Berlinale: mulheres fantásticas, seus desejos e precipícios

Berlinale: mulheres fantásticas, seus desejos e precipícios

Fátima Lacerda

13 Fevereiro 2017 | 11h03

Especialmente o cinema brasileiro, mas não só ele, tem se mostrado em ótima forma durante a sexagésima sétima edição da Berlinale.

Como de praxe, quando mulheres estão surfando na onda do sucesso, bombando, a fila de homens que se forma para parabenizá-las é grande. Claro. Quem não gosta de pegar uma carona no sucesso, ainda mais se for de mulheres dando assim um toque de politicamente correto, moderno, em perfeita harmonia com o espírito do momento, o Zeitgeist, super cool!

Que para chegarem aonde estão, essas mulheres, em diversas formas e intensidades, tiveram que cortar um dobrado e tropeçar muitas vezes e quando estiradas no chão tiveram que começar de novo, isso é uma nota de pé no êxtase do show de bola.

Maria, Maria!

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A atriz e escritora e cineasta Maria Ribeiro, que vive a personagem da “Dora” no filme “Como Nossos Pais” de Laís Bodanszky, encantou Berlim. A diretora Laís, também.

Na coletiva realizada no último sábado, 11. e com pouquíssimos jornalistas presentes, a equipe do filme deu depoimentos honestos e resultado de uma grande consciência do que esse filme e cada personagem dele, significa.

Laís, vestindo uma elegantérima blusa preta que não mostra nem muito nem pouco. Junto ao discurso honesto, ao mesmo tempo terno (em alguns pontos terno demais da perspectiva de solos prussianos áridos e talvez por isso, tão tocante por nos possiblitar um Dejá Vù), ela declarou ter pensado em Maria Ribeiro desde o primeiro momento do roteiro e queria uma mulher que não se visse como “vítima das circunstâncias”, mas queria uma mulher forte e, apontando para Maria, completou: “E vocês estão vendo, ela é muito forte e no set de filmagens, mais ainda”, arrancando risadas dos poucos presentes, em sua quase total maioria, da imprensa brasileira. E provando que tamanho não é documento, o clima da coletiva era eletrizante.

“Nós herdamos modelos da família clássica e a pergunta é o que vamos fazer com ele, como vamos lidar com esse modelo, questioná-lo sem machucar ninguém”, declarou. Imediatamente, Maria Ribeiro, com todas as antenas ligadas com os olhos de tal forma arregalados como se fosse soltar uma declaracão-bomba a qualquer momento, não perdeu tempo: “É impossível!”.

O que talvez alguns desapercebidos não pescaram é que o “impossível” de Maria (ou de Rosa?) se referia ao “questionar sem machucar ninguém” e claro, óbvio que alguém, provavelmente um ou vários homens vão sair machucados dessa história. Na realidade, saem todos machucados, sendo que uns aproveitam a crise como chance, como pregava o dramaturgo, diretor de cinema e teatro, o alemão Christoph Schliengensief, se tornando uma pessoa capaz de dividir (mesa, cama, o sucesso, fracasso e a crônica frieza nos pés) ou o Cara  alente eternizado por uma outra Maria, a Rita, vai sucumbir numa mediocridade de dar pena: “Não faz assim, rapaz, não bota esse cartaz, a gente não cai não!” por tanto desperdício de um potencial que um dia existiu, senão não teria havido, no passado, o momento do se apaixonar e decidir percorrer um caminho juntos. .

Entre “Rosa” e “Dado”, esse vivido por Paulo Vilhena, o artista maluquinho “Salvador” da novela global “Império” são essas as cartas na mesa. “Dado”, vivendo para salvar a Amazônia e o planeta e “Rosa” segurando a barra para que ELE realize os SEUS sonhos.

Maria Ribeiro, sendo a primeira ou segunda escolha de Laís, é perfeita para esfregar na cara deles os problemas e anseios da mulher moderna, ao mesmo tempo que se torna, da forma mais orgânica e mais honesta possível, a nossa voz, a voz de tantas mulheres vivendo desse ou do outro lado do Atlântico, acima ou abaixo da tão falada Linha do Equador, onde, segundo o maravilhoso Ney (Matogrosso) não existe pecados.

Clarisse!

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O desempenho de Clarisse Abujamra nesse filme é algo que entrará para os anais do cinema brasileiro. A cena em que ela revela um segredo familiar há anos velado é de grande impacto e decisivo para o desenrolar do argumento. Porém, a cena em que ela revela que está irreversivelmente doente é de classe mundial reforçando um texto, absolutamente, primoroso.

Me lembro que quando assisti ao filmo no final de janeiro, no contexto das cabines para jornalistas baseados em Berlim, era uma segunda-feira gélida de um inverno que vem nos massacrando e exigindo uma paciência de monge tibetano. Além de eu me considerar da fração I don’t like Mondays e o horário das 10 horas era ainda mais um desafio, eu fui encarar. Depois do filme era como se uma brisa de verão tivesse atravessado a sala do Cinema 5 na quela segunda-feira. Comentei com Andreas Struck, o que faz a mediação das coletivas sobre o filme dei a dica: “Existe uma canção que ficou famosa na voz da cantora Elis Regina e que questiona exatamente essa dicotomia ou mesmice entre as gerações”. Ele nem conhecia Elis e muito menos a música. Andreas foi pesquisar e passou a dica para a apresentadora do primeiro Q & A da qual a única pergunta foi essa, resultante da dica concedida por mim.

No filme, Laís usa a melodia de “Como Nossos Pais” tocada no piano e sem texto. A explicação por essa opção veio na coletiva de imprensa do filme: “A letra não era suficiente para expressar o que eu queria no filme, por isso, eu peguei somente a melodia”, explicou. Aliás na explicação de Laís e de toda a equipe existe uma clareza impressionante sobre do que é o filme, porque, como e pra que. As justificativas em coletivas são sempre bem ensaiadas para não “queimar” as eventuais chances com distribuidores ou órgãos de fomento dos quais se vai bater na porta ainda muitas vezes, mas a equipe inteira, incluindo o roteirista Luis Bolognesi e o produtor Fabiano Gullane, diretor da produtora que vem fazendo filmes de qualidade A, inclusive em estreia parceria com o cinema português e um dos seus maiores expoentes, o produtor Luis Urbano, um dos membros da Secção Especializada do Cinema e do Audiovisual (SECA).

Sara, Sara, Sara, Sarará!

SaraSilveira

A outra a encantar a coletiva foi Sara Silveira, uma obcecada pelo cinema autoral de qualidade e um “cavalo”, como ela mesmo de se definiu: “Eu sou um cavaaaaalo”. Sara arrebatou a plateia com seu discurso, tradicinalmente, inflamado quando se trata da árdua tarefa de fazer cinema, que não é “somente” um ato de amor, mas acima de tudo, de resistência: à mesmice, ao imenso potencial de exclusão e à alienação apolítica o que desmembra na tese de que cinema é tem que ser político. Sim e a Berlinale é a prova mais convincente disso, mesmo que o outro lado da moeda seja o detrimento da qualidade da obra, como foi o caso do filme de estreia, “Django”.  Sua escolha como filme de abertura foi, sem qualquer dúvida, uma decisão política por tematizar a ocupação nazista na França.

Sara, baseada em SP, mas constantemente presente nos melhores festivais do mundo se mostra ausente na roda, até o momento em que Andreas Struck a interpela o que a teria instigado para investir no filme. Ai, a sala, quase vazia, ferveu! Ninguém segura a paixão de Sara Silveira pelo cinema. Em entrevista publicada aqui no Blog em 2016 sobre a produtora, ela delineou como, ainda é difícil, encontrar distribuidores para seus filmes. “As mulheres tem que ter um percentual muito maior de persuasor para convencer que seu trabalho vai dar pé do que os homens“.

Daniela !

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Outra mulher que vem encantando Berlim é a chilena Daniela Vega, protagonista de “Una Mujer Fantastica” do diretor Sebastian Leilo. Daniela é transgênera e vive a personagem “Marina” no filme que traz o melhor dos atores que o chile tem nesse momento.

No tapete vermelho na exibição de gala de domingo à noite (12) Daniela se mostrou no estilo clássico. Depois de ter seguido as “recomendações” dos fotógrafos ela começou a fazer caras e bocas, os levando ao delírio. Toda a equipe do filme, também no tapete vermelho havia sido colocada para escanteio. Nesse momento, Daniela é a Star em Berlim e pelo seu desempenho, a trilha não para por aqui. No próximo sábado, quando acontece a cerimônia de entrega dos Ursos, o filme, não sairá sem prêmios. 

No próximo artigo, a crítica do melhor filme de até agora na mostra competitiva: “Una mujer fantástica”. A continuação da trilha, peregrinação de Sebastian Leilo” através do profundo universo/abismo da psique feminina.

 

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