Berlim amanhece afogada na maior crise política dos últimos anos e inicia o começo do fim de Angela Merkel

Berlim amanhece afogada na maior crise política dos últimos anos e inicia o começo do fim de Angela Merkel

Fátima Lacerda

20 Novembro 2017 | 11h25

  ©Bernd von Jutrczenka/dpa

O que há de comum entre David Cameron e Angela Merkel? Um crasso erro de cálculo. Enquanto no Reino Unido, o erro de cálculos mergulhou o país numa crise de identidade e numa história sem fim em torno do BREXIT, na Alemanha o erro crasso de Merkel faz a maior economia da Europa sucumbir no caos político que implica a falta de um governo estável nos próximos meses.

Erro crasso

Há quatro semanas foram iniciados as denominadas “Conversas de Sondagem” entre os quatro partidos, designados pela vontade dos eleitores,a formarem um novo governo. Uma tarefa de Hércules, unir numa só sala os bávaros, do CSU, unha e carne com a indústria automobilística e o lobismo protagonizado por ela com os Verdes, que escreveram na carteirinha que é preciso deixar, em definitivo, e erradicar do país a produção de carvão, algo sublinhado na recente Conferência do Meio Ambiente em Bonn, a antiga capital do país.

© Reuters

Na roda de sondagens havia também o FDP, os Liberais Democratas que queriam, de todo o jeito, eliminar o chamado “Soli Zuschlag” (Sobretaxa de solidariedade, em tradução livre) que vigora desde a Unificação em 1990. Na prática, as regiões mais ricas com a Baviera, por exemplo, transferem verbas para infraestrutura das regiões do Leste, como a Saxônia, da qual a capital é a cidade de Leipzig.

Merkel, que durante as quatro semanas se fez invisível, só aparecendo frente às câmeras ao chegar de carro ao local das sondagens (que ela volta e meia, num lapso freudiano denominava de “negociações” que seriam o próximo passo). “Onde está Merkel?” perguntava o vasto arsenal da imprensa alemã.

Durante as sondagens incluindo fotos da varanda com os participantes no melhor estilo monarca, Merkel deixou as rédias das sondagens com o CSU, o partido bávaro. Merkel precisava de uma União forte para tentar intimidar os menores partidos e por sentir a erosao do seu poder dentro do país. A vertiginosa perda de eleitores do CDU (500.000) para o partido de extrema-direita, AfD exibe isso muito claramente.

Os Liberais tinham chegaram às sondagens com na frente dos Verdes, de acordo com a preferência do eleitorado e assim, se é que contabiliza o tanto de capital político e quem pode opinar sobre o que e com quanta teimosia ou veemência.

Deixando os bávaros tomarem as rédias, Merkel foi degradada à coadjuvante ou até mesmo à uma relis expectadora.

©Maurizio Gambarini

Xadrez político

Seehofer é (ainda) o Ministro Presidente da Baviera, porém em âmbito interno do partido, já vai de vento em popa a estratégia para “desovar” a carniça que ninguém mais quer. Os da “segunda fila”, assim denomina o jargão político já se colocam em posição. Porém Seehofer precisa de uma prorrogação até o outono de 2018 para sair de cabeça erguida e não ser “desovado” antes. Para isso, mandou ao ringue o Dobrindt (foto), que apostou todas as cartas de uma vez só bloqueando de forma irresponsável, egoísta e infame o andamento das conversas de sondagens.

As más-línguas já especulavam se Seehofer ainda manda alguma coisa no partido que, para evitar a deriva em solos bávaros, apostou em todas as cartas no âmbito federal e jogou tudo no ventilador enquanto Merkel só avistava da arquibancada a degola política do ápis que ela, ao tomar posse, jurou “proteger de danos”.

O dia de domingo foi de um suspense para Hitchcock nenhum botar defeito. Até o final da noite, parecia que, mesmo difíceis, as sondagens teriam um final favorável que divulgado durante a madrugada. O prazo já havia sido “corrigido” várias vezes até que chegou ao ponto em que ninguém mais ousava em citar alguma janela temporária.

Programas de TV na noite de domingo especulavam sobre a pergunta das perguntas na Alemanha e isso em todos os âmbitos da vida profissional, política e privada: “Quem é o culpado?” por essas sondagens terem chegado a esse ponto. E quando você pensa que a situação não pode melhorar ou vai na onda do Candinho, personagem da novela “Eta, mundo bom!” que cantava: “Tudo de ruim que acontece na vida da gente, é pra melhorar!”, fosse percebe que desde aquela manha de sexta-feira, quando foi divulgado o resultado do BREXIT, e da manha e uma quarta-feira quando foi anunciado o resultado das eleições dos EUA você constata, para valer, que nada será como antes. Até mesmo uma país como a Alemanha, que até agora era exemplo de estabilidade política num solo convulsivo no continente europeu, caiu na desgraça. Não apesar de Merkel, mas exatamente por causa dela e de sua crônica prática de Laissez-faire somada à uma pérfida prática de vista grossa.  Essa, somada à passividade de uma síndrome de Estocolmo com o CSU da Bavaria durou tempo demais e a corda foi quebrar na hora em que a Alemanha e seus políticos de alto escalão teriam que abdicar de vaidades pessoais, da crônica neurose por holofotes, dogmas partidários defendidos cocmo acima do bem e do mal e tecer os próximos quatro anos do país que tem imensas pendências e imensos desafios pela frente: aspectos sociais como a ameaça de pobreza na velhice, o aumento do salário mínimo, regulamentar o fim da produção de energia de carbono, a digitalização das cidades do interior, o regulamento de leis de imigração e tantos outros desafios. 

A complexidade do pós-globalizado exige dos políticos uma flexibilidade sem precedentes. Os quatro partidos, digo, seus negociadores não tiveram a grandeza, a responsabilidade e o comedimento de, pleno menos, delinear as medidas que tem que ser tomadas na Alemanha. Os Liberais, depois de quatro anos ausentes do parlamento, se mostram incapazes de encarar a responsabilidade de governar.

©DPA

Os Democratas Liberais (FDP)

Christian Lindner, um tipo de George Clooney da política alemã jogou a toalha nos últimos minutos da noite de domingo. “É melhor não governar ao governar errado. Algumas das medias planejadas nós consideramos prejudicial ao país “, declarou ele no final da noite em frente aos membros da diretoria do partido alegando também que “faltou confiança” entre os envolvidos nas sondagens.

As más-línguas, como a do diretor do partido Verde, Cem Özdemir acusa Lindner até mesmo de ter planejado essa saída à francesa, desde o início da manhã de domingo.

O jornalista Heribert Prantl, do jornal Süddeutsche Zeitung, fez críticas ferrenhas ao diretor do partido Liberal Democrata: “O FDP fugiu da responsabilidade porque esperar melhores resultados em caso de novas eleições”.

©Jutrczenka/dpa

Na manhã cinzenta de uma segunda-feira de novembro, o mês da depressão, não “somente” o Borussia Dortmund foi chutado para o quinto lugar da tabela da Bundesliga, Lindner não fica bem na foto da imprensa. Porém, fora o tabloide Bild, todos sabem que o chefe dos Liberais perdeu a paciência em ficar de fora do protagonismo encenado pels Bávaros que alimentam, desde geracoes, um ódio pelos Verdes. Mas esse ódio, não é só de forte caráter emocional e muito antigo. Ele tem sérios motivos partidários. Os Bávaros tem páura de que, seus temas-chave sejam “roubados” pelos Verdes e que, a longo prazo, lhes possa custar um monte de votos em âmbito federal. Ou seja, o estrategismo foi longe demais, estrapolou a paciência de quase todos e os Liberais jogaram a toalha: Por motivos partidários, oportunistas e matemáticos.

© DPA

A conta não fechou

Na hora de divulgar o fracasso das sondagens, apareceu a margarida. Merkel, nas primeiras horas da manha de segunda-feira. Atrás dela um arsenal de membros da diretoria do partido assim como Chefes de Governo em âmbito regional. Com cara de enterro, Merkel fez aquilo que sempre faz. Lamentou e louvou o trabalho do seu partido, o CDU, durante as sondagens. Merkel declarou: “Na segunda-feira eu irei contactar o Presidente. Irei lhe explicar a situação. Como chanceler em comissariado, eu irei saber conduzir o país por esse momento difícil”. Em tom de lamúria, Merkel acrescentou que o momento exige “reflexão”, mostrando claramente que, para ela, a ficha ainda não caiu.

©Michael Kappeler (dpa)

Pouco antes da publicação desse artigo, às 13:30 horário local, a chanceler havia conversado com o presidente Steinmeier, que fará um pronunciamento sobre a situação do país, às 14:30 horas (11:30 hs no horário de Brasília).

Reações da imprensa internacional

O jornal Neue Zürcher Zeitung atesta: “O sistema Merkel fracassou. A chanceler não consegue mais avançar fazendo uso de diplomacia silenciosa e pragmatismo político. O país deve seguir novos caminhos”.

O francês “Le Figaro”: “Só existe uma solução. A médio prazo a convocação de eleições”.

O inglês “The Guardian” questiona se Merkel ainda possui “poder suficiente para conduzir um governo estável”.