Berlinale: Coletiva de Imprensa no Zeitgeist do #MeToo

Berlinale: Coletiva de Imprensa no Zeitgeist do #MeToo

Fátima Lacerda

06 Fevereiro 2018 | 17h43

Na manhã de inverno ensolarada mas com o termômetro exibindo uma temperatura de zero graus, a equipe da Berlinale se apresentou para a imprensa. Desta vez, porém, em novo formato. Acabou o tempo em que diretores de mostras ficavam sentados nas cadeiras ouvindo o diretor tecer seu monólogo e amargurando uma atuação de ponta. Desta vez o chefe, Dieter Kosslick angariou o papel oficial de anfitrião” enquanto a grande equipe sentava na segunda fila no local lotado de jornalistas. Vale mencionar que este é o penúltimo festival dirigido por Kosslick. 2019 será seu último ano e uma comissão independente deverá escolher seu sucessor até o próximo verão (junho, julho).

Para mostrar serviço logo de início, Dieter Kosslick, cada vez menos brincalhão (segundo ele, devido a “proibição” de seu assessor direto) já foi avisando que (na carona do #MeToo) a Berlinale apoiará uma iniciativa chamada #Speak Up. Segundo o budista declarado e adepto do movimento Slow Food, a ideia é apresentar a iniciativa no contexto do festival que a apoia explicitamente. Ou seja, esta foi a maneira que a Berlinale encontrou para não perder o trem do Zeitgeist, no qual as mulheres se tornaram protagonistas das suas próprias histórias, exibem suas feridas, suas cicatrizes. A Berlinale, como um festival essecialmente político, não poderia fazer vista grossa como outros setores como moda e formatos mais do que requentados de TV na Alemanha. Na cerimônia de Gala do “Prêmio da TV alemã” não houve uma linha do script que se expressasse no que se passa na indústria de entretenimento em todo o mundo.


O festival também irá oferecer um serviço extra em forma de uma linha telefônica gratuita para queixas de vítimas da área do cinema ou para quem se sente assediada durante o festival. Além disso, a ideia é terminar o festival apresentando um manifesto assinado por Daniela Elsner e mulheres expoentes no setor.

Agora, além de #MeToo, #Time is Up, (vide Cerimônia de Gala do Golden Globes), Berlim embarca no #Speak Up que terá sua homenagem online no dia 15, dia do início da Berlinale com um filme de Wes Anderson. Um Vale a Pena Ver de Novo. Em 2014 o filme de abertura foi “Hotel Budapest”.

Coisa de mulher…

Decerto que jornalistas homens não veem a hora de um tema como esse ter fim, mesmo que seja abordado de forma super breve como na coletiva na manhã de terça-feira (06).

A iniciativa da Berlinale é um resultado natural, desde o efeito dominó ainda causado pelos inúmeros casos em volta do produtor Harvey Weinstein. A mais recente declaração foi da atriz Uma Thurman, depois de muitos anos de silêncio. Nas últimas semanas, o diretor de TV e séries, Dieter Wedel teve uma avalanche de denúncias de atrizes alemães que se calaram mais de 30 anos. A percepção #Mexeu com uma mexeu com todas chegou, finalmente, de um jeito bem tortuoso, mas chegou.

A “linha vermelha”

Os jornalistas alemães tem sempre a necessidade e a ânsia de rótulos. Todos os anos se questiona qual seria a “linha vermelha” que se estende por todas as mostras do festival. Desta vez, a carruagem vai por outro caminho, como tudo não parece mais ser como antes.

Segundo Dieter Kosslick, não há a tal “linha vermelha” (Roter Faden). A essa “novidade”ele atribui à insana “dinâmica dos fatos” que acontecem no mundo. Outrora, nesse mesmo lugar onde aconteceu a coletiva hoje, ele já declarara: “O Cinema nos mostra o que acontece no mundo”. Essa premissa continua valendo, mas a dinâmica nos obriga à flexibilidade assim como abdicar dos rótulos.

Uma jornalista perguntou se “a magreza” de filmes dos EUA teria a ver com o atual presidente Donald Trump. Dieter Kosslick sorriu como quem nada gostou da pergunta e seria um bobo da corte se dissesse que sim. Ao contrário. Ele saiu na diplomacia que cada vez aumenta mais quanto mais chega a hora de passar o bastão: “Há tempos atrás eu tive exatamente que ouvir críticas que haviam muitos filmes americanos na mostra competitiva”.

©Berlinale

O moral da história, digo,das histórias é que existem muitos tópicos: um dos citados por Kosslick foi “Coragem cívica”. Na mostra dos curtas-metragens (Berlinale Shorts), haverá uma homenagem ao revolucionário ano de 1968 com o lema “Linha vermelha para todos”. Em outros filmes, especialmente com excelentes cineastas portugueses representados na mostra de Curtas, segundo a curadora Mike Mia Höhne a “linha vermelha” é “a capacidade de contar histórias do século XXI e de maneira muito livre”. Uma outra forma de contar histórias é o filme “Unicórnio” dirigido por Eduardo Nunes e com a fenomenal Patrícia Pillar, como protagonista.

©Berlinale

Outra “linha”(mas não vermelha) são filmes que mostram retratos da vida de músicos. E para as jovens mulheres isso vem embrulhado como um presente.

O cantor Ed Sheeran será protagonista de um filme documentário “The Songwriter” feito por seu primo, que o acompanha durante o seu processo de criação e será exibido na Mostra Panorama Special. Se o campeão de downloads do Spotify, contabilizando 47 milhões de arquivos retirados da prateleira digital, estará desfilando ao longo do tapete vermelho, não se sabe ainda ao certo. “Eu gostaria que ele viesse“, disse Kosslick abaixando o tom da voz, como quem faz um pedido, como quem manda um aviso a quem possa interessar.

©Berlinale

De última hora

Como último filme anunciado que fará parte da mostra competitiva é o do diretor norueguês Erik Poppe e tematiza, sob o prisma das vítimas, o fatídico dia 22 de julho de 2011, um duplo atentado em Oslo e na ilha de Utoya, na Noruega. O massacre foi planejado e executado por Anders Behring Breivik, terrorista cristão da extrema-direita

©Berlinale

José Padilha de volta

 O vencedor do Urso de Ouro com “Tropa de Elite” em 2008, está radicado nos EUA. Ele volta a Berlim com uma co-produção Inglaterra/EUA e que tem o ator alemão Daniel Brühl (Adeus Lenin) no papel principal. Mesmo fazendo parte da lista de filmes da competição, Padilha não concorre aos ursos.

©Berlinale

Estrelas anunciadas para desfilar ao longo do tapete vermelho:

Entre as estrelas anunciadas na manha gélida de terça-feira estão:

Isabelense Huppert (marca ponto quase todos os anos em Berlim)

Robert Pattinson

Joachim Phoenix

Emily Watson

Gael Garcia Bernal

Greta Gerwig

Sandrar Hüller (Toni Erdmann)

Peter Simonischeck (Toni Erdmann)

A lista de estrelas já foi bem mais relevante em termos de Glamour em anos anteriores. Mas a Berlinale não seria autêntica se visse uma relação estreita entre o sucesso de público e o número de estrelas de Hollywood desfilando pelo tapete vermelho no principal cinema do festival, o Berlinale Palast.