Cinema+Futebol, “Democracia Corinthiana”e Sócrates Brasileiro em Berlim

Fátima Lacerda

29 Março 2015 | 15h59

11 mm e um desses festivais despretensiosos na forma e, talvez por isso, sempre surpreendente no conteúdo escolhido, acima de tudo, com muita paixão.

O cinema que durante 4 dias no ano vira o palco do festival é o Babylon, pertinho de Alexanderplatz e de frente para o Volksbühne (Palco do povo), o teatro autoral mais provocador da capital.

Filmes para diferentes gostos

Nenhuma pessoa apaixonada por futebol sai frustrada desse festival. A diversidade programática e tão eclética, que tem delicatessen para todo o tipo de torcedores. Fãs do clube de tradição como o “Fortuna Düsseldorf”, do recém-falecido treinador Udo Lattek, que screveu historia no futebol alemão ou dos aficionados do 1. FC Union, um clube que joga na liga regional, mas que é de forma orgânica associado à identidade berlinense como a salsicha com molho curry.

A paixão dos organizadores e curadores do 11 mm garante, sempre, a mistura saborosa de cinema e futebol. Quando a esses ingredientes é acrescentado o tempero do futebol brasileiro, ai, haja coração! 

Refletindo o futebol

Entre os filmes que regozijaram a nossa retina, estão “Vida” um curta-metragem de 3 minutos. “Uma reflexão sobre a vida, ilustrada e inspirada por jogadas de futebol”. A direção é de Gordeeff. Numa noite cheia de pérolas, o “Vida” poderia ter caído no esquecimento, mas a sensibilidade do filme emocionou, contagiou.

https://www.youtube.com/watch?v=2NJbImwP4sc

Mesmo já tendo chegado em Berlim premiado no festival “É tudo verdade” e em Barcelona, o filme “Democracia em Preto e Branco” é um mosaico, um poster da efervescência do Brasil dos anos 80: As emergentes bandas de Rock que tocaram no nervo da Geração Coca-Cola, a campanha pelas Diretas Já, pelo país. Juntando de forma magistral cinema, música e política (como fala em depoimento o apresentador Serginho Groisman), o diretor Pedro Asbeg mostra o modelo revolucionário de organização de um clube de futebol, a “Democracia Corinthiana” alinhavada, dentro e fora do campo pelo Trio, Sócrates Brasileiro, Vladimir e Walter Casa Grande.

 BESTPH1.jpg

Asbeg exalta, sem ser patético e “armado” com a voz incomparável e inconfundível da Rainha do Rock, Rita Lee, uma luta no caminho da brasilidade, da procura de identidade e de querer ouvir essas bandas cantarem as nossas próprias histórias: “Os caras dessas bandas tem a mesma idade que eu e falam a minha língua”, diz Casa Grande em um dos seus depoimentos. A famosa Solange Maria Hernandez, da censura (aquela que foi eternizada na música do Léo Jaime) também é tema dos filmes. Como não ser? A importância do lançamento do terceiro disco  dos Titãs, o “Cabeça Dinossauro”. Depois de esperar anos na gaveta, “Bichos escrotos” foi então aprovada e acertava as contas com a burguesia apolítica enquanto o  Ira! atestava: “Eu quero lutar, mas não com essa farda” e os Paralamas (do Sucesso) criticavam: “A determinação de manter tudo em seu lugar”.

Sócrates Brasileiro

Democracia Corinthiana” votava sobre as contratações, possibilitava a participação de todos os funcionários nos lucros da empresa, entre eles, roupeiros, motoristas do ônibus, massagistas. Aproveitaram a crise que o clube atravessava e abriram espaço para um novo modelo de regência e de lidar com os jogadores, abolindo inclusive a obrigatoriedade da concentração antes do jogo.

No bate-papo depois do filme, um expectador alemão se pronunciou dizendo achar o depoimento de Sócrates o de “um homem derrotado”. Pelo contrário, o depoimento que foi gravado em agosto de 2010 mostra um Sócrates certo de porque e pra que fez o que fez e como fez. Sereno. Nada mais bonito do que tal clareza no final da vida.

Na noite de exibição, de cinema lotado, os alemães ficaram sabendo que, além do bailarino e do maestro regente nos campos, capitão da seleção canarinho, aquele que decidia o jogo, o Dr. Sócrates foi um visionário, politicamente engajado, teimoso e que foi a mente de uma revolução dentro do clube. Para arrematar o momento único e feliz, o publicitário Washington Olivetto criou a marca “Democracia Corinthiana” igualzinho ao logotipo da Coca-Cola em deliciosa provocação dos apaixonados pelo Corinthians.

O filme que marca um momento histórico de tentativa de redemocratização do país foi exibido em Berlim logo depois das passeatas do último 15 de março, com muitos brasileiros nas ruas exigindo intervenção militar, fator preocupante para muitos, inclusive para o diretor, que expressou seu repúdio e preocupação no momento da apresentação do filme.

A entrevista realizada com o diretor Pedro Asbeg, depois da exibição do filme, você assiste aqui:

https://www.youtube.com/watch?v=Mf5vGCB5sV4

Links relacionados:

http://www.11-mm.de/index.php/de/

http://www.democraciaempretoebranco.com/diretor