Berlinale 2018: cartazes anunciam a chegada dos ursos

Berlinale 2018: cartazes anunciam a chegada dos ursos

Fátima Lacerda

22 Dezembro 2017 | 12h31

© Berlinale

O dia de escuridão mais longa do ano no hemisfério norte é o dia 21 de dezembro. Nesse dia foi divulgado o cartaz do próximo Festival de Cinema de Berlim, o maior evento cultural da Alemanha. (15. – 25.02.2018). A partir de 22 de janeiro, os ursos serão parte do cenário urbano da capital.

Desta vez, os autores se superaram. Enquanto nos últimos anos, a reação ao ver o cartaz era “Na ja“, o que em alemão significa “não fede nem cheira”, neste ano, fiquei encantada com os motivos e com a sofisticação gráfica e como no cartaz acima, o tom rosa contrapondo com a postura determinada de “Qual é?,do urso com a torre de TV da ex-parte ocidental, ao fundo. Isso mesmo. Berlim não é lugar para quem tem nervos fracos.

© Berlinale

Cenário urbano

O urso da Berlinale e símbolo da cidade toma espaço físico em lugares que funcionam como chamativo da cidade como lugares que suscintam um Understatement. De um lado uma birosca que vende comida chinesa (Imbiss, em alemão), e claro, fechada para o urso esfoeado. Do outro, o urso no topo do “Relógio com a hora do mundo” (Weltzeituhr) monumento outrora em solos orientais  que dava aos berlinenses, sob o regime autoritário, um intervalo em sua crônica isolação política e geográfica. Na época da Cortina de Ferro, esse lugar era o lugar para ver e ser visto, um lugar para inalar um pouco de internacionalidade, já que para turistas, esta era uma das poucas atracões da cidade cinzenta e austera.

© Berlinale

Muito mais do que a torre de TV, construída em 1969. As diferentes horas no mundo tinham valor muito mais simbólico do que, primeiramente, parecia. Esses dois lugares são ao redor de Alexanderplatz, o centro nevrálgico e um dos lugares mais insuportáveis e perigosos de Berlim, porém, vindo à capital, seria um sacrilégio não passar por ali. Em poucos lugares é possível perceber a cidade de forma tão visceral, agressiva, incontida, brega com pessoas correndo com muita pressa, sem ao certo, saberem para onde. Em Alexanderplatz, não há tempo nem lugar para delongas.

© Berlinale

Filme & Historia & Artes

O outro Point onde o urso passa o pente fino é no Portão de Brandemburgo, ao lado da Quadriga, onde reina soberana Irene, a deusa grega da paz que é puxada por 4 cavalos. O monumento de maior peso histórico de Berlim e que antes da Guerra Fria era o portão mais famoso da cidade cheia de portões como demarcação de vilarejos foi construído entre 1789 e 1791, pelo arquiteto Carl Gotthard Langhans, de acordo com as ordens do rei prussiano Frederico Guilherme II.

O pintor Max Lieberman, que tinha seu ateliê na Praça Paris (Pariser Platz), que cerca o portão, quando passava as coordenadas para quem iria visitá-lo, informava: “Quando você entrar em Berlim (através do portão) é logo a direita”. No lugar do ex-ateliê de Liebermann, hoje é lugar de exposição permanente de suas obras.

©Arquivo Federal/Bundesarchiv

Napoleão e a Prússia

Em suas viagens pela Europa, o imperador da França, Napoleão Bonaparte  saia roubando monumentos, que levava para Paris para enriquecer seu arquivo. Com a Quadriga não foi diferente. Com a derrota da Prússia, em  27 de outubro de 1806, Napoleão, acompanhado de suas tropas, atravessou o portão e recebeu as chaves da cidade.

©Arquivo Federal/Bundesarchiv

Aproveitando o momento prestígio, ele roubou a Quadriga, que foi empacotada em 12 caixotes para a França. Somente 8 anos depois (1814), ela voltaria a Berlim. Porém, o original descansa nos porões da Fundação do Patrimônio Cultural Prussiano (StiftungPreußischerKulturbesitz, em alemão). O que se vê em cima do portão é uma réplica, o que poucos sabem. Mas para o urso da Berlinale isso é totalmente irrelevante. Anteriormente, a deusa grega olhava para a área mais verde de Berlim, o jardim Tiergarten. Durante o período da Guerra Fria, em que todo o portão ficava em terreno soviético e era vigiado por policiais da Alemanha Oriental, os magnatas de Moscou decidiram virar a deusa para o lado oriental da cidade, com vista para para prestigiosa Alameda Unter den Linden.

© Berlinale

Luxo imobiliário 

Um outro cartaz mostra o urso na piscina rodeada de coquetéis num apartamento de cobertura de luxo, a céu aberto durante o mês de fevereiro (!!!), o mês mais frio do ano. Para ursos, nenhum problema. A excentricidade e seus protagonistas também tem seu lugar no festival. Em festas, em banquetes. O luxo que suscinta o cartaz terá, decerto, seus admiradores.  Nesta hora ninguém quer mencionar que Berlim sofre com a crônica falta de moradia e vive em  avançado estágio de Darling da especulação imobiliária e gentrificação, fenômeno este que faz pessoas terem que mudar para bairros mais afastados, por não terem condição de pagar aluguéis de valores astronômicos.

A Berlinale, como o maior festival de público do mundo é para todos. Os elitistas, os estudantes, os exêtricos, os aposentados, heterogênos na classe social, mas unidos em amor ao filme. Essa diversidade e também divergência, o consenso e o dissenso é coerentemente exibido nos motivos dos cartazes, já que espelha a vida real como ela é nos outros 355 dias do ano.

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