menos importante era o contrabando de discos. Pessoas que visitavam o lado oriental com visto para um dia e que expirarava no simbólico horário da meia-noite, levavam discos do ocidente, especialmente de Jazz mas também de grandes nomes da música pop. Esse bem-vindo contrabando foi o alicerce do que se tornou um invejável arsenal de discos de muitos radialistas da época e dos anos que viriam.

Convulsão

Não “somente” depois do um milhão de refugiados que a Alemanha acolheu em 2015, Berlim teve seu principal desafio das últimas décadas.

Um milhão de pessoas de Backgrounds religiosos e culturais tem que ser integradas na sociedade: pelo idioma, pelos costumes, mas tem também que passar por um processo de assimilação, mesmo que esse seja mínimo. Essa opção, entretanto, se mostra bem obsoleta.

O outro lado da moeda é a escolha consciente pela isolação, por ficar a beira da sociedade, sim, na marginalidade. Isso acontece especialmente com os turcos, cansados de serem tratados como cidadãos de segunda classe. O paradoxo no contexto dos turcos (naturalizados ou não) é o número de imigrantes e dos que nasceram na Alemanha. Berlim tem a terceira maior população turca, depois de Ancara e Izmir.

Hermeticidade

A sociedade alemã é hermética, mesmo com o incontestável caráter cosmopolita de Berlim, existem instrumentos imprescindíveis que precisam se ter em mãos. Ter marido rico ajuda? Claro! Aumenta o nível de tolerância num país onde a inveja material já é plantada no berço do recém-nascido. O dinheiro, marido rico e carro do ano aumentam o nível de aceitação, mas a faltando do domínio da língua, permanecerá sempre um Missing Link.

Uma coisa é você ser tolerado. Outra, bem diferente, é fazer parte como quem transita numa festa sem ter entrado de penetra ou pela porta dos fundos e sem ter que fazer gracinha para ninguém para ser bem visto.

O objetivo no contexto de imensa complexidade que é a imigração (voluntária ou involuntária) tem que ser uma saudável combinação entre integração e a postura de se manter autêntico, sem se prestar ao papel de alimentar estereótipos.

Independente disso, haverá sempre um alemão de plantão, enrustido (ou não) de liberal e aberto ao mundo, vai querer te explicar como “a coisa funciona”, seja no balcão da padaria, na ciclovia, ou mesmo na hora do sinal vermelho. Até o mendigo sentado na calcada pedindo esmola e acompanhado de um cachorro fedorento vai chamar a tua atenção berrando: “Aqui não é ciclovia, é calçada!”. Isto também é Berlim!

Solo de convulsão urbana

Na entrevista feita comigo em 2009 em Alexanderplaz, por ocasião do aniversário de 20 anos da queda do Muro eu falava, tanto em entrevista ao SBT feita por Hermano Henning tanto como a feita por Silo Boccanera para o “Sem Fronteiras” da “Globo News” eu falava de Alexanderplatz como “coração”.

Hoje, esse lugar exibe o nível de convulsão social que rege em Berlim além de, nos últimos 3 anos, ter se tornado palco de crimes terríveis e hediondos, crimes esses que resultaram em julgamentos com visibilidade em todo o país.

O quer sobrou?

A divertida dicotomia entre o letreiro original da praça logo em cima de uma filial do Mc Donald, sumiu. O MC Donald’s agora e só entulho e resto de paredes rasgadas.

O métrico vermelho-escuro que eu já vislumbrara em excursão com a escola no inverno de 1988, sumiu e com ele, a memória urbana. Decerto que milhões de pessoas terão histórias e lembranças deste lugar, mas o desaparecimento do letreito da época da Cortina de Ferro tem uma simbologia do tipo mil-folhas.

De original só restou o “Relógio com a hora do mundo” (Weltzeituhr) e a primeira filial da C & A em Berlim foi na Rua Koenigstrasse número 1, a poucos passos de Alexanderplatz. Quase totalmente destruída durante os bombardeios da Segunda Guerra Mundial, a hoje chamada “Alex” acabou tendo que dar lugar à construção da torre de TV (Fernsehturm) entre 1966 e 1969, quando o “outro” cartão postal de Berlim entraria no cenário urbano para nunca mais sair do espaco físico.

No âmbito de restruturação urbana da Berlim já unificada, a diretoria da marca C & A fez questão de voltar a parte leste da cidade, mas somente em 2006, ano da Copa do Mundo na Alemanha e de grande visibilidade em que a Alemanha se apresentou moderna pro mundo, a empresa voltaria para “Alex” alugando um Galpão no prédio também Centenário da “Berolina” para no ano da Copa da Alemanha, voltar quase literalmente ao endereço da época da inauguração. Pouquíssimos metros separam o lugar de hoje do de outrora.

Estátua da Berolina (1895) exposta em Alexanderplatz em 1937 /©Arquivo Federal/Bundesarchiv

O que também resiste ao tempo e ao caos são os exilados cubanos, que, diariamente, la pelas 17 horas se juntam ao redor do elevador que une a plataforma do metro com a superfície. Esses cubanos são de uma geração onde essa parte de Berlim era comunista, amiga de Cuba. Eles viam estudar e trabalhar e acabaram não voltando. Agora o estrangeiro é Cuba e Berlim se tornou um solo estrangeiro nem tão desconhecido assim. Uma tentativa minha de conversar com os cubanos fracassou. A desconfiança e a postura arredia se mostraram uníssona entre os cubanos de Alexanderplatz que nem a escolha do caminho de volta, eles tem.

Além de alto nível de agressividade em relações interpessoais (sob o efeito ou não de álcool ou de ódio contra si e contra todos), grande número de batedores de carteira e trilhos de bonde que são um perigo constante para quem só anda de duas rodas Alexanderplatz, pra mim, se tornou uma memória daqueles tempos sombrios e da excursão com o pessoal da escola de alemão assim como a do primeiro Natal no departamento de roupas na única loja daquelas redondezas e de como era difícil escolher um artigo que oferecia o mínimo de qualidade.

Hoje, mais do que nunca, “Alex” e só memória e, quando necessário, um lugar para passar batido. Entre os “Beach Bars”, stands de comida da Baviera, criação de mundos imaginários ou comida indiana por um valor irrisório servido em prato de plástico para comer sentado num banco de madeira do tipo Biergarten.