Borrussia Dortmund x FC Liverpool: noite épica de alta dramaticidade futebolística

Fátima Lacerda

15 Abril 2016 | 10h33

Na manhã desta sexta-feira (15) não é o projeto de criação de uma “Lei de integração“, apresentado á imprensa pelos membros da coligação que forma o governo Merkel. Nem o “pequeno detalhe” que, até esse papel virar uma lei, ainda vai rolar muita água por debaixo do Rio Spree*. Mesmo porque, o projeto de lei ainda vai ter que passar por vários grêmios, onde sofrerá ajustes para que, na hora de ser aprovado, não haja zebra liderada pelos Verdes, que consideram o projeto “arbitrário”.

Nem mesmo o abacaxi midiático diplomático envolvendo o humorista Jan Böhmermann, um tipo de Rafinha Bastos alemão, que tem um programa no final da noite na rede pública ZDF e não poupa testar os limites da auto-censura e da censura alheia. Com um vídeo onde fazia um gesto obsceno para Erdogan, o presidente turco, o polêmico humorista colocou a chanceler numa saída justa de responsa. Por um lado, a necessidade da Turquia para manter os refugiados longe das fronteiras da Alemanha, por outro, o maior bem do país: a liberdade de imprensa. Merkel e seus conselheiros midiáticos e jurídicos foram pegos de surpresa por uma sátira que resultou no conflito diplomático com o embaixador alemão, Martin Erdmann, sendo convocado por Erdogan para prestar satisfações e esclarecimentos.

Nos últimos 10 dias, tudo em torno do humorita (se haveria processo, como ele responderia à queixa dada pelo próprio presidente turco) foi A PAUTA midiática que mexeu com o país. Porém, hoje, sexta-feira (15) fria, cinzenta e nublada, a Alemanha se encontra numa ressaca daquelas que se tem depois de uma festa de Réveillon, depois de uma final perdida de uma Copa do Mundo ou depois de um resultado de 7×1 com jogadores correndo no campo como baratas tontas, onde todo o fracasso do futebol brasileiro e da política da CBF ganhava uma face expressada na fisionomia de David Luiz.

Uma noite épica

A mídia alemã, seja ela o jornal Süddeutsche Zeitung ou a revista esportiva Kicker, todos falam de uma “noite épica” lá “do outro lado da ilha”, num estádio mitológico chamado “Anfield Road”, onde o ex-treinador do Borussia Dortmund, Jürgen Klopp se fez eterno na mitológica tradição do FC Liverpool: “You’ll never walk alone” certificavam as faixas nas arquibancadas do estádio. Na coletiva de imprensa antes do jogo, Klopp alegou: “O nosso plus é a atmosfera do estádio”, insinuando que a torcida faria a diferença, como tantas vezes antes na história centenária do clube que treina. Mais do que nunca e muito mais do que antes, sabemos o que o Klopp quis dizer. Muito mais do que uma declaração da boca para fora para minimizar a sede dos jornalistas por “aquela declaração”, o treinador do momento já sabia do que a sua torcida é capaz. E não deu outra.

O início

Lá pelas 20 horas, horário berlinense, o bar de torcedores do Borussia virava uma massa humana amarelo-e-preto. “Hummels”, “Aubameyang” “Kawaga” exibiam as camisas amarelas espalhadas pelo bar. Cantos de louvor para a motivação da equipe, mas também para a própria motivação, ecoavam no lugar que é ponto de encontro de torcedores do grupo de Dortmund. Entre os torcedores que não paravam de chegar, um casal: ela, alemã, nascida e criada em Dortmund, aquilo na que o clube apelida de Dortmunder Mädchen, a garota de Dortmund (nesse caso, não a de Berlim). O cara era australiano, com óculos pretos escuro, muito magrelo e torcedor enlouquecido pelo Liverpool. Dando seguimento ao meu laboratório jornal futebolístico, eu logo engatei conversa com a torcedora do Dortmund. Concordamos imediatamente que a dona do bar não é nada solícita e sim muito antipática. O torcedor do Liverpool, que mora em Berlim, mas que não fala uma só palavra de alemão, foi taxativo: “Ela não gosta de mulheres por perto. “Eu venho aqui sempre e já presenciei isso várias vezes“, confessou o australiano. De fato, a magrela nada solícita (para dizer ao mínimo) atrás do balcão ratificaria a tese do australiano. Enquanto conversávamos, presenciei ela, com o maior sorriso fingido, “orientando” 5 mulheres que queriam assistir ao jogo no seu bar, para irem para um outro “ali pertinho”. “Lá, vocês ficarão mais confortáveis”, disse ela e conseguindo assim, se livrar das mulheres que eram no máximo 5 no lugar. Como se o conforto fosse algum critério quando se trata do jogo de futebol do ano, de um jogo onde vale tudo. Vale “a complementação da despedida de Klopp no clube preto-amarelo e sua ratificação no comando dos Reds” como afirma um artigo vinculado na revista Kicker. Quem ainda viajava na maionese em surto nostálgico pelo ex-treinador, foi brutalmente acordado de seu devaneio. Sim. Klopp, apesar de seu inegável coração amarelo-e-preto, agora ele é dos Reds. Quem acha que a jaqueta branca com JK bordado em preto do lado esquerdo não combina com ele, vai ter que engolir: ´E tudo verdade. Klopp, no mais tardar agora, é dos Reds, assim também confirma em matéria de hoje, o jornal inglês The Sun quando se refere à noite épica em Liverpool. : “O dia em que Klopp finalizou a sua ida dos amarelos para os Reds.”

Ousadia australiana

Um torcedor do Liverpool se aventurar num redutor borussiano é, no mínimo, corajoso, senão abusado, assim achou meu amigo Moritz, quando soube, discretamente através de mim, ele ouviu: “Temos um torcedor do Liverpool no local”. O olhar de desagrado não demorou a se expressar no rosto do nascido na cidade universitária de Tübingen, mas “exilado berlinense”, assim como eu. Desde sempre Moritz é torcedor do Borussia. Entre as especulações nas rodas dos mais diversos adeptos da “febre amarela”, alguns chutavam 2 x 0 pro Borussia, Timo preferiu não optar: “Sou por demais emotivo para essas coisas. Depois o time perde e eu desabo“, declarou em tom de reflexão e de pessimismo. Ao ser perguntada sobre a minha pedida para o placar final, já calejada e não pouco influenciada pela dialética prussiana de que o menos é mais, me contentei em dizer: Eu estou muito cética. Hoje vai ser difícil. Vamos ter que comer grama“.

Os cantos quase estouravam os tímpanos. Nesse bar os borussianos se tornam primos, parentes. Todo mundo sofre. Na hora do gol, desconhecidos se abracam, batem uma mão na outra, batem no ombro enquanto a cerveja rola direto. Como alguém que nem bebe e nem fuma, um bar não é exatamente um lugar pra mim. Porém, fazendo parte do meu laboratório jornalístico futebolístico é preciso entrar na cova dos leões. O que são as fumaças de cigarro perante ao conhecimento da cena de torcedores “em exílio”, como retrata o filme recém projetado no festival de cinema que fez um apanhado das comunidades de torcedores de times alemães que tentam fazer um ninho em Berlim. O interessante nesse perfil dos torcedores do Borussia é que, fora eu e o australiano, não havia nenhum estrangeiro do além-mar já quando alguém proveniente da cidade de Colônia, quando se refere a ela, fala de Heimat, país de origem. O que então diria então, da perspectiva prussiana, uma brasileira que atravessou o Atlântico?

4 min…

Moritz e eu concordamos que os 15 minutos seriam decisivos. Afinal, no jogo de ida, o Borussia não mostrava a auto-confiança necessária para sair do campo com uma diferença de gols que o colocasse uma boa posição para a partida frente à poderosa torcida dos Reds. E os 15 minutos foram uma delicatessen futebolística: um jogo agressivo, com o Borussia não deixando o Liverpool jogar. Um Marco Reus com uma leveza nos pés de uma bailarina. Passos inúmeras vezes ensaios em frente do gol, sendo matematicamente executados. O capital Hummels conduzindo a equipe. Um time harmonioso, compacto e implacável no contra-ataque, não deixando o Liverpool se aclimatizar no jogo.

Primeiro Gol. Gritos de alívio preenchiam a sala do bar borussiano. Que alívio! Logo nos primeiros minutos, um gol, desestabilizada a equipe adversária. Veio o segundo. Todos consternados de felicidade. Entre os 30 e 35 minutos, o Borussia tinha total controle da partida. Os Reds corriam no campo somente atrás de uma coisa : do prejuízo. Víamos um Thomas Tuchel, técnico do Borussia, no momento de inusitada expanção corporal. Ele, que é uma analítico, exímio em conceber estratégias e brilhante em sua capacidade analítica e que uniu ainda mais a equipe, durante a sua gestão, prestes a completar um ano.

Deja vù?

A especulação do que Klopp diria para os Reds no vestiário era o tema número 1 durante o intervalo de 15 minutos. Depois, viríamos saber que “ele ficou quieto” dentro da cabine. Como assim? Exatamente isso. Klopp deixou a carroça andar e confiou na “inegociável vontade de vencer do time inglês”. Depois do jogo, em entrevista à imprensa alemã, ele declarou: “Quando a tática e a estatística não ajudam, são outros critérios que você precisa deixar entrar em ação“.

Depois do placar de 3×1 para o Borrussia, bateu a Paura, a mente dos jogadores do BVB perceberam a partida como ganha, esquecendo a maior premissa futebolística: enquanto a bola rola no campo, tem jogo, tudo é possível. Um dos mais característicos exemplos é o odisseia vivida pelo timeco de Gelsenkirchen no ano de 2001 (veja recente artigo publicado aqui no Blog) quando acreditava ser campeão da Bundesliga, crença que durou 4 minutos porque num outro estádio, o juiz ainda não havia apitado o fina da partida.

Tuchel é um excelente estrategista e um agregador, mas Klopp foi brilhante quando contou com o algo a mais, que todos concordam que o Liverpool mostrou: a vontade incondicional de vencer e isso, para um time que já havia se mostrado morto na partida. E como o Deus do Futebol não dá ponto sem dó, é um ditado alemão que prescreve: “Os dados como mortos, vivem mais tempo“.

A dinâmica entre o placar de 3 X 2 e de 3 X 4 lembrou a insanidade do jogo entre Brasil e Alemanha naquele maldito julho de 2014. Nesse meio tempo na noite kreuzberguiana, onde fica o bar dos torcedores do Borussia, o cara do Liverpool era só gritos de alegria. Ele surtou, até que alguns torcedores do time amarelo e preto, se mostraram irritados, para dizer ao mínimo. Para jogar mesmo tudo no ventilado, o australiano pegou o celular e filmou a nossa tragédia, o nosso estado de choque. Nem mesmo o depoimento dos jogadores na TV, a maioria dos torcedores não quis acompanhar. De arrepiar como o técnico do Borussia, depois de uma partida dessas, pode analisar o jogo de forma tao calma e com tanta clareza. Foi o goleiro Roman Weidenfeller (35) que antes do jogo de ida em Dortmund na semana passada, amargava no banco de reservas. Depois de sua fenomenal atuação, Tuchel não tinha como recolocá-lo no campo. Analistas esportivos veem com grande surpresa, Roman estar no auge de sua forma com 35 anos. “Doi muito”, confessou: “Estávamos bem perto do nosso objetivo, mas não conseguimos defender nem a vitória nem, na sequência, o empata. Nós deveríamos ter segurado o jogo na mão e não tê-lo entregue para o acaso. Nesse momento, não jogávamos mais o nosso futebol. A culpa é nossa e não do Liverpool”.

Marco Reus, eleito o jogador da partida, declarou: “É difícil analisar esse jogo. Jogamos bem no primeiro tempo, marcamos logo de início. Porém, no segundo tempo, não defendemos bem, não jogamos ofensivamente.

O estado de consternação ainda impera nos depoimentos do empresáriodo Borussia, Hans-Joachim Watzke, que para desgosto da torcida, ainda encontrou palavras de elogio para o time adversário: “É preciso parabenizar o Liverpool pela obsessão de vencer“.

Agora ele é uma estrela

No mais tardar depois do jogo épico da noite de quinta-feira, e quem viu não esquecerá jamais, Klopp se eternizou no olimpo do futebol europeu. Mais que isso: se eternizou no coração da torcida dos Reds. “Trust Klopp” mostrava uma faixa na arquibancada do time anfitrião. Ao desfilar pela arquibanda, enquanto sorria, Klopp reverenciava a torcida alternando com o bater na mão direita no lado esquerdo do peito. Uma vovó de cabelos brancos era só euforia na beirada do campo. Klopp se distingue por saber, de forma brilhante, se comportar em momentos que requerem sensibilidade e muito tato. Depois da reverência à torcida dos Reds de uma forma honesta, transparente além de se permitir curtir um momento para curtir triunfo, Klopp, para a surpresa de calejados comentarias da TV alemã, se voltou para a torcida do Borussia e, para arrematar, abraçou alguns dos jogadores do seu ex-clube. Mais do que a tática, a estratégia e a avaliação de estatísticas que fez o Liverpool ganhar o “Jogo do Ano”. CR7, Suárez, Messi e Neymar na CL? Que nada! Foi um jogo valendo uma vaga na semifinal da Europa League que balançou a Alemanha numa noite fria de uma primavera que ainda brilha pela ausência. Klopp leva os Reds para a semifinal pela mentalidade e pela percepção orgânica do que é estar no campo num hora em que muita coisa está em jogo.

E agora BVB?

Sem ter mais a possibilidade de se tornar campeão da Bundesliga, já que Tuchel abdicou do time A no Derby de domingo (10) contra o Schalke 04 para poupar os principais jogadores para o confronto contra o Liverpool e o Borussia saiu do campo levando somente 1 ponto e não é mais possível alcançar o time vermelho e branco de Munique na liderança da tabela. Desde a derrota contra o Liverpool, a desclassificação na Europa League e também na Champions League, só sobra agora o título da Taça Alemã de Futebol (DFB, na sigla em alemão) para não sair da temporada com uma mão na frente e a outra atrás.

Na próxima quarta-feira (20) o Borussia enfrenta o Hertha Berlin no Estádio Olímpico, confronto que vale uma vaga na Final, que tradicionalmente acontece no final de maio na capital.

Talvez o jornal Times tenha conseguido dar a melhor definição sobre um jogo épico: “Existem momentos na vida que ficarão sempre na memória das pessoas, memórias que a fazem sorrir e crer.” O Liverpool acreditou, foi, viu e venceu. O dia depois ainda causa um bolo no estômago e uma certa incredibilidade de um jogo insano e ao mesmo tempo maravilhoso. Como constatou Flávio Frajola, meu amigo carioca torcedor do time Fortuna Düsseldorf, simpatizante do Borussia e vice-presidente da torcida Young Flu: um jogão!

Links relacionados:

https://www.youtube.com/watch?v=Ot246Mpnd4A

*O Rio que atravessa o centro de Berlim.