Borussia Dortmund x Schalke 04: um Derby épico do futebol alemão e o gosto amargo de um Deja Vù

Borussia Dortmund x Schalke 04: um Derby épico do futebol alemão e o gosto amargo de um Deja Vù

Fátima Lacerda

26 Novembro 2017 | 11h44

  ©DPA

A Alemanha passa por momentos inusitados. Um país que sempre se gabava em ser o fato estabilizatório na União Europeia, se vê sem governo e mesmo que os políticos tentem evitar a palavra “crise” em seus discursos, o país se encontra, sim, numa crise que terá que redefinir e fortalecer o papel do parlamento, que coloca a prova a chefia de vários partidos e exige uma troca de geração tanto no alto escalão como também no perfil dos partidos.

Nos últimos 70 anos nunca houve uma crise político-partidária como a que iniciou domingo, ao se tentar forma um governo estável para a maior economia da zona da UE.

Política e Futebol

A dinâmica do futebol e da política tem um denominador comum: elas podem ser de velocidade e intensidade imprevisíveis. Quando à política, o último domingo iniciou um terremoto no país que, por motivos culturais, tem um fetiche em programar tudo, não deixar nada ao acaso e que segue, religiosamente, a premissa do ditado popular: “Se você não decide de próprio punho, a vida decide por você”.


Borussia Dortmund é o clube com o maior número de torcedores pelo mundo afora, garante a estatística divulgada pela Federação Alemã de Futebol (DFB, na sigla). Esse time, que teve seu momento mais glorioso na disputa da Final da LC em 2012 no Estádio de Wembley, iniciou a temporada da Bundesliga, só ganhando jogos. Enquanto o BVB somava pontos na prestigiosa tabela, o tradicional monopólio do FC Bayern minguava nas mãos de um italiano chamado Carlo Ancelotti e o BVB, elegante e serelepe, seguia dominando a Bundesliga e oferecia um atrativo e um contraponto à dominância bávara dos últimos campeonatos.

Depois da derrota vergonhosa no jogo da LC contra o PSG com atuação brilhante do brasileiro Neymar, Ancelotti foi demitido na mesma madrugada e mesmo antes de pousar em Munique. No horizonte futebolistico bávaro, ressurgia, como curinga e pau para toda a obra, o tal Jupp Heynckes, aquele que conquistara do Triplo antes da chegada de Guardiola no FCB. Heynckes voltou a usar o uniforme de treinador, sacudiu o time, o tirou da letargia, fez feliz o Frank Ribery e já contabiliza 7 jogos curtindo e se gabando com a invencibilidade. Enquanto o FCB retornava ao monopólio da Liga, o BVB, sua direção e técnico, dormiam no ponto.

Dos últimos 9 jogos obrigatórios, o único que o BVB venceu foi contra o Magdeburgo, da terceira divisão em partida valendo a Copa da Alemanha (DFB Pokal).Vale recordar que, no início desta temporada, o BVB era líder da cobiçada tabela da Bundesliga. Na segundas-feiras, os torcedores do clube eram saudados no Twitter com o Posting: “Bom dia, líderes da tabela!“.

Je já na última terça-feira, depois da eliminação da LC em partida desastrosa contra o Totenham, a cobra já estava fumando para o técnico holandês Peter Bosz, neste domingo (26) a pressão é incomensurável.

O que aconteceu ?

No Derby mais acirrado do futebol alemão, entre o Borussia Dortmund e o time de Gelsenkirchen, o BVB jogou um primeiro tempo que o fazia irreconhecível comparado àquela famigerada partida contra o Tottenham poucos dias antes.

O time do Vale do Ruhr, polo da indústria de carvão, foi para a cabine no intervalo com quatro gols contabilizados no placar. Do lado do time de Gelsenkirchen, um zero oferecia o regojizo que a torcida do time amarelo-e-presto tanto ansiava depois de tantos jogos sem vencer. Decerto que a cerveja durante o intervalo teve um gostinho especial. Vale lembrar que entre as cidades de Dortmund e Gelsenkirchen são apenas 30 km de distância geográfica. A diferença cultural e de percepção futebolística, porém, separa dois mundos. A maior rivalidade do futebol alemão é entre esses dois times. O Derby de sábado (25) foi épico e ninguém que entende de futebol, duvida disso. Até mesmo o narrador da ESPN, que pelo jeito, domina a língua de Schiller e Goethe, gritava “Sensationell, Sensationell!!!”.

Mediocridade galopante

O que se vê atualmente nos jogos do BVB é total apagão da defesa. Um Aubameyang) infeliz por estar “preso” no time e que cada vez mais frequentemente chega atrasados nos treinos, faz viagem relâmpago a Milão (Itália) enquanto o time se encontra para jantar. Do queridinho da mídia e o mais fotografado jogador, pela sua extravagância e que, depois da saída de Dembelè para o Barcelona para substituir Neymar, se tornou o jogador-chave do Borussia. Era para ser um tipo Messi ou CR7 em seus times: decidir um jogo.

Recentemente Aubameyang foi suspenso pela diretoria e impedido de jogar por motivos disciplinares. A diretoria do clube assim como o diretor esportivo tem um problema crônico de falta de elenco. Nos dois últimos meses o BVB se mostrou incapaz de competir em âmbito internacional e se tornou numa equipe mediocre.

Compras errôneas, um Marco Reus (11) como um fantasma que pode chegar a qualquer momento, mas não chega e o Olheiro Chefe Sven Mislintat, um dos melhores da Europa, que nesta semana foi, oficialmente, liberado pelo BVB e agora consta na folha de pagamento do Arsenal com salário anual de 1,7 milhões de euros sao muitos fatores contra o BVB e isso, no meio da temporada.

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Desastre com gostinho de 7×1

Assim como a partida entre Alemanha X Brasil na Copa de 2014 exibiu a desastrosa situação do futebol brasileiro no sentido mais amplo, a partida de sábado, com Dortmund jogando em casa, espelhou a situação desastrosa de um dos times mais tradicionais e mais guerreiros da história do futebol alemão: Apagão da defesa, um técnico sem um Plano B, um diretor esportivo que decide tudo à revelia do técnico e jogadores infelizes na equipe. Aubameyang mostrou toda a sua imaturidade ao, depois de receber o cartão amarelo, arriscar o vermelho e sair de campo aos 72 minutos, deixando seu time ainda mais desfalcado e acabando por deixar os nervos dos jogadores restantes (e não só deles), em frangalhos. Tudo era só desespero. A fenomenal atuação da “Velha Senhora”, o goleiro Roman Weidenfeller (substituindo Bürki, lesionado) evitou uma tragédia ainda maior.

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A partir dai foi uma passeio para o time de Gelsenkirchen, com um ataque em formato repetidos assaltos, definido pelo treinador Domenico Tedesco que, no intervalo na cabine, teria ajoelhado frente aos jogadores enquanto fazia um discurso acalorado.

Mario Götze, o autor do gol da Alemanha na final contra a Argentina continua gordo e não corre nada no campo. O capitão Marcel Schmelzer, há anos no time, nao sai da mediocridade e está longe de se tornar um Maestro como era Schweinsteiger em sua época de capitão no time bávaro. Marco Reus é um fantasma e a venda de Dembelè, seus passes matemáticos, sua imprevisibilidade e a dobradinha com Auba no ataque, se mostra dolorosa em casa jogo do Borussia. O final da tragédia foi arrematado pelo brasuca Naldo, com um gol sensacional já nos minutos da prorrogação. Sem chances para Weidenfeller.

Depois do Derby ficou bem claro que os dias do técnico holandês em Dortmund estão contados.

E como se a onda de penúria futebolística não fosse o suficiente, no próximo de 20 de Dezembro, o BVB tem um confronto com o FC Bayern, esse jogando em casa, valendo as oitavas de final da Copa da Alemanha (DFB Pokal). Caso o time amarelo e preto seja eliminado da competição de maior prestígio no Futebol Alemão, Bosz poderá antecipar sua volta para Holanda, antes mesmo do início das Férias de Natal.