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Borussia Dortmund: uma fábrica de sonhos entre o medo e a letargia
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Fátima Lacerda

20 Abril 2017 | 20h49

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O medo é uma linha, que separa o mundo”, diz o sábio Leão do Norte, Lenine.

Foi o medo, mas do que isso, a ameaça de um novo atentado ao ônibus do Borussia Dortmund, exatamente como no preâmbulo do jogo de ida contra o AS Monaco, quando o ônibus saia do hotel em direção ao estádio Signal Iduna Park, que fez o time se mostrar letárgico e apático no campo.

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Cronologia do terror iminente

Três explosivos, estrategicamente postados atrás da grama que cobria parte da calçada explodiu atingiu o jogador espanhol Marc Bartra com estilhaços no braço e na mão. Bartra teve que ser operado e teve alta do hospital a tempo de passar o feriadão de Páscoa, em casa, mas o medo, a apreensão e uma letargia nunca antes vista nos jogadores tão fulgás do BVB, acomete o clube que vive, nesses dias o seu maior desafio: lutar contra o medo de que, a qualquer momento, algo pode acontecer e esse medo foi ratificado novamente na noite do jogo de volta contra o AS Mônaco. O jogador espanhol foi “delegado” para viajar para Monaco no dia do jogo para  injetar o clube com uma boa dose de auto-estima e fé para não se deixar levar pelo medo.

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Polícia para quem precisa de Polícia!

Ainda na noite da terça-feira, 11.04., poucos minutos antes do jogo de ida, foi divulgado na imprensa que o Estado Islâmico teria sido o autor do atentado e isso ajudava a tirar da gaveta os estereótipos e os formatos de reação num momento em que difícil entender racionalmente o ocorrido, já que os ataques de aqueles que berram ”Allah é grande!” tem protagonizado esses tempos turbulentos em que vivemos. Colocada na Internet, seja Fake News ou não, a “noticia” se emancipa e faz o que quer. Depois, provar que tomada não é focinho de porco, é tarefa ingrata e que não promete sucesso.

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Até o momento em que esse artigo foi publicado, a polícia da região da Renânia do Norte-Vestfália ainda não apresentou os culpados e ainda continua tateando nos escuro.

Foram os Ultras da fracção Gruppe Riot 023 que em 2015 utilizaram uma faixa no estádio para ameaçar Daniel Lörcher de morte. “Lörcher, a tua hora chegou”. Com o aumento do populismo de estreita e extrema-direita na Europa, os Ultras se mostram cada vez mais agressivos e violentos e angariando fama com sucessiva quebra de tabus. Isso se exibe também no clube polonês Legia Warszawa, o qual visitei na semana passada (confira um artigo em breve) como pequenas equipes na Bulgária.

Pesadêlo número 2

Enquanto a policia não apresenta culpados, o Borussia Dortmund passa uma semana de percalços, sobressaltos, ansiedades e batalha contra o medo. Depois de ter que enfrentar o Mônaco antes do atentado completar 24 horas e isso por exigência da UEFA, o clube pode se concentrar no “dever de casa” em mais uma partida pelo campeonato alemão, o da Bundesliga saindo do campo levando três pontos da partida contra o Eintracht Frankfurt, mas longe de poder fechar uma semana vitoriosa.

Jogo de volta

Na noite de quarta-feira, no dia do jogo de volta, onde o BVB já tinha que correr atrás do prejuízo da partida de ida, quando perdeu de 2 x 3 o clube estava mentalmente bem, assim garantiu o técnico Thomas Tuchel na entrevista concedida na noite de terça-feira (18).

Na hora de sair para o Estádio, a polícia, sem citar motivos, proibiu durante 15 minutos a saída do ônibus do estacionamento do hotel. Ou seja. Ônibus cheio de jogadores, incluindo Marc Bartra que foi voou para Mônaco na quarta feira para “servir de amuleto” para os jogadores e lhes dar coragem em enfrentar o medo do terror, mesmo sem ainda saber, ao menos, de sua proveniência. Não e preciso ter sido um mosquitinho dentro do ônibus para saber que todo o terror daquela noite em Dortmund volta a cabeça dos jogadores. Bürki, o suíço que e goleiro titular do Borussia declarou, na em e grevista a imprensa Suíça, que ainda não consegue dormir a noite. A repetição de uma apreensão que remete ao dia do ataque real, fez com que ninguém mais pensasse em futebol. Se foi uma tarefa de Hércules, jogar contra o Mônaco menos de 24 horas depois do atentado, jogar depois de 15 minutos de apreensão que fizeram tudo voltar a tona, deixou o time do Borussia, paralisado e acometido pelo medo.

O jogo

Nos primeiros 30 minutos, o time de Dortmund não só não foi, taticamente, impedido de jogar. A cena lembrava aquele jogo fatídico da seleção canarinho na Copa do Brasil, no qual jogadores consternados corriam do atrás de um ataque fulminante da Nationalelf.

No Estádio Louis II, com capacidade para 18,523 pessoas, o AS Monaco mostrava porque foi o time que eliminou do Olímpo do Futebol Europeu o Manchester City, clube treinado por um excêntrico catalão chamado Guardiola. Tudo bem que essa temporada da LC entrará na história pelas zebras que vem apresentando, com o FC Bayern sendo eliminado pelo Real que tem um super homem, CR7, indubitavelmente, na melhor fase de sua carreira e que, quando a vitória está por um fio, ele vai lá e decide. Barça com o trio de ataque mais contagiante e perigoso da Europa, foi eliminado pelo Juventus. Zebras não faltam nessa temporada da LC e o Deus do Futebol e implacável e ratifica isso nesses últimos dias

O lateral direito do FC Bayern, Phillip Lahm e jogador preferido de Pelé durante a Copa de 2006 irá terminar sua carreira sem chave de ouro. Sem o título e nem mesmo uma Final na LC.

Marco Reus

É impressionante a moral e credibilidade que o camisa 11 do Borussia tem no time. Quando ele joga, o time muda de figura, mostra vontade de comer grama ao mesmo tempo com a exibição de uma insistentavel leveza num business e especialmente num torneio como oda LC, onde muito dinheiro e prestigio estão em jogo. A noite de quarta-feira (19) ficará na história do torneio da UEFA onde um dos times mais queridos do mundo se mostrou, acima de tudo, humano,frágil,vulneral. Como não amar esse time?

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As mensagens de solidaridade de dentro e fora da Alemanha, ratificam o “amor verdadeiro” #echteliebe que acomete quem entra no universo borussiano. Dos clubes brasileiros, foi o Fluminense através do canal FluNews, o primeiro a expressar a solidariedade com o clube de Dortmund. Até a seleção do Iraque, se manifestou.

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O tempo não para

Fato e que, a dobradinha Batman e Robin, formada por Aubameyang e Réus tem sua última exibição em Mônaco. Tudo indica que o Superstar Aubameyang, camisa 17, ira realizar seu sonho de infância, que e jogar pelo Real Madrid. E mesmo que na hora dos números não seja o Real que lacre o atacante, a camisa que ele ora vestir não será mais a amarelo e preto.

Fábrica de sonhos

Há 4 anos, o clube de Dortmund vem priorizando a estratégia corporativa de comprar novos talentos, formá-los, dar-lhes o melhor acompanhamento possível para dois ou três anos mais tarde, vender seus passes pelo triplo do valor do passe anteriormente comprado.

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A edição de abril da 11 Freunde (11 amigos) tem o BVB na capa com a manchete:” Os campeões de amanhã” se referindo não somente a estratégia corporativa com a compra de jogadores muito jovens como, por exemplo, Dembele e Pulisic, como também a era de trilha vitoriosa do ex-treinador Juergen Klopp (atualmente no comando do Liverpool).

Para Thomas Tuchel está sendo difícil montar uma equipe que possa topar com o poderoso clube de Munique. O terror e o medo, não constavam na planilha corporativa. Por isso e mesmo provável que os Borussia os sejam os campeões de amanhã também pelo baque e emocional sofridos sabe-se lá quando os jogadores co seguiram ter espaço na cabeça só pra futebol. Uma das mais memoráveis frases de Klopp prescreve: “Quando a tática e a técnica não funcionam, e preciso mentalidade”. Nem um dos 3 quesitos o BVB pode oferecer e, literalmente, por forca maior. O ataque e formato de assalto, os passes matemáticos de Julian Weigl, tantas vezes decisivos em tantas partidas, se perdiam no pé do próximo jogador na perda da bola. Auba(meyang) estava, permanentemente, cercado, digo, acorrentado por 4 jogadores do Monaco e não tinha como a bola chegar nos seus pés mesmo quando ele se via de cara com o gol. A muralha do AS Monaco foi eficiente e a juntada à falta de força mental do Borussia tornou o jogo um momento de desestruturação de tudo o que o BVB representa no campo.

Apesar de todas as estatísticas tristes que irão se eternizar depois da eliminação em Monaco nas quartas de final da LC não há como ficar zangado quando um time, do tamanho, do formato e da mentalidade do BVB mostra ser humano. Na manhã de quinta-feira (20) a eliminação do FC Bayern pelo Real Madrid já havia sido lamentada somente pelos torcedores do clube de Munique. Os torcedores do Borussia e da maioria dos outros times lamentam, no local de trabalho, em suas redes sociais a eliminação da implacável e tão habitual “Muralha Preto-amarelo” e a falta do “Milagre de Malta” (em alusão ao jogo dramático contra o Malta em 2013 e onde o BVB já parecia eliminado nas quartas de final da LC conseguiu virar o placar).

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Lição

O que as quartas de final da LC na temporada 2016/2017 nos ensinam:

O FC Bayern não é tão invencível assim como sites esportivos prometem e como por vezes parece em âmbito nacional no campeonato da Bundesliga.

Que, como aconselha o jornal espanhol “Marca”, o Barcelona precisa plantar, desde já, o futuro do clube para a época “depois Messi”. A matéria é publicada numa época em que Neymar acaba de ser eleito o jogador de futebol mais influente do mundo sendo o único jogador de futebol que aparece na lista de 100 da revista TIME acompanhado dos atletas Conor McGregor, (lutador de Artes Marciais) Tom Brady (cinco vezes campeão da NFL), Lebron James (jogador da NBA) e o ginasta Simone Biles.

Que o Borussia Dortmund ainda irá asfaltar a trilha dos novatos como Julian Weigl (21), Alexander Isak (17), Christian Pulisic (18) parece ser o plano para os “Campeos do futuro” depois da despedida da “Era Klopp”. Ousmane Dembelé com seus 19 também faz parte dos novatos, mas a imprensa alemã divulgou na manha de hoje (20) que Dembelé está sendo cotado para integrar o time do Manchester United na próxima temporada.

O próximo desafio, tanto do FC Bayern e do Borussia Dortmund já tem data: no próximo dia 26, quando os dois disputam uma vaga na Final da Copa da Alemanha (DFB Pokal, na sigla), partida que significa prestígio e que tem, tradicionalmente, cobiçada Final no Estádio Olímpico em Berlim (27.05.). Os dois times, adversários na tabela da Bundesliga com o FC Bayern em primeiro e o BVB em quarto lugar, não tem nada a perder e estão, cada um em intensidade diferente, correndo atrás do prejuízo. Quem sabe até lá, a polícia já tenha provas se o atentado partiu do EI, da ala de Ultras do Borussia ou de um “lobo solitário” sem partido e que queria seu (infame) momento de glória.

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