As sete vidas de Angela Merkel, um déspota e um fantasma do passado

Fátima Lacerda

04 Abril 2016 | 14h47

No inicio desde ano teve a alista politico que na contava com o fim da era Merkel. De tri do seu partido, o CDU, já rolavam especulações de quem poderia suceder aquela que a “Time” denominou de “Chanceler do Mundo”. A pergunta de quem poderia suceder Merkel se diluiu quando a ambiciosa Julia Gloeckner, perdeu as eleições em âmbitos regionais em Rheinland-Pfalz (sul do país). A própria, na fissura de final de campanha e de olho na  visibilidade nacional, preparou aquilo que ela denominou de “Plano A2” para melhor empresariado da crise dos refugiados. Para não cair na desgraça da chanceler, ela não denominou seu feito “Plano B”, mas de “Plano A2”. Todo esse cosmético linguístico de nada serviu. Gloeckner perdeu as eleições e Merkel jamais esquecerá a “saída da linha” da ambiciosa política.

Nesse meio tempo, apesar da Áustria ter fechado a “rota dos Bálcãs” e Merkel, no âmbito da politica externa estar perigosamente isolada, a popularidade da chanceler voltou a aumentar. Atualmente ela se encontra  no âmbito percentual de antes da crise, que iniciou depois da entrevista coletiva quando ela declarou:” A gente consegue” (empresariar a crise dos refugiados), o que foi entendido por muitos como um convite para ir para a Alemanha e rendeu Merkel uma chuvas de acirradas críticas.

As enlouquecidas jogadas no ventilador de seu parceiro-junior no governo, Horst Seehofer (CSU), estão, atualmente, no âmbito do cessar fogo até que venha o próximo capítulo da novela “Refugiados”.. Merkel passou por várias tempestades com a frieza e firmeza que só consegue, uma alemã nascida e criada num Estado, onde ser comedido, ficar na enconlha, era garantia de sobrevivência. Agora, não se fala mais em sucessão, o fuxico dentro do próprio partido, o CDU, se dissolveu e tudo continua como Dantes no Quartel de Abrantes: Não há alternativa para Merkel. Ponto.

Atribuíl-la sete vidas não é exagero, comparando a dinâmica política insana que a acometeu desde aquela coletiva em agosto de 2016.

O Mentor

No primeiro governo da Alemanha unificada, Merkel ocupou, entre 1991 e 1994, a pasta do Ministério da Família e das Mulheres do governo Kohl (1982-1998) e, na sequência, foi Ministra do Meio Ambiente, cargo no qual colheu escárnio dos adversários políticos. Logo ela, vinda de um país onde a palavra Meio Ambiente era inexistente, mas tinha águas e rios contaminados e florestas depredadas.

Fantasma do passado

Aos 86 anos, Helmut Kohl, o “Chanceler da Unificação“ declarou neste fim de semana, via tabloide ‘Bild”, que irá se encontrar com Viktor Orbán, o Premiê húngaro, o maior populista de direita que a Europa tem para oferecer num momento de grande convulsão de valores dos 28 membros daquilo que era para ser um grupo de “valores comuns”.

Orbán xinga os refugiados de “criminosos”, gera controvérsia e constrangimento por onde passa, como fez na coletiva de imprensa ao lado do socialdemocrata Martin Schulz, presidente do Parlamento Europeu, quando o húngaro declarou na maior cara de pau que “a questão dos refugiados não e um problema europeu, mas um problema alemão”, rachando por completo a cara de Schulz que, assim como Kohl e tantos políticos desse e do outro lado do Atlântico, perdeu a  chance de largar o osso, deixar o poder de forma digna, assim como fizeram Richard von Weizsaecker, ex-prefeito de Berlim e ex-chanceler ou o recém-falecido (01), Hans-Dietrich Genscher, o Batman da politica externa alemã e do qual habilidades diplomáticas de caráter brilhante, possibilitaram a Unificação das duas Alemanhas.

Vale mencionar que Helmut Kohl devaneia em glórias do passado e processa todo mundo que queira ter acesso a arquivos que, pelo andar da carruagem, já se tornaram de domínio publico, mas o teimoso não aceita. Vale tudo para continuar sendo tema na imprensa. Esse mesmo Kohl, com a decisão anunciada de querer encontrar Órban, pode trazer de volta a avalanche de abutres querendo desprestigiar Merkel,enfim, criar uma crise no governo somente para satisfazer a sua mal resolvida vaidade de politico aposentado e longe dos holofotes da mídia.

Refugiados

A avalanche de refugiados chegou a Alemanha, se faz visível no cenário urbano e ainda e tema de controversa, por exemplo, entre os berlinenses, má que o governo regional de Berlim, na pessoa de seu preceito, o social democrata Michael Mueller, já mostrou incontáveis vezes de que não estava e nem esta preparado para a integração seja cultural e urbana desses recém-chegados. Porem aquilo que Merkel precisa menos nesse momento, e que seja aberto mais um ninho de marimbondo, como diz um ditado popular por aqui. Mesmo quem não esteja de acordo com a politica de Merkel, que é de cunho muito mais pragmático do que ideológico, é preciso reconhecer  a soberania e os nervos de aço dessa mulher, quando se trata de esperar a tempestade passar, não importando o quanto tempo ela dure e quais estragos ela cause.

Nem mesmo o questionável acordo com a Turquia, governada por um déspota, fez Merkel quebrar politicamente. Conhecido pela sua aversão à democracia e à liberdade de imprensa, o tirano Erdogan está na privilegiada situação de dar as coordenadas. Ele sabe que a UE precisa correr atrás do prejuízo e isso só é possível com a Turquia no mesmo barco.  Merkel precisa da aliança com Erdogan para  minimizar de forma siginifativa o fluxo e a entrada de refugiados na Alemanha. O “Tuerkei-Deal” (O acordo com a Turquia) entre em vigor hoje (04) e funcionários da Frontex já começaram a conduzir refugiados fora da ilha grega de Lesbos de volta para a Turquia. A mensagem dessa medida muito criticada por adversários políticos de Merkel, também manda uma advertência bem clara para quem quer entrar na Europa pelo mar. Um efeito colateral positivo seria o fim do comércio protagonizado por grupos criminosos que organizam a fuga de refugiados e seu transporte até solos europeus sem qualquer segurança.

Ao contrário do empresariado de fechamento da Rota do Bálcãs, Merkel conseguiu o apoio dos 28 membros da UE para o acordo com a Turquia. Se o número de refugiados que chegam à Alemanha for, radicalmente, reduzido, será um gol para chanceler, apesar das críticas referentes ao despotismo de Erdogan, que se espalham por todos os partidos. Entretanto, a Turquia é um sapo que precisa ser engolido e Merkel teve que pagar pra ver. E pagou caro: no âmbitos financeiro e político.

Que o Extra 3, programa de sátira política da rede aberta NDR, devido a um vídeo zoando Erdogan entre outros aspectos quanto à falta de imprensa livre e processo contra jornalistas críticos ao sistema, a repressão de passeatas no Dia Internacional das Mulheres, seu ódio pelos Curdos e sua condencendência com o chamado EI causou uma crise diplomática entre os dois países, incluindo a citação deMartin Erdmann, embaixador alemão na Turquia, para o Ministério de Relações Exteriores em Ancara para prestar esclarecimentos sobre o vídeo é, para chanceler Merkel somente um efeito colateral que não abala em nada o seu objetivo: a redução de refugiados na Alemanha. Para a chanceler, assim como seu Mentor, Helmut Kohl já proclamava: “O que importa é o resultado final”.

Ao invés de retirar o vídeo de circulação, como pleiteou o tirano Erdogan, a TV NDR ainda fez o favor de colocar legendas em turco na música que é, originalmente, conhecida na voz da cantora Nena, a musa da “A Nova Onda Alemã”, (Neue Deutsche Welle) movimento musical que ressuscitou a música pop no início dos anos 80.

Links relacionados:

https://www.youtube.com/watch?v=349VWBGICUQ

https://www.youtube.com/watch?v=z6_plxNK1hY