“Belas, recatadas e do lar”: lindas garotas de Berlim

Fátima Lacerda

28 Abril 2016 | 19h41

Depois da Homestory feita pela revista VEJA com a possível candidata a Primeira-Dama ter pregado a “necessidade de ser bela, recatada e do lar”, Berlim, cidade que foi palco de revoluções, solo de atuação de Rosa Luxemburgo e tantas outras mulheres corajosas que semearam o caminho que nós hoje trilhamos com naturalidade, continua sendo solo de emancipação e construção de uma saudável autoestima, algo que as mulheres precisam em quantidade bem maior do que os homens.

Matéria como a da editora Abril não é surpresa num país onde existe a mulher melancia, a mulher pera e obssesão pela forma como instrumento de legitimidade e por isso, inúmeras vezes, em detrimento do conteúdo. A matéria engata a marcha ré de anos de luta de mulheres que vieram antes de nós, exacerba no pueríl quando comenta que o aspirante a presidente levou a amada “para jantar na sala especial do sofisticado, caro e badalado restaurante Antiquarius, em São Paulo” este que teria sido especialmente fechado para “Mar” e “Mi”.

http://veja.abril.com.br/noticia/brasil/bela-recatada-e-do-lar

A revista VEJA ultrapassou o nível (nivelando por baixo) da poderosa editora Axel Springer Verlag, aquela que publica o tabloide Bild que na época divulgou a separação do ex-chanceler Gerhard Schröder (1998-2005) de sua segunda esposa porque ela, vegetariana, “não fazia bife à milanela pra ele”. Segundo o tabloide, o então Ministro-Presidente da Baixa Saxônia, mas já de olho no cargo em Berlim, ficou envocado e saiu de casa. Foi também o Bild que mostrou a primeira foto de Schröder com aquela que viria ser a terceira esposa. Também a acompanhava nas idas ao supermercado para constatar se ela compraria carne para fazer o Schnitzel.

Matérias como a Home Story com a Sr. Temer colocam na cabeça de incontáveis jovens que o modus vivendi da Sr. Temer é algo a ser almejado, cultivado. Semelhante a isso é a política marqueteira da Rede Globo, intuindo que para se tornar um ser Global, um “ser superior” é preciso ter uma silhueta perfeita, cabelos encaracolados e estar sempre de bom humor como a Globeleza, a “morena brasileira tipo exportação” e que não é preciso nenhum caráter nem ética para ser famosa, global, vide exemplo de uma visivelmente bipolar Ana Paula, ex-Big Brother.

A Zona Sul do RJ está repleta de Patricinhas, mulheres que ainda acreditam na necessidade de serem apresentadas como Sra. + Sobrenome do marido e aquelas que dependem dele até mesmo para comprar um sanduíche. Quando alguém é apresentado pelo nome de outro, arranca-se da mulher toda a sua subjetividade, toda a sua identidade que passa a ser a do marido. E as fotos provocantes postadas por Milena Santos, a Miss Miami 2013 dentro do gabinete de seu marido, que acaba de ser empossado pela presidenta Dilma Rousseff para preencher a cratera deixada pelo PMDB num governo à deriva, não „só“ ratifica o circo de proporções tragicômicas que presenciamos durante 8 horas de votação do Impeachment na Câmara dos Deputados, mas também frivoliza, esculacha, banaliza os órgãos públicos como também os eleitores, além de praticar a apologia a alienação, desestrutura aquilo que a política deveria ser.

Quando a carreira política é instrumentalisda para que se tenha uma sala de gabinete, bolsa de grife e um up no status social que passa a ser “esposa” do ministro”, o desdobramento disso só pode resultar em alienação ou na decisão em seguir a premissa da figura da literatura infantil mundial da escritora suéca, Astrid Lindgren: Pipi Meia Longa é aquela que desenha o mundo do jeito que lhe apetece.

Solo revolucionário

Berlim, cidade de tradição proletária, provida de um caldeirão cultural nos chamados “Anos Dourados”, solo propício para todo o tipo de emancipação é o antagonismo de uma burguesia vampirística, como mostra, de forma brilhante o filme “Que horas ela volta?, com a global Regina Casé no papel de Val.

Enquanto em famílias de classe média no Brasil, crianças de 6 anos ainda são alimentadas pela mãe com um sanduíche enquanto sentadas no sofá vendo televisão, crianças berlinenses já arrumam seus quartos depois de brincar, ajudam nos afazeres da casa. Em suma: são criadas para serem pessoas independentes. Eventualmente há também exageros, quando a criança é injetada numa seriedade exagerada que torna impossível o “luxo” de deixá-la ser criança, algo que ela vai querer recuperar na vida adulta, mas isso não é a regra.

Nesses dias de insanidade pela retórica do belarecatadaedolar, me diverti muito com reação de mulheres brasileiras vinculadas nas redes sociais. Foram reações das mais variadas. Uma das melhores foi da atriz protagonista de “Salve Jorge”,  Nanda Costa.

Fim de tarde

Foi numa dessas sextas-feiras em que você só pensa em chegar em casa, avistei um grupo de garotas dançando no parque perto da minha casa, o Gleisdreieck Park, uma área verde imensa para todo o tipo de atividade ao céu aberto.

Mochilas, casacos (a primavera ainda não chegou) e celulares estavam espalhados pela grama. Vi que se tratava de um grupo de 7. Me aproximei e perguntei se elas formavam um grupo de dança. “Sim”, acompanhado de um olhar arregalado, foi a resposta. Logo logo duas componentes do grupo se afastaram. Descobriram que tinha um cara tirando fotos sem permissão. Enquanto eu explicava para uma parte do grupo, a minha intenção de fazer um artigo sobre o grupo de meninas, artigo esse que seria publicado tanto na imprensa berlinense, como na imprensa brasileira, duas outras foram tirar satisfação com o homem. Quando voltaram, eu perguntei: “Resolveram? Senão eu mesma vou lá”. Pia, com seus 14 anos a mais nova do grupo disse em voz resoluta: “Nós demos um esporro nele”. Pela certeza na voz, via que minha intervenção seria totalmente desnecessária. Essas garotas de Berlim não tem papas na língua, não são de rodeios. Vão direto ao assunto e isso se estende pela vida adulta, por vezes até de uma forma rude, bem a cara das garotas de Berlim. Mas as garotas de Berlim, Dicko, Jenny, Joela, Julia, Melissa, Pia e Uta, essa última, já na casa dos 30 é uma espécie de coordenadora e fonte de todo o tipo de infos.

O Grupo

O que eu chamaria de uma unidade se formou através de um curso que acontece na Academia de Dança Flying Steps nas sextas-feiras exatamente com o intuito de formar novas gerações das chamadas B-Girls, como são chamadas as meninas que dançam Break Dance. Essa turma de sexta-feira é unicamente para meninas já que a academia vê essa safra de dançarinas de Break Dance, em extintivo.

“Como as pessoas reagem as performances de vocês?” eu quis saber: “Uuhhhhhhhuuu”, foi o grito uníssono na roda. “Eles nos celebram ainda mais do que os grupos dos garotos”. “E como é quando vocês se apresentam logo depois de um grupo de garotos?”. “É super cool”, diz Joela, uma magrela e alta e que já decidiu ser dançaria profissional. Dicko, afrodescendente e que fala um alemão sem nenhum sotaque, também já escolheu sua profissão. “E os pais de vocês, o que acham disso?”, disse eu jogando a pergunta na roda. Depois de alguns segundos de hesitação, Dicko mandou: “Meus pais me apoiariam. Eles não são do tipo que ficam me enchendo o saco dizendo que eu tenho que aprender algo que preste”. Outra do grupo também confirma o apoio dos pais. Com um grupo de 7 meninas falando ininterruptamente e, muitas vezes, ao mesmo tempo, é preciso recorrer à memória. Não há estenografia que de conta!

Aprender a testar limites

Durante as conversas sobre coreografia, dia e hora do próximo ensaio, vão se testando limites. Há as mais dominantes, as que vão com a decisão do grupo e aquelas que não param de falar até que sua ideia seja aceita. Um caos linguístico, mas que no final tem um denominador comum como resultado e as meninas gostam do que fazem. É paixão, intensidade sem medo de ser feliz. Ao constatar que tinha comigo o meu Tablet (depois de muitas horas de concentração na sexta-feira final da tarde pode dar um Black out) fiquei feliz por poder fazer um vídeo sobre a coreografia que elas ensaiavam para homenagear o professor Samir que em breve faz aniversário. Um vídeo foi o oficial da coreografia. O outro foi deixando a câmera rola, mostra o Work in Progress propriamente dito.

Uta fazia pressão para terminar a entrevista. O vídeo tinha que ser feito da maneira berlinense. Pra ontem. Agora agora….

Ocupar o espaço físico

Assim como no centro do Rio de Janeiro, mais propriamente na Rua 20 de Abril, ali pertinho da Gafieira Elite e da Faculdade de Direito da UFRJ, a Escola Técnica Martins Pena, de tradição centenária, faz história das Artes Cênicas espeicalmente no contexto da Oficina Libre coordenado e dirigido pelo multitasker ator, produtor, diretor e professor, Anselmo Vasconcelos. Semanalmente o grupo faz intervenção urbana seja ela em frente a Alerj contra o prefeito Eduardo Paes e o corte dos custos no setor da educação, seja ratificando a greve da instituição como aconteceu no dia 08/03 no centro do Rio (Veja link abaixo).

Do outro lado do oceano, as linda Garotas de Berlim Kreuzberg, caldeirão político-social cultural, também tomam posse do espaço físico, esse, há poucos metros do centro turístico e comercial de Potsdamer Platz, ou seja, o centro de Berlim. Sem medo de ser feliz e com uma pitada de zoeira quando rapazes passam pela turma durante a gravação do vídeo. 

Com o estouro da crise dos refugiados e um milhão deles tendo já adentrado a Alemanha, as forças populistas de direita retiraram do baú a cartilha xenofóbica, cultivando a aversão a tudo aquilo que não conhecem. Porém, Kreuzberg é solo intrínseco de miscigenação e eferverscência cultural desde os tempos em que Berlim gozava do status de uma ilha, desde o movimento de ocupação de casas que iniciou no final dos anos ’70.

Quem disse que garotas descendentes de estrangeiros, como Julia, filha de poloneses e que chegou em Berlim com 8 anos não pode falar um alemão sem sotaque e ratificar o que diz o baiano Caetano: “Minha Pátria é minha língua“. Para a inclusão social verdadeira, não aquela de mentirinha, só mesmo com o domínio da língua. Ainda mais num país hermético como a Alemanha que até hoje mantém um mercado poderosíssimo de dublagem de filmes para a língua de Schiller e Goethe.

Quem fala berlinês?

Fiquei intrigada pela falta de qualquer sotaque do dialeto berlinense no idioma falado pelas dançarinas. “Acho que só gente mais velha é que fala esse dialeto”. Risadas homéricas na roda. “Momento. Eu falo berlinense quando estou zangada. Será que estou ficando velha?”. Um sorriso sem graça. Isso também é resposta.

Essas lindas garotas de Berlim já ocupam seus espaços: o físico e o na sociedade também. Quem disse que a integração em forma de inclusão não da certo? Claro que a família também precisa determinar os alicerces, mas é useiro e vezeiro em Berlim que meninas não ficam na fila de trás dos garotos. Até mesmo a chanceler Merkel é anfitriã uma vez por ano de um encontro de meninas que acontece na chancelaria federal. Num contato com empresas técnicas as garotas e jovens mulheres são apresentadas a profissões de domínio masculino. Com esse encontro anual, a chanceler que atuar como incentivadora. Merkel, Dr. em Física, um setor também predominantemente masculino.

Na quinta-feira (28) a TV regional de Berlim, RBB, recebeu 25 jovens mulheres em sua emissora. A elas foram apresentados várias profissões no âmbito técnico, também para incentivá-las em segui-las.

Em Berlim, nem mesmo na Alemanha, a revista Veja conseguiria angariar um número considerável de leitoras. Nas terras daqui, as mulheres se não são bonitas, são recatadas e nadinha do lar.

Veja aqui o artigo* de minha autoria sobre as “Garotas de Berlim” publicado no portal Inberlin que contém um foco diferente do publicado em língua brasileira.

http://blog.inberlin.de/2016/04/break-dance-b-girls-itten-in-berlin/

O artigo publicado em alemão tem um foco diferente do dado ao artigo em português. Na realidade, foi a Home Story da revista Veja que me inspirou a fazer essa matéria aqui para o Blog.

https://www.youtube.com/watch?v=_1lw0mwAoC4

https://www.youtube.com/watch?v=peG996dyaMg

https://www.youtube.com/watch?v=9KJzUO_ULwc