Merkel, a Turquia e a volta dos berlinenses às ruas

Fátima Lacerda

12 Outubro 2015 | 13h25

Desde o final de agosto, as pautas politicas da República Berlinense não são mais exclusivamente a situação dramática dos refugiados que diariamente chegam no pais. Os pacotes de ajuda financeira para Grécia, parecem ser coisa de um passado muito remoto. Os bombardeios de Wladimir Putin contra o EI na Síria, deixaram, por algumas horas, de ser as pautas onipresentes nos telejornais.

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No fim de semana, Berlim voltou à sua essência: de uma cidade politicamente pensante e ativa. Uma cidade que não fica omissa sobre o que acontece no mundo. Na manhã de sábado (10), alemães vindos de todas as partes do país, demonstraram na contra o Tratado Transatlântico para Livre Comércio entre os EUA e a UE e contra o CETA, entre a UE e o Canadá. 

O TTIP, entre os EUA e a UE está sendo negociado na encolha. Nem mesmo membros de bancadas do parlamento, o Reichstag, tiveram a permissão de acesso aos itens do acordo.

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Klaus Ernst, experto da área de economia da bancada do partido esquerdista, Die LINKE, alegou na atual edição da revista “O Parlamento”, que o acordo “passa ao largo pelos parlamentos” dos países envolvidos e de fato “os neutralizam”.. Ernst também argumenta que “a Alemanha já é campeã mundial de exportação ”, mesmo sem o TTIP. Além disso, o experto para assuntos de economia sente falta de “importância de peso para a agricultura sustentável”.

Ficar propagando ideologia em formato de seitas religiosas e verdades absolutas nas redes sociais, não combina com Berlim. Aqui, a cidade vai pra rua e não economiza criatividade, mesmo quando o tema é sério e faixas exigem (veja foto abaixo): “Queremos um futuro livre” ou “Merkel tem que sair“. Não faltou romantismo, como uma pista de dança para casais mostrarem o melhor do Tango Argentino sob um sol de Brigadeiro do dourado outono berlinense.

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Merkel e o “País Problema” Turquia

O governo alemão demorou muito tempo para sequer considerar a Turquia como prolongamento, como peça importante no administrar da politica de imigração. Vale lembrar que durante a gestão do socialdemocrata Gerhard Schroeder (1998-2005), ele via “com bons olhos” a inclusão da Turquia na UE. Na época, para o CDU, partido de Merkel, isso representava um cenário apocalíptico para “a comunidade de valores comuns” que deveria ser a União Europeia. A Turquia muçulmana não combina com este projeto.

Hoje, a Turquia é o país que mais recebe sírios da região e o país que, até agora, recebeu mais refugiados em todo o mundo. Atualmente moram 2 milhões de sírios no pais. O programa Alimentar Mundial das Nações Unidas (WFP, na sigla em inglês), estima para 2,5 milhões até o final de 2015, o número de refugiados que procurarão refúgio na Turquia.

O Morde e Assopra de Erdogan

Num momento o Presidente turco sinaliza cooperação com o partido liderado pela minoria curda no pais. Num outro, a realidade surpreende o presidente e os curdos conseguem tantos votos nas eleições parlamentares, que o país se torna ingovernável. Num outro período, Erdogan mostra a sua cara e volta a perseguir os curdos.

O ataque terrorista da semana passada mostra a cara da política sórdida do Presidente turco. Em Novembro haverá eleições que constituirão o novo parlamento. O pânico do governo populista fica cada vez mais visível, ainda mais com a acusação dos partidos representantes dos curdos, que teria sido o próprio governo o autor do atentado. No jornal berlinense Der Tagesspiegel (O Espelho do Dia), o caricaturista Klaus Stuttmann mostra um Erdogan fazendo o símbolo da vitória e usa o vermelho da bandeira da Turquia como símbolo do sangue derramado. 

ErdoganStuttman.jpg©Klaus Stuttmann

Para o governo de Berlim, esse ataque terrorista não poderia ser mais contraprodutivo. Logo agora que acabou de cair a ficha do governo Merkel, que a Turquia é país-chave e parceria indispensável para minimizar o fluxo de refugiados que chegam diariamente na Alemanha e Merkel terá que bater na porta de Erdogan e não, como de costume, ao contrário.

O governo de Berlim pretende ajudar a Turquia com verbas de infraestrutura para que refugiados permaneçam no país. Depois da divulgação do ataque terrorista de sexta-feira (09), Stefan Seibert, porta-voz do governo Merkel, anunciou na manhã de segunda-feira (12), uma visita oficial da chanceler a Istambul no próximo domingo (18) para encontros com o Presidente, assim como com o Premiê Ahmet Davutoglu para conversas sobre o conflito na Síria, a crise dos refugiados, sobre o terrorismo e “sobre temas bilaterais”, divulga hoje matéria publicada no jornal conservador Frankfurter Allgemeine Zeitung (FAZ)

 image-907952-galleryV9-iydw.jpg©Reuters

Complicado momento político

A visita da chanceler alemã a Istambul, soma-se a crise dos refugiados e com ela “a situação limite” da qual, há tempos, vem reclamando o governo turco, o atentado terrorista da última semana, além do agravante da precária situação da política interna com as eleições parlamentares marcadas para 01 de novembro.

Tática Erdogan

Nas últimas eleições em junho passado, o partido de Erdogan, Partido da Justiça e Desenvolvimento (PKA) perdeu a sua maioria absoluta para partidos menores. Entre eles, partidos pró-curdos (HDP), de extrema-direita (MHP), ou inimigos ferrenhos ou separados por  um total antagonismo ideológico. A legislação turca prevê que se no período de 45 dias não for encontrado um parceiro para formar o novo governo, a única alternativa é convocar novas eleições.

Analistas políticos, tanto da Turquia quando da Alemanha, alegam que Erdogan não tentou a coligação com os partidos das minorias, exatamente para forjar uma nova ida às urnas, assinando um atestado de burrice para os eleitores. Tipo assim: Vocês não votaram direito, vamos lá votar de novo, como se a democracia fosse uma festa que você só convida pessoas que compartilham do seu gusto político. Pelo contrário. A democracia é uma festa, onde estão convidados que você não suporta, mas com os quais você terá que, pelo menos, tentar o diálogo na procura de um denominador comum, por menor que esse denominador seja. O respeito a vontade dos eleitores, exige isso.

Com a obsessão de se manter no poder, Erdogan opta pela desonestidade política e lida de forma irresponsável com impostos. Uma eleição nacional, incluindo zonas eleitorais para turcos radicados fora do país, não é realizada a preço de banana e implica uma logística trabalhosa e cara.

Merkel precisa da Turquia para reduzir o fluxo de refugiados e acalmar seus adversários na política interna, até mesmo os do seu próprio partido. Nesse momento políticos dos dois países, a posição da chanceler se mostra bem menos favorável do que se ela tivesse pensado no diálogo com o país de imensa importância geo-política, já em 2011, depois do estourar da Guerra Civil na Síria. Agora, a chanceler que vai ter que estender a mão, ter que mostrar serviço, sendo “generosa” e levando robustas quantias na bagagem. O governo de Berlim pecou pela relutância em aceitar o óbvio e esse atraso, vai custar caro.