Atentado terrorista em Berlim: um ano depois e uma ferida aberta na alma da cidade

Atentado terrorista em Berlim: um ano depois e uma ferida aberta na alma da cidade

Fátima Lacerda

19 Dezembro 2017 | 20h15

©REUTERS/Fabrizio Bensch

 

A manhã cinzenta desta terça-feira não exibe a tristeza habitual de um inverno berlinense, onde o dia clareia as 09 da manhã e às 15 horas já fica escuro. Esse dia iniciou com o triste aniversario de um ano atrás quando Anis Amri, com um caminhão roubado de uma firma polonesa de expedição, às 20:02 horas invadia o Mercado de Natal. 12 pessoas morreram e mais de 70 ficaram feridas. Naquele dia, o terror chegava a Berlim.

Capa do jornal “Berliner Zeitung”, 19.12.2017


O motorista do caminhão, o polonês Lukasz Urban (37) seria morto para que Amri pudesse usar seu veículo como uma arma. Em entrevista recente, Janina Urban, , mãe do motorista do caminhão e que há dez anos já perdera um filho, declarou: “Eu quero dizer para a Senhora Merkel, que ela carrega o sangue do meu filho em suas mãos“..

Frustação e crítica dos sobreviventes

No aniversário de um ano, a pauta “Atentado Breitscheidplatz” volta a tona na imprensa do país e alguns poucos sobreviventes se pronunciam. O denominador comum entre eles, além do destino trágico resultante de um ataque pérfido em um lugares mais simbólicos da capital, é a frustração e/ou raiva sobre a “indiferença” da chanceler Merkel e a dificuldade em obter ajuda financeira. Aquilo que Paris mostra em profissionalidade na infraestrutura de socorro para vítimas de ataque de terror, Berlim se mostra despreparada e alienada.

Somente hoje foi divulgada a lista de nomes das vítimas. ‘Muitas famílias queriam se manter anônimas” afirma Roland Weber, advogado que cuida dos direitos dos atingidos, direta e indiretamemte, pelo atentado. Um memorial que exibe um “rasgado” no solo em frente a igreja da memória exibe também os nomes das 12 vítimas. Para alguns parentes isso não é suficiente.

Pedido de desculpas

Em discurso solene em ato de lembrança do atentado, o prefeito de Berlim, o social-democrata Michael Müller pediu “desculpas” aos parentes das vítimas pelo fracasso das repartições e departamentos suporte de pessoas vítimas de ataques terroristas.

Em seu discurso, o presidente do parlamento regional de Berlim constatou:”O ataque terrorista abriu uma ferida profunda na alma da cidade. A partir do 19.12.2016 a nossa Berlim se tornou uma outra. Nós tivemos que constatar que estamos também vulneráveis quando no meio de uma sociedade pacífica e livre“.

Ao longo dos meses depois do atentado, foi se tornando visível o fracasso da polícia, do servico secreto e a falta de comunicacao entre os diferentes orgaos, mais ou menos responsáveis em assuntos de terrorismo. O denominador entre a mídia e a elite política é que a Alemanha, ao contrário da França e dos EUA, ainda nao está acostumada com ataques terroristas.

Em fevereiro de 2016, Anis Amri, 24, da Tunísia foi classificado pelo Serviço Secreto Regional (LKA, na sigla em alemao) da cidade de Düsseldorf como “um elemento que se radicalizou e está preparado para cometer um ato de cunho terrorista”. Amri tinha ficha conhecida no departamento de servico secreto de várias cidades, já que ele se registrava como residente em um lugar, mas morava, de fato, em outro além de ter ido várias vezes a Berlim antes do dia do atentado. Quanto mais o tempo passa, mais fracassos dos departamentos e corporacoes vem a tona, o que impede os sobreviventes em seguir adiante suas vidas. Um dos aspectos mais absurdos é que depois do atentado ele esteve nas ruas do bairro de Moabit, bairro vizinho do local do atentado. Imagens da câmeras da TV regional de Berlim, RBB, exibiram isto logo no dia seguinte do atentado. Além disso, Amri conseguiu viajar de trem, passar pela fronteira da Alemanha e adentrar na França e de lá, ir, de trem para a Itália, onde foi descoberto, por acaso, através um controle policial na rua de Sesto San Giovanni, localizada ao norte de Milão.

Um ano depois do atentado, o gosto é ainda mais amargo pela certeza de que o atentado poderia ter sido evitado, não tivesse polícia, por falta de recursos humanos na corporacao, parado de observar Amri.

Vida que segue…

Uma semana antes do triste aniversário, correspondentes estrangeiros em Berlim tiveram encontro com o pastor da Igreja da Memória, o advogado e representante jurídicos dos sobreviventes e vítimas e o chefe dos stands do Mercado de Natal. Esse representante discursava como se o atentado fosse igual a um outro ocorrido desagradável. Ao ser perguntado por mim se ele conta com redução de público no ano de 2017, ele, categórico, atestou: “Muitas pessoas vem agora aqui para mostrar que não se deixam intimidar”. Essa retórica é de uma pseudo-compaixão. Esse discurso de “agora mesmo é que a gente vai mostrar pra “eles”” é uma auto-mentira, é empurrar os medos e até mesmo pânico para debaixo do tapete. Ninguém, e agora muito menos em Berlim vai a um Mercado de Natal sem ter em mente as imagens que colaram na rotina de todos os que vivem na capital.

O Mercado de Natal ao redor da Igreja da Memória é, e sempre foi, um dos mais simplórios e mais de mal gosto em Berlim. Anos atrás íamos lá quando procurávamos inspiracão e ideias para presentes natalinos. Há muitos anos nunca mais fomos lá. Depois do atentado, então, ninguém me convence a passar nenhum minuto mais do que necessário ali naquela esquina. Hoje, por um feliz acaso e compromisso mundano como um horário na oculista, eu estive o tempo todo ao redor de uma parte da cidade que, pelo policiamento e tanques de água postados nas ruas, parecia uma cidade fanstasma e isso, até às 17 horas.

Durante a manhã de terca-feira até às 14 horas (horário local) a cerimônia era exclusiva para políticos, sobreviventes e parentes das vítimas. No preâmbulo da cerimônia, a imprensa berlinense criticou a postura do Senado de Berlim que convidou os atingidos pelo atentado, mas sem cobrir o valor das passagens. Vale lembrar que entre os mortos estavam pessoas de Israel, da Itália, entre outros países e cidades da Alemanha.

A falta de empatia de Merkel

Sobreviventes e parentes dos mortos criticam muito o distanciamento da chanceler. Apesar de Merkel ter tido estado no lugar do atentado logo um dia depois, isso não convenceu. Também a declaração de Merkel no início da tarde de terça-feira, não convence em conteúdo e fica devendo uma postura de quem realmente entendeu o que aconteceu em Berlim. Além disso, a chanceler está longe de alcançar os percalços (burocráticos, financeiros, administrativos e emocionais) que os sobreviventes ou parentes das vítimas tem que enfrentar.

Merkel declarou á imprensa:”Foi uma conversa muito aberta e da parte das pessoas com que conversei foi sem retoques que deixou claras as fraquezas do nosso Estado. Pra mim, e eu digo isso também em nome de todo o governo que nós temos que otimizar as coisas que não funcionaram bem”.

A cerimônia de hoje, o cercar de toda a parte do ex-centro de Berlim, a chamada City-West é só uma ponta de um Iceberg, um ato protocolar.

Decerto se é uma coisa que os alemães conseguem é adentrar num clima de luto que pode durar por muito tempo e ser muito profundo até sufocar. O outro lado, esse mais específico para os berlinenses, historicamente calejado com revoluções, motins, revolta, tenta argumentar com a retórica do “a vida que segue” e “não deixaremos esses muçulmanos radicais mudar as nossas vidas”. Essa retórica é ópera no ouvido dos promotores responsáveis pelos Mercados de Natal, que terão um aumento no número dos visitantes. Essa auto-mentira não ensina nada sobre o que aconteceu naquela noite do 19 de Dezembro de 2016.

O atentado não foi “somente” naquelas 12 vítimas e nem nos mais de 70 feridos. Foi numa cidade inteira e numa forma de viver. O fracasso do âmbito político em esclarecer o “Caso Amri” ainda mostra fracassos que poderiam ter sido evitados e um gosto amargo na boca e na alma de quem estava no Mercado de Natal naquela noite do inverno berlinense. A conta não fecha. E quem, ao visitar esses mercados, anseia pelo romantismo natalino de que o mundo é lindo e as pessoas se amam, irão se deparar com imensos blocos de concreto à beira do asfalto.

O que foi celebrado em Berlim no dia de hoje foi o luto e isso, de fato, é importante. Mas o cenário de uma cidade-fantasma com o tráfego todo interrompido e ruas com policiais armados até os dentes, exibe claramente que nada será como antes. Em Berlim.