Arrigo Barnabé: a obsoleta vanguarda paulista em Berlim em festival de louvor à negação

Arrigo Barnabé: a obsoleta vanguarda paulista em Berlim em festival de louvor à negação

Fátima Lacerda

12 Novembro 2017 | 13h10

No!Music é o Festival quer termina neste domingo (12) na Casa das Culturas do Mundo em Berlim. No Site do prestigioso local, a justificação, digo, o esclarecimento politico-cultural faz intuir que o nome é programa, ou seja: Música, Performance, que não é musica no sentido de mercado, no sentido de distração nem muito menos de alienação, do entretenimento por ele próprio.. O subtítulo desse festival poderia se chamar ‘Resistência” a parâmetros políticos, de mercado.

Detlef Diederichsen é o curador de assuntos musicais da Casa das Culturas. O No! Music tem a co-curadoria de Martin Hossbach, dono de selo de gravadora e um Insider da cena musical e curador do festival de Cultura Pop.

“Existem dias formas de um musico dizer não. Através de decisões concernentes a sua carreira, escolhas sobre suas composições ou simplesmente pelo silencio” explica o texto no site de uma das mais relevantes Casas de Cultura da Alemanha.

Mini noite brasileira

Tiganá Santana foi apresentado por Diederichsen como um “dos mais promissores artistas da nova musica brasileira”. No texto de apresentação do primeiro da noite, se prometia uma releitura do disco “Milagre dos Peixes” (1973) de Milton Nascimento, vinil proibido pela censura na época da Ditadura Militar. Bem En passant, foi mencionada a atual situação politica do Brasil, similar a um barco em naufrágio. De novo. Uma justificativa. Uma legitimidade para aprontar o programa.

©José de Holanda

Indiscutivelmente, Santana tem um trabalho de grande qualidade visível e percepctível também em “The Invention of Colour” (Ajabu!) e que, em Berlim se mostrou autêntico ao ser extremamente solícito com a plateia e ao agradecer várias vezes e prestigiar os dois músicos que, com ele, dividiram o palco. Porém, chegar usando de um patamar da altura de um Mílton Nascimento, da qual voz é um trovão que ecoa por toda as Gerais, é apostar alto demais.Tudo bem que o No!Music está sob o prisma de que o menos, é mais, porém o show de Santana foi demasiadamamente ritualizado, acabando por se tornar letárgico passando pelo meditativo, desde o pegar dos instrumentos, até o olhar para percurssionista iniciar a contagem para entoar a música para um show de sexta-feira à noite. Não fosse a comparação precoce com Bituca na hora do anúncio do show, a expectativas teria estado em nível bem menores e a decepção teria sido menor.

Ingerindo a verdade com a colher

A função de curador/curadora não e só atraente, ela traz imensa responsabilidade, já que você escolhe o que será visto e o que não, o que percebe como relevante e o que não. Em relação ao Brasil, uma país longínquo da perspectiva europeia, a sedução em querer explicar e delinear fenômenos culturais e políticos é grande e não menos perigosa. Evitar abordar e tematiza a situação atual do Brasil e recorrer para a época de 1964, do Golpe Militar e se mostrar liberal e solidário, é legal e politicamente correto. Mas perante ao galopar do pós-globalizado uma proposta temática dessas pode ser um tiro no pé.

Um ditado popular em terras germânicas prescreve aquela pessoa que age como se fosse a dona da verdade. “Ingerir a verdade com a colher” muitos curadores, curadores e palestrantes caem nessa armadilh quando falam de Brasil. 

Os movimentados anos 80

Ao anunciar o iminente show do protagonista da Vanguarda paulista dos Anos 80′, Diederichsen cometeu um erro ainda mais grave quando disse: ”Nos anos 80 não acontecia muita coisa na cena musical do Brasil”, atribuindo a musica de Barnabé um papel de exclusividade musical da época, apesar de todo o seu mérito artístico importantíssimo de outrora, não teve a exclusividade anunciada. Nos Anos 80, começaram a surgir nas capitais as Bandas de Rock. Uma espécie de tropicalismo do Rock (os puristas e fetichistas de nomenclaturas irão me odiar, eu tenho ciência disso) com bandas, começando por Brasília, lá onde Ulysses e Trancredo intuíam um novo Brasil que foi exibido, revelado e escrachado, sem cosméticos por bandas como Aborto Elétrico, na sequência e no desdobramento em Legião Urbana e Capital Inicial, além dos Paralamas do Sucesso, o Ira, o Biquíni Cavadão, o Ultraje a Rigo, os Picassos Falsos e lá no sul, os Engenheiros do Hawai.

De toda a forma, tirando um excelente pianista e uma excelente baixista, que além de talento esbanjava beleza, a performance de Barnabé e as músicas de seu disco “Claras & Crocodilos” (1980), me remateram a um passado remoto além de muitas semelhanças com a banda carioca Blitz, em sua formação original. Não vi transgreçao alguma, como também, ao contrario de Santana, nenhuma interação com o publico presente, alias em numero bem reduzido no Auditório Principal. Talvez o novembro cinzento e chuvoso também tenha contribuído coma falta de um numero relevante de pessoas, mas talvez também essa essa a intenção do No! Music: desestruturar expectativas, instigar, irritar. Porém, o irritar, nem sempre, é bem sucedido. Não no sentido de mercado nem muito menos de Main Stream, tabu no âmbito programático desse festival, mas no sentido de que essa Avanguarda já foi. Desafiar o Zeitgeist e aquilo que ele instiga pode dar certo, no caso do No!Music, não deu.

Para o meu primeiro show assistindo Barnabé, em presença física, eu esperava mais anarquia, mais controversa, surpresas musicais e bem menos (na melhor das hipóteses, nenhum) discurso baseado em tempos de outrora.