Brasileiros que fazem a diferença em Berlim: Fred Burle, produtor de cinema

Brasileiros que fazem a diferença em Berlim: Fred Burle, produtor de cinema

Fátima Lacerda

12 Fevereiro 2018 | 13h32

O tópico “BrasileirXs que fazem a diferença em Berlim” teve sua estreia com duas mulheres. O pontapé inicial foi com a curadora independente de Artes Plásticas, a paulista-berlinense Tereza Arruda. A segunda matéria do tópico foi sobre artista plástica franco-cearense-berlinense, Luzia Simons. Nessa edição, o nosso foco é um brasiliense (nascido em Minas Gerais): Fred Burle, Produtor de Cinema.

A entrevista foi realizada numa quarta-feira do início desse ano. O local? O terraço da Academia de Filme e TV (DFFB, na sigla) e que fica localizada no centro turístico e de comércio da capital, Potsdamer Platz e no lugar de maior peso cinematográfico da cidade.


No mesmo prédio, se encontram o cinema Arsenal, distribuidora com o mesmo nome e o Museu Alemão do Cinema. Tudo isso no prédio com o nome de „Filmhaus“. Logo ali em frente, o prédio do escritório da Berlinale. Logo atrás dele, a rede de cinemas CinemaXX.

Fred reside em Berlim desde 2010. Terminou seu curso na cadeira de Produção de TV e Cinema na DFFB em julho de 2017. A Academia, que é uma das melhores do mundo. É também famosa por ter um processo de admissão dificílimo. O resultado é um grupo de privilegiados em curso formado pela elite da nova geração com alunos meticulosamente escolhidos. No ano de Fred, foram admitidos 36 alunos para as cadeiras de direção, roteiro, produção e fotografia. O grop de Fred, na cadeira de produção eram somente seis. Um verdadeiro luxo de uma faculdade com atendimento personalizado. Além disso, segundo info concedida pelo próprio Fred durante da entrevista, ele é o único brasileiro que foi admitido até hoje em toda a história da Academia.

Depois de ter cursado Arquivologia e Cinema na Universidade de Brasília, sua carreira chegara a um ponto decisivo. Ou sairia do Brasil naquela época ou não sairia mais.

Atrás de um jeito tímido de Fred, se delineia, durante a conversa, um verdadeiro plano Marshall de preparo sob a premissa de uma disciplina prussiana para topar e superar os desafios em Berlim, cidade onde ele chegou sem nenhum conhecimento da língua de Schiller e Goethe. Na prova escrita da academia, ele redigiu as primeiramente respostas em português, as traduziu para o alemão e ainda foi um dos primeiros a entregar a prova. Quem pensa que Fred esperou o término dos estudos para, como brasileiro, digo, estrangeiro, adentrar o concorrido setor de cinema, se engana. No Intermezzo dos estudos ele trabalhou como crítico de filmes na The Match Factory, empresa de vendas internacionais, na Berlinale e no Festival de Cinema de Munique. Dois filmes de curta-metragem, produzidos por ele na própria DFFB, „Só mais dois centímetros“ e Espaço protegido“, tiveram excelente carreira sendo exibidos em mais de 400 festivais.

A atuação de Fred na Academia de Cinema e TV foi tão convincente, que logo após concluir o curso, ele foi convidado para fazer parte da comissão de seleção de novos alunos, agora do lado da banca. Melhor recompensa nos quesitos qualidade do trabalho e credibilidade, impossível. E tudo isso, muito antes de ter chegado aos 40 anos.

Logo em seguida ao término de sua faculdade, ele foi contratado pela empresa berlinense One Two Films que estará muito bem representada com dois filmes na próxima Berlinale (15.-25.02.).

Um deles é „The Tale“, dirigido por Jennifer Fox com Laura Dern como protagonista. O filme acaba de contabilizar cinco Standing Ovations em cinco sessões no Festival de Sundance, além de ser sido vendido para o canal HBO ocupando o Ranking de segunda maior venda no festival desse ano.

O filme „Freiheit“ (Liberdade), dirigido por Jan Speckenbach e que foi exibido em 2017 em Locarno, Varsóvia, São Paulo e Copenhague, estreou em 08/02 nos cinemas alemães.

Para coroar o sucesso da One Two Films, empresa em que Fred trabalha, o filme „The Bookshop“ da diretora franco-espanhola Isabel Coixet será exibido na mostra Berlinale Special Gala. Vale mencionar que a diretora iniciou sua carreira europeia na Berlinale, outrora na mostra Fórum. Mesmo antes de chegar a Berlim o filme „The Bookshop“ já foi vendido para mais de 30 países e ganhou recentemente 3 Goyas, o Oscar do filme espanhol, nas categorias Melhor filme, direção e roteiro.

©Berlinale

Empolgado com a chegada da Berlinale e com as perspectivas do filme dirigido por Isabel Coixet, e a perspectiva de atuar em co-produções na América Latina sobre o teto da empresa em que trabalha, Fred falou exclusivo com o Blog:

FL: Qual foi a motivação para você ir para a Berlim?

A motivação maior foi a vontade de expandir os horizontes. De fazer cinema não só no Brasil, em Brasília, onde eu morava., mas também poder fazer o cinema europeu, que eu gosto muito também e fazer essa ponte entre o Brasil e a Europa. Pesquisando os países possíveis para se estudar cinema na Europa e vi que a Academia em Berlim ela está entre as dez melhores do mundo.

Em nenhum momento a barreira da língua alemã, tida como uma língua como absolutamente hermética e complexa, foi pra você uma dúvida ou um empecilho?

Foi muito. Eu me mudei para Berlim sem saber a língua. Eu vim um ano antes de iniciar os estudos para aprender a língua e me candidatar na Academia, em alemão. Eu tive seis meses para aprender a língua. Fiz a inscrição para a DFFB, achando que era somente um exercício para me preparar melhor para o ano seguinte, mas fui admitido logo de primeira. O primeiro ano de estudos, porém, é sempre muito difícil. Uma linguagem muito específica, com vocabulário que a gente não aprende em escola de língua. Teve momentos de muita dúvida. Depois de um ano de estudo, a coisa então deslanchou.

Quais são as suas lembranças do período de início? Como você o descreveria?

(Risos) Foi um período muito intenso, não “só” pela dificuldade da língua, mas também pela distância da família, pelas incertezas. Eu era formado em Arquivologia no Brasil, trabalha com isso, já produzia cinema documentário em Brasília. A carreira estava deslanchando lá e eu tive que abandonar tudo e agarrar essa chance de vir. Eu vi aquilo ali como um ponto divisor. Um divisor de águas. Ou eu vinha naquela época ou eu não vinha mais. Porque a minha carreira (de arquivologia) não iria mais deixar. Vim antes que a minha carreira deslanchasse. Fiquei muito em dúvida, se havia tomado a decisão certa. Foi um passo para atrás para poder dar dois pra frente. É um período também de muitas descobertas, aprender uma língua nova num país novo sem poder utilizar a nossa língua para poder se comunicar. Você se sente um pouco como criança, aprendendo a falar novamente (risos) com as pessoas achando bonitinho quando você começa a falar certo. É uma mescla de descobertas e de muita dúvida, também.

E sobre os cliches como quem vem do Brasil. Isso te acompanhou e como você lidou com elas?

Eu tentei lidar com humor. Mas também nos momentos sérios, imprimir uma seriedade, para deixar muito claro para o que eu vim.

Você já havia estudado cinema no Brasil. Quais são as diferenças do curso na Alemanha?

As condições que nos são dadas aqui, são muito melhores do que no Brasil. As condições que nos são dadas aqui são muito melhores do que no Brasil. Enquanto os alunos daqui, acostumados com o luxo e reclamavam por pequenas coisas, eu sempre fui muito agradecido de ter sido selecionado e ter tido a chance de estudar numa escola com muito mais suporte técnico e de estrutura do que o suporte que eu tinha na UnB, por exemplo, que tem professores excelentes, mas que tem uma base técnica ainda muito subdesenvolvida.

Como é a experiência de ter um filme tão importante na Berlinale?

É a primeira vez que eu vou participar do festival com um filme. No ano passado eu estive no festival pela imprensa e já peguei toda a atmosfera do mercado de cinema, do encontro com possíveis coprodutores, a busca por projetos novos. A diferença esse ano é que temos um filme sendo exibido. Os produtores majoritários s os espanhóis. A maior parte da comunicação com o festival é com os espanhóis. Nós fazemos o suporte por somos locais e todo o trâmite que está sendo feito com a distribuidora alemã com estreia marcada para 10 de maio.

Tem um frio na barriga pouco antes do festival tendo um filme na Berlinale Special?

O fato de estar na Berlinale com um filme cujãoa diretora é a Isabel Coixet com um elenco britânico muito conhecido como a Emily Mortimer, a Patricia Clarkson e eles todos irão estar aqui! Por esse lado, da um nervosinho sim, mas eu também eu não sou o maior responsável pela produção. Então eu estou ali para ajudar, mas para curtir também. Porque essas fases a gente nunca sabe quantas vezes elas vão se repetir e se elas vão se repetir. E eu estou mais ligado, desta forma, na verdade.

Sobre o trabalho na empresa OneTwoFilms

A empresa me contratou, também, pelo meu Background latino. Eles tem co-produção com países do mundo todo, mas não tem ainda produções com a América Latina. É a oportunidade que eles me dão a chance de atuar como produtor desses projetos, caso apareça um sob o teto da empresa. Ai o círculo terá se fechado.

Meta de co-produção com o Brasil?

Filmes bons no Brasil, que às vezes são produzidos somente em território nacional.por estar longe dos contatos na Europa, acabem se limitando. Eu quero muito levar o cinema do Brasil e da América do Sul para fora também.

 

Links relacionados:

http://www.onetwofilms.com

http://www.dffb.de/html/de/akademie/die_dffb