Berlinale: meus filmes prediletos da mostra competitiva

Berlinale: meus filmes prediletos da mostra competitiva

Fátima Lacerda

24 Fevereiro 2017 | 16h38

  1. “The Party”, Sally Potter

Um grupo de intelectuais ingleses se encontram para comemorar a nomeação de Jane como Ministra da Saúde no próximo governo do partido The Labour. Jane é vivida pela atriz franco-britânica Kristin Scott Thomas que da à personagem toda a idiocincrasia que um ser humano pode acolher incluindo um final totalmente chocante e inesperado.

201715091_6©Berlinale

Amigos e parentes se encontram num apartamento da burguesia de Londres para comemorar. O celular que Jane coloca escondido no sutiã não para de tocar e simboliza o termômetro pelo sucesso adquirido arduamente com o apoio de Bill, seu marido que decide fazer um “anúncio” que irá mudar todo o rumo da história. 

201715091_4©Berlinale

Intencionalmente, a diretora se decidiu pelo menos é mais. Por um espaço físico extremamente limitado “para que as personagens pudessem aflorar completamente”, declarou Potter na coletiva de imprensa depois da exibição do filme para a imprensa internacional.

Não fosse o filme um verdadeiro deleite e instigantemente atual, vide BREXIT, a presença do ator alemão Bruno Ganz (The Downfall) já valeria a pena. Bruno, alias, Gottfried aparece na tela como curandeiro, exotérico, o Zen entre os intelectuais sempre preocupados em serem políticos ou em salvarem a “democracia parlamentar” de uma “Inglaterra quebrada”, como declarou Potter. O melhor de tudo é que todos os diálogos de Bruno foram escritos em inglês, mas com a gramática da língua alemã. Quando Bill (Timothy Spall) cai duro no centro da sala e Gottfried tenta reanimá-lo com música da vitrola, mas sem sucesso, depois de muitos sentidos minutos e com Bill ainda desacordado enão tendo reagido bem à música de Beethoven que vinha da vitrola, Gottfried declara: “Isso não é uma situação boa”, o que é a tradução incontestável da língua alemã. Nenhum inglês se expressaria desta forma. Bruno Ganz: como não poderia ser diferente: Brilhante, Hilário, como Gottfried uma pitada de sal num banquete cinematográfico que é este filme.

Um casal de lésbicas, ousando em atropelar a comemoração de Jane que, querendo comprovar ser boa dona de casa não sai da cozinha preparando iguarias, quer anunciar a chegada de trigêmeos. Nessa hora é que atriz americana Patricia Clarkson, exímia no papel de “April”, abrindo o champagne, diz aquilo de mais politicamente incorreto nos dias de hoje: seja no Brasil, na Inglaterra ou na Alemanha: “Crianças, me desculpem, nascem em milhões diariamente, comprometendo inclusive a existência do planeta e do nosso futuro”. Depois de uma deliciosa pausa, ela continua: “Entretanto, uma mulher que chegou até lá e foi nomeada Ministra da Sáude”, não acontece todos os dias”. Nessa hora, a sala do Berlinale Palast quase foi abaixo. Não se pode mais falar um ai sobre crianças, especialmente na Alemanha, porque na mesma hora você é taxado de “avesso à crianças”.

A reacao da personagem de Bruno Ganz, Gottfried (melhor nome com maior índice de clichês impossível) faz um olhar de guru e manda: “O milagre da concepção”. Potter confessou que queria trabalhar com Ganz desde que o viu em “Asas da Liberdade” de Wim Wenders, “mas com um elemento cômico, já que quando olho pra ele tenho vontade de rir”. Fazendo alusão aos seus outros papéis, inclusive como Hitler em seus últimos dias no Bunker em Berlim, ele mandou:”Eu queria fazer um filme para agradar a Sr. Merkel, para que ela veja um alemão bonzinho, agora que nós somos os bonzinhos da Europa“, declarou esbanjando ironia.

  1. Una mujer fantástica, Sebastian Leilo

O chileno residente em Berlim, Sebastian Leilo fez uma obra instigante em termos técnicos já começando com estonteantes cenas das cataratas de Foz do Iguaçu para aclimatizar o argumento que será chumbo grosso. Leilo tem Daniela Vega, uma atriz e cantora transgênera para viver “Marina”, que tem um romance com “Orlando”, vivido pelo ator Francisco Reyes. Cenas de ódio contra tudo aquilo que não cabe em universos bitolados e homofóbicos de Bolsonaros, Salafaias e Crivellas, são curtas, mas de grande impacto. Porém é na moral dupla das famílias burguesas que Leilo foca a sua temática. Depois da súbita morte de Orlando, “Marina precisa passar por uma peregrinação de ódio e exclusão.

201712954_5

Leilo não tem a profundidade de Pedro Almodôvar no quesito em examinar o abismo das mulheres, mas o faz de maneira honesta e não teme em mostrar seu fetiche por cenas de mulheres dirigindo o carro à beira de um colapso nervoso em contraponto com imagens urbanas de Santiago do Chile. Claro que a música não pode faltar como elemento determinante para o grau de dramaticidade.

O filme de Sebastian Leio saiu levando o Urso de Prata pelo melhor roteiro.

  1. O outro lado da esperança“, Aki Kaurismäki

    Dieter Kosslick, o diretor da Berlinale certa vez, afirmou: “O cinema nos possibilita saber o que acontece no mundo” (sem o comprometimento das diversas mídias). No filme de Kaurismäki, o finlandês nos mostra o horizonte limitado de 5 pessoas com trajetórias tortuosas e inusitadas, mas que se juntam pela humanidade, por um bem maior. Na realidade, todos os 5 unidos no universo físico do restaurante são refugiados de algum lugar ou de alguma coisa.

    Entre o local, o “inferno” da Finlândia e o mundial, expresso pela foto de Jimmy Hendrix na parede pintada de azul e acima da máquina de música Kaurismäki nos exibe universos paralelos e tão unidos. Kaurismäki esfrega na nossa cara que apesar de Trumps, Erdogans e todo o ódio pelo que é diferente, ainda existe a humanidade e no caso de “O outro lado da esperança” até mesmo um final feliz para todos. Até para Kaled, o sírio que chegou de “contrabando” num navio de carga no país gélido da escuridão eterna.

O filme de Kaurismäki saiu levando o Urso de Prata pela melhor direção.