Berlim homenageia Chelsea Manning no dia de sua saída da prisão

Berlim homenageia Chelsea Manning no dia de sua saída da prisão

Fátima Lacerda

18 Maio 2017 | 08h04

No mesmo local, onde durante a Guerra Fria, forças militares americanas ficavam frente a frente com as soviéticas na iminência da III Guerra Mundial estourar, Berlim homenageia o Whistleblower no dia de sua saída da prisão possível através do ex-presidente Barack Obama, poucos dias antes de deixar o governo. A militar transgênera Chelsea Elizabeth Manning havia sido condenada a 35 anos de prisão.

Dias antes de Obama tornar pública a medida, através do seu Twitter, o também o Whistleblower Edward Snowden que permanece tolerado na Rússia, escreveu para Obama: “Sr. Presidente, só o Sr. pode salvar a vida dela” (Chelsea). Ser transgênera numa prisão masculina nos EUA ou em qualquer lugar do mundo. O inferno não é nada comparado a isso.

Nas primeiras horas de quarta-feira (16) Chelsea deixava a prisão de Kansas’ Fort Leavenworth depois de ter cumprido 7 anos da pena.

Consciência política


Instigante e interessante como se conseguiu subir num poste altíssimo, que fica localizado no ex-ponto de controle mais contundente e mais famoso da Berlim dividida: “Checkpoint Charlie” esquina com a Rua Friedrichstraße e na Zimmerstraße. Esse lugar se tornou um ponto turístico de tal dimensão, que acabou virando uma caricatura do que sobrou da Guerra Fria.

Os rapazes vestidos com uniformes das forças americanas e soviéticas e que exigem um euro para uma foto em lugar de tal importância história, decerto, não eram nem nascidos quando o muro caiu e tudo virou muito Hollywood. 

O que restou de sumo da época da Guerra Fria foi a casinha branca onde ficavam os soldados americano e que foi eleita patrimônio histórico depois do fim da Guerra Fria, quando a Alemanha reconquistou sua soberania.

Os dois altíssimos postes nas laterais da casinha que mais parece um contêiner, homenageiam um soldado americano e outro soviético. Na tarde de quarta-feira, porém, ao invés do soviético, via-se uma foto de Edward Manning, com uma expressão de orgulho vestindo o uniforme de militar com a bandeira dos EUA no fundo.

Berlim tem inúmeros defeitos, mas são em momentos como esses que é impossível não se sentir estar no lugar mais certo do mundo, vivendo numa cidade de consciência política e que nunca não dorme no ponto, numa cidade que honra a sua história e tradição de solo político sempre convulsivo, palco de motins, do capítulo mais brutal da história mundial, revoluções com um Karl-Liebknecht em 1918 proclamando o fim da monarquia da varanda do Palácio de Berlim, do qual a fachada vem sendo reconstruída em centro cultural que se chamará Humbold Forum.

A democracia é pra todos

No jardim da Chancelaria Federal, onde na última segunda-feira (15) o Presidente francês foi recebido, na tarde de quarta-feira (16) membros de movimentos de extrema-direita, como o PEGIDA se plantaram em frente ao portão exibindo cartazes “Merkel muß weg” (Merkel tem que sair). Logo ali do lado e devidamente separado pela polícia que se mantinha em observação, aproximadamente 10 autônomos gritando palavras de ordem: “A Alemanha tem que sucumbir!”. Isso é Berlim: solo político, democrático e como mostra a homenagem a Chelsea Manning, não esqueceu a homenagem a uma heroína do nosso tempo. Pode-se estar de acordo ou não com a atividade de Whistleblower, mas a sua coragem merece e sua capacidade de superação merecem, no mínimo, respeito e reconhecimento e esse dever de casa, Berlim cumpriu com firmeza prussiana.

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